Ciência e Meio Ambiente

Terras raras do Brasil: quais são e onde estão

Série Terras Raras do Brasil, episódio 1. O país tem uma das maiores reservas do planeta, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção e tecnologia. Conheça os 17 elementos, os principais polos brasileiros e os desafios ambientais e industriais da exploração.

Por Redação AMB4 10 min AmbienteEconomiaFuturo
Terras raras do Brasil: quais são e onde estão

Este é o primeiro episódio da série Terras Raras do Brasil, do AMB4. Aqui, o panorama geral. Nos próximos, cada grupo de elementos: para que serve, onde está no Brasil, quem está de olho, quanto vale e o que esperar do futuro.

O Brasil reúne uma das maiores reservas de terras raras do planeta, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção e tecnologia. Conheça os 17 elementos, os principais polos minerais brasileiros e os desafios ambientais e industriais de sua exploração.

O que são terras raras?

Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente raras na crosta terrestre. São 17 elementos químicos metálicos com propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas importantes para a indústria moderna. O grupo é formado pelos 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Muitos são relativamente abundantes, mas raramente aparecem concentrados e separados em depósitos fáceis de aproveitar.

Seis montes de pó de óxidos de terras raras em tons de branco, bege e preto
Óxidos de terras raras. No sentido horário, a partir do alto, ao centro: praseodímio, cério, lantânio, neodímio, samário e gadolínio. Foto: Peggy Greb/USDA, domínio público (Wikimedia Commons).

Estão presentes em motores elétricos, turbinas eólicas, smartphones, equipamentos médicos, lasers, fibras ópticas, catalisadores e sistemas de defesa. O maior desafio não é apenas encontrar o minério. É separar, purificar e transformar os elementos em materiais de alto desempenho com custo competitivo e controle ambiental.

Quais são os 17 elementos?

ElementoExemplo de aplicação
Lantânio (La)Lentes e catalisadores
Cério (Ce)Catalisadores e polimento de vidros
Praseodímio (Pr)Ímãs permanentes
Neodímio (Nd)Ímãs para motores e turbinas
Promécio (Pm)Aplicações nucleares especializadas
Samário (Sm)Ímãs resistentes ao calor
Európio (Eu)Materiais luminescentes
Gadolínio (Gd)Contrastes de ressonância magnética
Térbio (Tb)Ímãs e materiais luminescentes
Disprósio (Dy)Ímãs para altas temperaturas
Hólmio (Ho)Lasers especializados
Érbio (Er)Amplificadores de fibra óptica
Túlio (Tm)Lasers médicos e industriais
Itérbio (Yb)Lasers industriais
Lutécio (Lu)Detectores e medicina nuclear
Escândio (Sc)Ligas metálicas
Ítrio (Y)Cerâmicas técnicas e lasers

Nem todos têm o mesmo peso econômico. Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio atraem especial interesse por seu uso em ímãs permanentes. O promécio é radioativo e praticamente não integra a mineração comercial convencional.

Ímãs de neodímio em formato de pequenos blocos prateados
Ímãs de neodímio-ferro-boro, o principal uso de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

Onde estão as terras raras no Brasil?

O potencial brasileiro está distribuído por diversas regiões. Porém, ocorrência geológica, recurso mineral, reserva economicamente aproveitável e produção efetiva são conceitos diferentes. A presença de um mineral em determinado estado não significa que ali exista uma mina em operação.

Mapa do Brasil com os principais polos de terras raras: Goiás com lavra ativa; Amazonas, Bahia e Minas Gerais com projetos e pesquisa forte; Pará, Rondônia, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro com ocorrências e potencial
Principais polos de terras raras no Brasil, por estágio. Arte: AMB4, com base em ANM e SGB.

Goiás. Minaçu abriga a operação Serra Verde, referência na exploração de argilas iônicas com terras raras. Nova Roma e Catalão também figuram no panorama de pesquisas e ocorrências. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), em outubro de 2026 as quatro áreas com lavra ativa de terras raras do país estavam em Goiás.

