Agro e solo

O lago não avisa: estudo com 859 lagos mostra que a agricultura ao redor prepara, por anos, uma virada brusca

Um lago aparentemente saudável pode mudar muito mais rápido do que imaginamos. Durante anos, nutrientes vindos de fertilizantes, esgoto e outras fontes se acumulam na água. Até que alguma coisa muda: a água fica verde, as algas proliferam, o oxigênio diminui e espécies começam a desaparecer. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Nature Communications analisou 859 lagos no mundo e concluiu que o risco dessa virada depende menos da expansão recente da agricultura e mais de quanto tempo o lago convive com ela.

Vista aérea de floração de algas verdes no Lago Erie
Floração de algas no Lago Erie, Estados Unidos. Foto: NOAA Great Lakes Environmental Research Laboratory / Wikimedia Commons, domínio público

Um lago aparentemente saudável pode mudar muito mais rápido do que imaginamos. Durante anos, nutrientes vindos de fertilizantes, esgoto e outras fontes se acumulam na água. Até que alguma coisa muda: a água fica verde, as algas proliferam, o oxigênio diminui e espécies começam a desaparecer. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Nature Communications analisou 859 lagos no mundo e concluiu que o risco dessa virada depende menos da expansão recente da agricultura e mais de quanto tempo o lago convive com ela.

O que é a virada de um lago

O processo é conhecido como eutrofização. O excesso de nutrientes, principalmente fósforo e nitrogênio, alimenta o crescimento de algas e cianobactérias. Quando elas morrem e se decompõem, consomem o oxigênio da água. Peixes e outras espécies sofrem, a água fica turva e, em alguns casos, as cianobactérias produzem toxinas.

O ponto importante é que essa mudança nem sempre acontece aos poucos. Um lago pode resistir por muito tempo, parecendo estável, e então mudar de estado de forma brusca e persistente. Depois disso, recuperá-lo pode ser difícil, demorado e caro.

Lago Bellandur tomado por vegetação aquática
Lago Bellandur, na Índia, tomado por vegetação aquática. Foto: Wyrnilla / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O estudo

O trabalho, de Jacob Serpico e Hao Wang, do Laboratório Interdisciplinar de Ecologia Matemática e Epidemiologia da Universidade de Alberta, no Canadá, foi publicado em 4 de setembro de 2026. Os pesquisadores analisaram 859 lagos ao redor do mundo, combinando informações sobre o estado trófico da água, isto é, seu nível de nutrientes, com o uso da terra nas áreas próximas.

Entre 2003 e 2022, eles identificaram 125 eventos de mudança brusca e persistente.

O passado pesa mais que o presente

Um dos resultados mais importantes foi perceber que o risco não depende apenas da expansão recente da agricultura. A exposição prolongada às áreas agrícolas ao redor dos lagos parece aumentar a vulnerabilidade deles ao longo do tempo.

Segundo o estudo, pequenos aumentos da área agrícola acima de uma condição de base elevaram em cerca de 16% o risco de uma mudança brusca nos 12 meses seguintes. O estado inicial do próprio lago também foi decisivo: um ecossistema já enriquecido em nutrientes tem uma margem de segurança muito menor para absorver novas pressões.

Outro achado chama a atenção: os chamados sinais de alerta precoce, indicadores estatísticos que em teoria anunciariam a proximidade de uma virada, acrescentaram pouco poder de previsão. Na prática, o histórico de ocupação agrícola e o nível de nutrientes disseram mais do que qualquer sinal de alerta.

Imagem de satélite do Lago Tai com florações de algas
Lago Tai, na China, com florações de algas vistas por satélite. Imagem: ESA, contém dados modificados do Copernicus Sentinel / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 IGO

E no Brasil?

O tema é bem conhecido por aqui, principalmente nas represas. A Billings, na Grande São Paulo, convive há décadas com florações de algas associadas ao esgoto e à ocupação do entorno, e é um dos exemplos mais citados de reservatório urbano sob pressão de nutrientes.

A legislação brasileira tem parâmetros para isso. A Resolução Conama 357/2005, que classifica os corpos d’água, fixa para ambientes lênticos de classe 2, como lagos e represas, o limite de 0,030 mg/L de fósforo total e de 30 µg/L de clorofila a. Em São Paulo, a Cetesb acompanha a situação com o Índice de Estado Trófico, que classifica os corpos d’água de ultraoligotrófico a hipereutrófico.

Represa Billings, na Grande São Paulo
Represa Billings, na Grande São Paulo. Foto: Hamilton B. Furtado / Wikimedia Commons, CC BY 3.0

O que fica para quem trabalha com meio ambiente

  • Bacia inteira, não só o lago: o risco é construído no entorno, ao longo de anos, pelo uso do solo e pelo lançamento de esgoto.
  • Histórico importa: licenciamento e planos de bacia deveriam considerar a exposição acumulada, e não apenas o impacto de um novo empreendimento isolado.
  • Monitorar o estado trófico: fósforo e clorofila dizem mais sobre o risco do que esperar sinais visíveis de degradação.

Em números

IndicadorValor
Lagos analisados859
Período2003 a 2022
Mudanças bruscas e persistentes identificadas125
Aumento no risco de virada em 12 mesescerca de 16%
Limite de fósforo total, classe 2, ambiente lêntico (Conama 357/2005)0,030 mg/L
Limite de clorofila a, classe 2 (Conama 357/2005)30 µg/L

O conceito ajuda a compreender uma característica importante dos sistemas naturais: nem toda degradação acontece de forma linear. Podemos aumentar lentamente a pressão durante anos e observar aparentemente pouca mudança, até que determinado limite é ultrapassado e a transformação acontece rapidamente. Quando percebemos visualmente que um lago entrou em colapso ecológico, parte da história daquela degradação pode ter começado muitos anos antes.


Fontes:

2 de outubro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em outubro 2, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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