Agro e solo

Não é a Rússia: de onde vêm de verdade os agrotóxicos e fertilizantes que o Brasil importa

O Brasil é potência agrícola, mas depende do resto do mundo pra plantar. A maior parte do agrotóxico usado na lavoura vem de um único país, e não é quem todo mundo imagina. Já no fertilizante, a dependência é real, só que mais espalhada do que parece.

Não é a Rússia: de onde vêm de verdade os agrotóxicos e fertilizantes que o Brasil importa

O Brasil é potência agrícola, mas depende do resto do mundo pra plantar. A maior parte do agrotóxico usado na lavoura vem de um único país, e não é quem todo mundo imagina. Já no fertilizante, a dependência é real, só que mais espalhada do que parece.

O agro brasileiro colhe safra recorde atrás de safra recorde, mas boa parte do que sustenta essa produção não é feita aqui. Levantamos os dados oficiais de comércio exterior pra responder uma pergunta simples: de onde vêm, de verdade, o agrotóxico e o fertilizante que chegam na lavoura?

Agrotóxico: quem manda é a China, não a Rússia

Entre janeiro e maio de 2026, o Brasil importou US$ 4,28 bilhões em defensivos químicos, o equivalente a 502,6 mil toneladas. Desse total, os produtos já formulados (prontos pra aplicar) somaram US$ 1,4 bilhão, divididos principalmente em herbicidas (US$ 471 milhões), inseticidas (US$ 295 milhões) e fungicidas (US$ 249 milhões).

Olhando por ingrediente ativo, o retrato é bem mais concentrado do que os números totais sugerem. A China é praticamente fornecedora única de vários dos principais herbicidas e inseticidas usados no país: imazapir, picloram, clorotalonil e glufosinato vêm quase 100% de lá. O glifosato, o herbicida mais usado do Brasil, tem 84% do valor importado vindo da China, o mesmo percentual do inseticida metomil. Bifentrina (81%), acefato (78%) e 2,4-D (66%) seguem o mesmo padrão.

Gráfico: participação da China nos principais princípios ativos de agrotóxico importados pelo Brasil

A exceção fica por conta do mancozebe, um fungicida amplamente usado em fruticultura e olericultura: aí quem lidera é a Índia, e a China responde por apenas 6% do valor importado. É o único ponto fora da curva numa lista dominada pela China do início ao fim.

Ou seja, quem depende de agrotóxico importado no Brasil está, na prática, dependendo de um fornecedor só. A Rússia, ao contrário do que muita gente pensa, não aparece entre os principais países de origem em nenhum dos ingredientes ativos levantados.

Plantação de soja em área rural no Brasil
A soja concentra mais de 40% de todo o fertilizante aplicado no Brasil. Imagem ilustrativa.

Fertilizante: aí sim a Rússia pesa, mas não é maioria

O quadro muda de figura no fertilizante. O Brasil importa cerca de 85% de todo o fertilizante que consome e é o quarto maior consumidor do mundo, respondendo por aproximadamente 8% da demanda global. Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Rússia foi de fato a maior fornecedora individual, com 22,1% do valor importado, mas isso está longe de ser “a maior parte”: Canadá (15,4%), China (13,4%), Marrocos (7,3%) e Egito (3,6%) completam o topo do ranking, e mais de um terço do total vem de outros países.

Gráfico: participação por país nas importações brasileiras de fertilizantes em 2026

O dado mais chamativo aparece quando se olha por tipo de fertilizante em vez de país de origem. A ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados usados na lavoura, teve zero produção nacional em 2024: cada tonelada usada no Brasil veio de fora. O sulfato de amônio segue o mesmo caminho, quase 100% importado, três quartos dele vindo da China. No cloreto de potássio, insumo essencial pra boa parte das culturas, a produção nacional cobre menos de 3% do consumo, e os outros 97% vêm principalmente de Rússia (39%), Canadá (35%) e Uzbequistão (10%). Já nos fosfatados, o MAP tem entre 70% e 80% importado, e o superfosfato simples, o mais “nacional” da lista, ainda assim depende de importação em 40% dos casos.

