Terras raras do Brasil: quais são e onde estão
Série Terras Raras do Brasil, episódio 1. O país tem uma das maiores reservas do planeta, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção e tecnologia. Conheça os 17 elementos, os principais polos brasileiros e os desafios ambientais e industriais da exploração.

Este é o primeiro episódio da série Terras Raras do Brasil, do AMB4. Aqui, o panorama geral. Nos próximos, cada grupo de elementos: para que serve, onde está no Brasil, quem está de olho, quanto vale e o que esperar do futuro.
O Brasil reúne uma das maiores reservas de terras raras do planeta, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção e tecnologia. Conheça os 17 elementos, os principais polos minerais brasileiros e os desafios ambientais e industriais de sua exploração.
O que são terras raras?
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente raras na crosta terrestre. São 17 elementos químicos metálicos com propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas importantes para a indústria moderna. O grupo é formado pelos 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Muitos são relativamente abundantes, mas raramente aparecem concentrados e separados em depósitos fáceis de aproveitar.

Estão presentes em motores elétricos, turbinas eólicas, smartphones, equipamentos médicos, lasers, fibras ópticas, catalisadores e sistemas de defesa. O maior desafio não é apenas encontrar o minério. É separar, purificar e transformar os elementos em materiais de alto desempenho com custo competitivo e controle ambiental.
Quais são os 17 elementos?
| Elemento | Exemplo de aplicação |
|---|---|
| Lantânio (La) | Lentes e catalisadores |
| Cério (Ce) | Catalisadores e polimento de vidros |
| Praseodímio (Pr) | Ímãs permanentes |
| Neodímio (Nd) | Ímãs para motores e turbinas |
| Promécio (Pm) | Aplicações nucleares especializadas |
| Samário (Sm) | Ímãs resistentes ao calor |
| Európio (Eu) | Materiais luminescentes |
| Gadolínio (Gd) | Contrastes de ressonância magnética |
| Térbio (Tb) | Ímãs e materiais luminescentes |
| Disprósio (Dy) | Ímãs para altas temperaturas |
| Hólmio (Ho) | Lasers especializados |
| Érbio (Er) | Amplificadores de fibra óptica |
| Túlio (Tm) | Lasers médicos e industriais |
| Itérbio (Yb) | Lasers industriais |
| Lutécio (Lu) | Detectores e medicina nuclear |
| Escândio (Sc) | Ligas metálicas |
| Ítrio (Y) | Cerâmicas técnicas e lasers |
Nem todos têm o mesmo peso econômico. Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio atraem especial interesse por seu uso em ímãs permanentes. O promécio é radioativo e praticamente não integra a mineração comercial convencional.

Onde estão as terras raras no Brasil?
O potencial brasileiro está distribuído por diversas regiões. Porém, ocorrência geológica, recurso mineral, reserva economicamente aproveitável e produção efetiva são conceitos diferentes. A presença de um mineral em determinado estado não significa que ali exista uma mina em operação.

Goiás. Minaçu abriga a operação Serra Verde, referência na exploração de argilas iônicas com terras raras. Nova Roma e Catalão também figuram no panorama de pesquisas e ocorrências. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), em outubro de 2026 as quatro áreas com lavra ativa de terras raras do país estavam em Goiás.
Minas Gerais. Araxá, Poços de Caldas, Caldas, Tapira e Tiros concentram depósitos, estudos e projetos de diferentes características. A região reúne mineralizações associadas a complexos alcalinos, carbonatitos e argilas, entre outros contextos.
Bahia. Jequié e outras áreas do interior apresentam prospectos que vêm atraindo pesquisa geológica. O estado registrou forte expansão do interesse por autorizações de pesquisa mineral nos últimos anos.
Amazonas. Pitinga e Morro dos Seis Lagos são referências do potencial geológico regional. A viabilidade de qualquer empreendimento depende de fatores técnicos, econômicos, ambientais e, quando aplicável, restrições legais e territoriais.

Pará e Rondônia. Há ocorrências e alvos de pesquisa. Em Rondônia, parte do interesse está associada a contextos mineralizados também conhecidos por estanho.
São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro. Jacupiranga, no estado paulista, é exemplo de complexo alcalino-carbonatítico relevante. No Paraná há ocorrências em estudo. No litoral fluminense existem registros históricos de minerais pesados, como a monazita.
Esta seleção apresenta exemplos de polos e ocorrências, não um inventário exaustivo de depósitos. Uma classificação rígida de estados como “avançados” ou “iniciais” pode ocultar a variedade de projetos dentro de cada unidade da federação.
Quanto o Brasil possui e quanto produz?
O USGS, no Mineral Commodity Summaries 2026, estima cerca de 21 milhões de toneladas de reservas brasileiras, expressas em equivalente de óxidos de terras raras. É uma das maiores estimativas nacionais do mundo, atrás da China. Essa medida não equivale a 21 milhões de toneladas já extraídas nem significa que todos os depósitos estejam prontos para exploração.
A ANM informou, em 14 de outubro de 2026, que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025. A agência também registrou 3.067 áreas em fase de pesquisa mineral, 78 áreas com pesquisa final aprovada ou requerimento de lavra em etapas específicas e quatro áreas com lavra ativa, todas em Goiás. Os números revelam a distância entre potencial geológico e produção industrial.
| Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Reservas estimadas (equivalente em óxidos) | cerca de 21 milhões de t | USGS, MCS 2026 |
| Produção em 2025 (concentrado de óxidos) | 326 t | ANM, 14/10/2026 |
| Áreas em fase de pesquisa mineral | 3.067 | ANM, 14/10/2026 |
| Áreas com pesquisa final aprovada ou requerimento de lavra | 78 | ANM, 14/10/2026 |
| Áreas com lavra ativa | 4 (todas em Goiás) | ANM, 14/10/2026 |
Convém evitar comparações automáticas entre estatísticas de produção de instituições diferentes: o tipo de produto contabilizado e a metodologia podem variar.
Da mina ao ímã: o desafio industrial
A cadeia de valor começa com pesquisa geológica e lavra, mas não termina aí. Em geral, é necessário concentrar o minério, separar quimicamente os elementos, produzir óxidos de elevada pureza e convertê-los em metais, ligas e componentes. A separação pode ser complexa porque os elementos apresentam propriedades químicas muito semelhantes.

Por isso, deter reservas não é o mesmo que controlar a tecnologia. O Brasil precisa decidir como ampliar a capacidade de processamento, desenvolver pesquisa aplicada e conectar universidades, indústria e mineração. A geração de valor pode estar muito mais na transformação tecnológica do que na simples exportação de concentrados.

O que a mineração de terras raras representa para o meio ambiente?
Terras raras são importantes para equipamentos associados à transição energética, mas sua extração não é automaticamente sustentável. Os impactos dependem do tipo de depósito, método de lavra, beneficiamento, localização e qualidade do controle ambiental. Podem envolver supressão vegetal, alteração de solos, consumo de água, efluentes, reagentes químicos, rejeitos e riscos à biodiversidade.

Certos minerais, especialmente algumas monazitas, podem conter tório e urânio. Nesses casos, os estudos ambientais e os procedimentos de manejo precisam considerar também aspectos radiológicos. Depósitos de argilas iônicas apresentam outro conjunto de desafios, inclusive o controle de soluções utilizadas na extração, conforme o processo adotado.

A avaliação ambiental exige estudos de base, análise de alternativas, controle de efluentes, gestão de resíduos, recuperação de áreas e monitoramento de longo prazo. Uma cadeia mineral voltada a tecnologias mais limpas precisa demonstrar que os ganhos pretendidos não estão sendo obtidos à custa de impactos mal administrados na origem.
O que o Brasil pode fazer?
A pesquisa geológica precisa avançar ao lado do desenvolvimento de processos de separação e refino. Também são relevantes a transparência dos dados minerais, o planejamento territorial, o licenciamento tecnicamente fundamentado, a fiscalização e a pesquisa sobre reaproveitamento de rejeitos e reciclagem de materiais que contêm terras raras.
É necessário distinguir projetos viáveis daqueles que ainda representam apenas potencial. Investimento, infraestrutura, energia, segurança jurídica e capacidade de formar profissionais especializados serão determinantes para que depósitos minerais se transformem em uma cadeia industrial competitiva.
Conclusão: riqueza mineral não é sinônimo de desenvolvimento
As terras raras oferecem ao Brasil uma oportunidade de participar de cadeias tecnológicas estratégicas. Mas possuir grandes reservas é apenas o ponto de partida. O benefício real dependerá de ciência, processamento industrial, governança e responsabilidade ambiental.
Se o Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, conseguirá transformar essa riqueza em desenvolvimento sem repetir os velhos erros da mineração?
Próximos episódios da série
- Neodímio e praseodímio: os ímãs do carro elétrico e da turbina eólica
- Disprósio e térbio: as terras raras pesadas e o trunfo das argilas iônicas de Goiás
- Lantânio e cério: as mais abundantes e o problema do excedente
- Ítrio, európio, gadolínio, érbio e outras: luz, medicina e fibra óptica
- Escândio: ligas leves para aviação e o nicho de alto valor
- Monazita, tório e urânio: o lado radiológico das terras raras
- Do minério ao ímã: refino, política de minerais críticos e o futuro do Brasil na cadeia
Fontes e leitura complementar
- Agência Nacional de Mineração (ANM). Autorizações de pesquisa para terras raras e dados do Portal de Minerais Críticos e Estratégicos, 14/10/2026: gov.br/anm
- ANM. Sumário Mineral Brasileiro 2025, capítulo Terras Raras: gov.br/anm
- Serviço Geológico do Brasil (SGB). Avaliação do potencial de terras raras no Brasil: rigeo.sgb.gov.br
- US Geological Survey (USGS). Mineral Commodity Summaries 2026: pubs.usgs.gov
- ANM. Minerais Críticos e Estratégicos, perguntas frequentes: gov.br/anm
Conteúdo informativo, publicado em outubro 22, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.