Minas Gerais. Araxá, Poços de Caldas, Caldas, Tapira e Tiros concentram depósitos, estudos e projetos de diferentes características. A região reúne mineralizações associadas a complexos alcalinos, carbonatitos e argilas, entre outros contextos.

Bahia. Jequié e outras áreas do interior apresentam prospectos que vêm atraindo pesquisa geológica. O estado registrou forte expansão do interesse por autorizações de pesquisa mineral nos últimos anos.

Amazonas. Pitinga e Morro dos Seis Lagos são referências do potencial geológico regional. A viabilidade de qualquer empreendimento depende de fatores técnicos, econômicos, ambientais e, quando aplicável, restrições legais e territoriais.

Lago de águas escuras cercado por floresta densa no Morro dos Seis Lagos, com um bote inflável na margem
Lago do Nióbio, na Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos (AM), área protegida citada como referência do potencial geológico regional. Foto: Gustavo Ganzaroli Mahé, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons).

Pará e Rondônia. Há ocorrências e alvos de pesquisa. Em Rondônia, parte do interesse está associada a contextos mineralizados também conhecidos por estanho.

São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro. Jacupiranga, no estado paulista, é exemplo de complexo alcalino-carbonatítico relevante. No Paraná há ocorrências em estudo. No litoral fluminense existem registros históricos de minerais pesados, como a monazita.

Esta seleção apresenta exemplos de polos e ocorrências, não um inventário exaustivo de depósitos. Uma classificação rígida de estados como “avançados” ou “iniciais” pode ocultar a variedade de projetos dentro de cada unidade da federação.

Quanto o Brasil possui e quanto produz?

O USGS, no Mineral Commodity Summaries 2026, estima cerca de 21 milhões de toneladas de reservas brasileiras, expressas em equivalente de óxidos de terras raras. É uma das maiores estimativas nacionais do mundo, atrás da China. Essa medida não equivale a 21 milhões de toneladas já extraídas nem significa que todos os depósitos estejam prontos para exploração.

A ANM informou, em 14 de outubro de 2026, que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025. A agência também registrou 3.067 áreas em fase de pesquisa mineral, 78 áreas com pesquisa final aprovada ou requerimento de lavra em etapas específicas e quatro áreas com lavra ativa, todas em Goiás. Os números revelam a distância entre potencial geológico e produção industrial.

IndicadorValorFonte
Reservas estimadas (equivalente em óxidos)cerca de 21 milhões de tUSGS, MCS 2026
Produção em 2025 (concentrado de óxidos)326 tANM, 14/10/2026
Áreas em fase de pesquisa mineral3.067ANM, 14/10/2026
Áreas com pesquisa final aprovada ou requerimento de lavra78ANM, 14/10/2026
Áreas com lavra ativa4 (todas em Goiás)ANM, 14/10/2026

Convém evitar comparações automáticas entre estatísticas de produção de instituições diferentes: o tipo de produto contabilizado e a metodologia podem variar.

Da mina ao ímã: o desafio industrial

A cadeia de valor começa com pesquisa geológica e lavra, mas não termina aí. Em geral, é necessário concentrar o minério, separar quimicamente os elementos, produzir óxidos de elevada pureza e convertê-los em metais, ligas e componentes. A separação pode ser complexa porque os elementos apresentam propriedades químicas muito semelhantes.

Compartimento de um carro elétrico com o motor e os cabos laranja de alta tensão
Motor de um carro elétrico. Motores de ímã permanente são um dos destinos finais das terras raras. Foto: Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz), CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons).

Por isso, deter reservas não é o mesmo que controlar a tecnologia. O Brasil precisa decidir como ampliar a capacidade de processamento, desenvolver pesquisa aplicada e conectar universidades, indústria e mineração. A geração de valor pode estar muito mais na transformação tecnológica do que na simples exportação de concentrados.

Aerogeradores do Parque Eólico de Osório em um campo verde sob céu azul
Parque Eólico de Osório (RS). Parte das turbinas eólicas usa geradores com ímãs de terras raras. Foto: Paulo rsmenezes, CC BY-SA 3.0 BR (Wikimedia Commons).