Gráfico: dependência de importação por tipo de fertilizante
Aplicação de ureia granulada em lavoura
A ureia usada na lavoura brasileira é 100% importada: nenhuma foi produzida no país em 2024. Imagem ilustrativa.

O mito e o dado real

Então, “a maior parte dos agrotóxicos vem da Rússia” é falso: quem domina esse mercado é a China, com folga, em praticamente todos os ingredientes ativos relevantes. Já “boa parte do fertilizante vem da Rússia” é verdadeiro, mas “boa parte” não é “a maior parte”: a Rússia lidera o ranking de fornecedores individuais, com pouco mais de um quinto do total, dividindo o restante com Canadá, China, Marrocos, Egito e uma cauda longa de outros países.

A confusão provavelmente nasce do noticiário mais recente sobre a guerra na Ucrânia e as sanções ao comércio russo, que de fato afetam o fertilizante (área onde a Rússia realmente é protagonista), mas não têm relação direta com o agrotóxico, mercado onde o nome que deveria estar em qualquer manchete é a China.

Por que essa dependência importa

Depender de poucos fornecedores, concentrados em poucos países, deixa o preço da lavoura brasileira refém de decisões que o Brasil não controla: conflito geopolítico, sanção comercial, atraso portuário ou mudança de política de exportação de qualquer um desses países pode repassar direto pro custo de produção. Um exemplo recente: em abril de 2026, o preço da ureia nos portos brasileiros chegou a US$ 710 por tonelada, uma alta de 50% em apenas 30 dias, puxada por conflitos no Mar Vermelho que atrasaram embarques em até 15 dias.

O governo federal reconhece o problema: o Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, tem como meta reduzir a dependência de importação de fertilizantes dos atuais 85% para uma faixa de 45% a 50% até 2050. É um horizonte de quase três décadas para um insumo que, hoje, sustenta safra recorde atrás de safra recorde sem nenhuma garantia de continuidade no fornecimento.

E tem outro problema, que não aparece nessas estatísticas

Os números acima são os que cruzam a fronteira de forma legal e registrada. Só que uma fatia relevante do agrotóxico usado no Brasil nem passa por essa estatística oficial, porque entra de forma ilegal, contrabandeado e com rótulo trocado. Na próxima matéria da série, mostramos o tamanho desse mercado paralelo (a estimativa é de que um em cada quatro agrotóxicos vendidos no país (25%) seja ilegal) e por que isso é um risco tanto pra quem planta quanto pra quem consome o alimento depois.

Fontes e notas metodológicas

  • Dados de importação de defensivos químicos (valor, volume e origem por princípio ativo), jan-mai de 2026: apuração de comércio exterior (Comex Stat/MDIC) compilada por imprensa especializada do setor.
  • Dados de importação de fertilizantes por país de origem, jan-fev de 2026, e por tipo de fertilizante (ureia, sulfato de amônio, cloreto de potássio, MAP, superfosfato simples): Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos) e reportagens setoriais, 2024-2026.
  • Grau de dependência brasileira de fertilizante importado (85% do consumo, 8% da demanda mundial): Anda.
  • Preço da ureia nos portos brasileiros e impacto dos conflitos no Mar Vermelho na logística, abril de 2026: reportagem especializada em agronegócio.
  • Plano Nacional de Fertilizantes 2050 (meta de redução de dependência): Governo Federal.

Nota metodológica: os percentuais de origem por país e por princípio ativo/tipo de fertilizante vêm de janelas de tempo diferentes (jan-fev e jan-mai de 2026 pra dados mais recentes, 2018 e 2024 pra alguns tipos de fertilizante onde não há dado mais novo disponível publicamente), então não devem ser somados entre si, apenas comparados dentro de cada categoria.

19 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 20, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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