Biodiversidade

Sumiu por 13 anos e voltou: ave rara reaparece na Costa do Marfim, e o Brasil tem uma história parecida

O Ghana cuckooshrike, sem registro confirmado desde 2013, foi fotografado e filmado em julho de 2026 no Parque Nacional de Taï, na Costa do Marfim. No Brasil, a rolinha-do-planalto ficou 75 anos sem registro até ser reencontrada em 2015.

Por Redação AMB4 5 min AmbienteSociedade
Ilustração de 1838 do Ghana cuckooshrike, ave de cabeça azul, barbela vermelha e corpo laranja e verde
Ghana cuckooshrike em ilustração de 1838. Crédito: Nicolas Huet e Jean Gabriel Prêtre / Wikimedia Commons, domínio público

Em julho de 2026, dois pesquisadores caminhavam pelo Parque Nacional de Taï, na Costa do Marfim, quando viram uma ave extremamente rara na copa da floresta. Corpo alaranjado, asas amarelas e pretas, cabeça escura e uma barbela vermelha. Era o Ghana cuckooshrike (Lobotos lobatus), que estava há 13 anos sem registro confirmado. Com o reencontro, todas as aves consideradas “perdidas” da África Ocidental já foram localizadas.

O reencontro

O último registro confirmado da espécie havia ocorrido em 2013, na Reserva Florestal de Atewa, em Gana. Antes disso, a ave tinha sido vista em Serra Leoa nos anos 1970, perto de Divo, na Costa do Marfim, em 1999, e no Parque Nacional de Kakum, em Gana, em 2010.

Quem a reencontrou foram Stephanie Bartlett e Paulo Ditzel, pesquisadores de campo da International Bird Conservation Partnership (IBCP), durante uma expedição de seis meses pela África Ocidental. Eles atravessavam uma ponte sob a copa da floresta quando avistaram a ave.

O encontro durou poucos minutos. Os pesquisadores conseguiram fotografar e filmar a ave enquanto ela se movia entre outras espécies, e chegaram a vê-la capturar uma lagarta. Depois, ela desapareceu entre as árvores. As imagens são consideradas as melhores já feitas da espécie, incluindo o que deve ser o primeiro vídeo dela.

“Foi uma surpresa maravilhosa”, disse Nico Arcilla, da IBCP.

Floresta do Parque Nacional de Taï sob neblina
Parque Nacional de Taï, Costa do Marfim. Foto: yakovlev.alexey / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Uma ave difícil de ver

O Ghana cuckooshrike vive nas florestas da Alta Guiné e passa a maior parte do tempo a 20 ou 50 metros de altura, no alto das copas, deslocando-se em silêncio junto com bandos mistos de outras aves. Esse comportamento discreto ajuda a explicar por que ele passou tanto tempo sem ser registrado.

O caso faz parte do esforço associado à iniciativa Search for Lost Birds, uma parceria entre American Bird Conservancy, Re:wild e BirdLife International, que busca espécies sem registro confirmado há pelo menos uma década. Quando a lista foi publicada, em 2022, eram 163 aves perdidas. Hoje são cerca de 120. Com este reencontro e com os do Rusty lark, em 2024, e do Togo yellow-billed barbet, em 2022, todas as aves “perdidas” da África Ocidental já foram encontradas.

Encontrada não significa salva

A floresta da Alta Guiné sofreu intensa fragmentação. Na Costa do Marfim, mais de 90% da floresta nativa já foi destruída, em grande parte para a expansão de plantações de cacau e pela extração de madeira. O próprio Parque Nacional de Taï, patrimônio mundial da Unesco com mais de 250 espécies de aves, enfrenta extração ilegal de madeira, produção de carvão, caça e garimpo ilegal de ouro.

A espécie é classificada como Vulnerável pela IUCN. Encontrá-la novamente não significa que ela esteja segura. Significa que ainda existe uma oportunidade de estudá-la e protegê-la.

Plantação de cacau na Costa do Marfim
Plantação de cacau na Costa do Marfim. Foto: Hanay / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

E no Brasil?

O Brasil tem uma das histórias de redescoberta mais marcantes do mundo. A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), uma pequena pomba de olhos azuis do Cerrado, ficou sem nenhum registro confirmado de 1941 a 2015. Naquele ano, o ornitólogo Rafael Bessa a reencontrou em Botumirim, no norte de Minas Gerais, 75 anos depois.

A área onde ela foi encontrada virou uma reserva particular, e hoje há um programa de reprodução da espécie sob cuidados humanos. Ainda assim, a rolinha-do-planalto segue classificada como Criticamente em Perigo, com uma população muito pequena e fragmentada, ameaçada pela conversão do Cerrado em pastagens e lavouras e pelas queimadas.

Rolinha-do-planalto pousada em galho
Rolinha-do-planalto em Botumirim (MG). Foto: Hector Bottai / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O que fica para quem trabalha com meio ambiente

Os dois casos mostram o valor de áreas protegidas e de levantamentos de fauna bem feitos. Uma espécie rara, que vive no alto das copas ou em áreas pouco visitadas, pode passar anos sem ser registrada. Isso não significa que ela desapareceu, e sim que ninguém a procurou no lugar certo, na hora certa.

Em números

IndicadorValor
Tempo sem registro do Ghana cuckooshrike13 anos (2013 a 2026)
Altura em que a ave vive20 a 50 m, na copa
Floresta nativa já perdida na Costa do Marfimmais de 90%
Espécies de aves no Parque Nacional de Taïmais de 250
Aves “perdidas” na lista em 2022163
Aves “perdidas” hojecerca de 120
Tempo sem registro da rolinha-do-planalto75 anos (1941 a 2015)

Cada redescoberta elimina uma pequena interrogação do mapa. Mas também cria outras: quantos indivíduos existem, onde vivem, como se reproduzem e do que dependem? Talvez a maior importância de encontrar novamente uma espécie não esteja apenas em confirmar que ela ainda existe. Está em ganhar uma segunda oportunidade para não perdê-la.


Fontes:

2 de outubro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em outubro 2, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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