O que a mineração de terras raras representa para o meio ambiente?

Terras raras são importantes para equipamentos associados à transição energética, mas sua extração não é automaticamente sustentável. Os impactos dependem do tipo de depósito, método de lavra, beneficiamento, localização e qualidade do controle ambiental. Podem envolver supressão vegetal, alteração de solos, consumo de água, efluentes, reagentes químicos, rejeitos e riscos à biodiversidade.

Grande cava de mineração a céu aberto com bancadas escalonadas e montanhas ao fundo
Cava de mineração a céu aberto em Itabirito (MG), de minério de ferro. A escala da alteração do terreno ilustra por que a lavra exige licenciamento e recuperação de áreas. Foto: VitorAraujoSilva, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons).

Certos minerais, especialmente algumas monazitas, podem conter tório e urânio. Nesses casos, os estudos ambientais e os procedimentos de manejo precisam considerar também aspectos radiológicos. Depósitos de argilas iônicas apresentam outro conjunto de desafios, inclusive o controle de soluções utilizadas na extração, conforme o processo adotado.

Cristais de monazita marrom-avermelhados expostos em suporte de acrílico
Cristais de monazita, mineral que reúne terras raras e pode conter tório e urânio. Exemplar de Madagascar. Foto: Ra’ike, CC BY-SA 3.0 (Wikimedia Commons).

A avaliação ambiental exige estudos de base, análise de alternativas, controle de efluentes, gestão de resíduos, recuperação de áreas e monitoramento de longo prazo. Uma cadeia mineral voltada a tecnologias mais limpas precisa demonstrar que os ganhos pretendidos não estão sendo obtidos à custa de impactos mal administrados na origem.

O que o Brasil pode fazer?

A pesquisa geológica precisa avançar ao lado do desenvolvimento de processos de separação e refino. Também são relevantes a transparência dos dados minerais, o planejamento territorial, o licenciamento tecnicamente fundamentado, a fiscalização e a pesquisa sobre reaproveitamento de rejeitos e reciclagem de materiais que contêm terras raras.

É necessário distinguir projetos viáveis daqueles que ainda representam apenas potencial. Investimento, infraestrutura, energia, segurança jurídica e capacidade de formar profissionais especializados serão determinantes para que depósitos minerais se transformem em uma cadeia industrial competitiva.

Conclusão: riqueza mineral não é sinônimo de desenvolvimento

As terras raras oferecem ao Brasil uma oportunidade de participar de cadeias tecnológicas estratégicas. Mas possuir grandes reservas é apenas o ponto de partida. O benefício real dependerá de ciência, processamento industrial, governança e responsabilidade ambiental.

Se o Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, conseguirá transformar essa riqueza em desenvolvimento sem repetir os velhos erros da mineração?

Próximos episódios da série

  • Neodímio e praseodímio: os ímãs do carro elétrico e da turbina eólica
  • Disprósio e térbio: as terras raras pesadas e o trunfo das argilas iônicas de Goiás
  • Lantânio e cério: as mais abundantes e o problema do excedente
  • Ítrio, európio, gadolínio, érbio e outras: luz, medicina e fibra óptica
  • Escândio: ligas leves para aviação e o nicho de alto valor
  • Monazita, tório e urânio: o lado radiológico das terras raras
  • Do minério ao ímã: refino, política de minerais críticos e o futuro do Brasil na cadeia

Fontes e leitura complementar

  • Agência Nacional de Mineração (ANM). Autorizações de pesquisa para terras raras e dados do Portal de Minerais Críticos e Estratégicos, 14/10/2026: gov.br/anm
  • ANM. Sumário Mineral Brasileiro 2025, capítulo Terras Raras: gov.br/anm
  • Serviço Geológico do Brasil (SGB). Avaliação do potencial de terras raras no Brasil: rigeo.sgb.gov.br
  • US Geological Survey (USGS). Mineral Commodity Summaries 2026: pubs.usgs.gov
  • ANM. Minerais Críticos e Estratégicos, perguntas frequentes: gov.br/anm

Conteúdo informativo, publicado em outubro 22, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

Compartilhar:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *