Sete meses de Ormuz fechado: o que o bloqueio está fazendo com o mar, com o clima e com o Brasil
Há 218 dias, um corredor de água de 33 quilômetros de largura no seu ponto mais estreito está praticamente fechado. Por ele passavam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia e um quinto do gás natural liquefeito do mundo. O AMB4 foi às fontes originais para medir o que o bloqueio está fazendo com o Golfo Pérsico, com o clima do planeta e com o Brasil.

Há 218 dias, um corredor de água de 33 quilômetros de largura no seu ponto mais estreito está praticamente fechado. Por ele passavam, em tempos normais, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia e um quinto do gás natural liquefeito (GNL) do mundo. Desde os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, em 28 de fevereiro, o Estreito de Ormuz virou campo de batalha, e o tráfego caiu cerca de 95%.
A cobertura da crise costuma ficar no preço do barril. Mas o bloqueio tem outras duas contas, menos visíveis: a do meio ambiente, que começa no próprio Golfo Pérsico e chega à atmosfera do planeta, e a do Brasil, que sente o efeito no adubo da lavoura, na bomba de combustível e na discussão sobre onde explorar o próximo poço de petróleo.
O que aconteceu
- 28/02/2026: EUA e Israel atacam o Irã. A Guarda Revolucionária passa a proibir a passagem por rádio.
- 04/03: o Irã declara o estreito oficialmente fechado.
- Março: o Brent passa de US$ 100 pela primeira vez em quatro anos e chega a US$ 126. Foi a maior alta mensal da história do petróleo.
- Abril: os EUA passam a bloquear navios ligados ao Irã no Golfo de Omã; o Irã apreende porta-contêineres como o MSC Epaminondas.
- Abril a agosto: cerca de 2.000 navios e 20 mil marinheiros ficam presos na região; pelo menos 75 embarcações são atacadas, capturadas ou incendiadas.
- 04/10: o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirma que o estreito só reabre se os EUA aceitarem as sete condições do chamado memorando de Islamabad. Washington rejeitou a proposta na semana anterior.


O mar: um golfo que não se renova

O Golfo Pérsico é raso e quase fechado. Sua água troca pouco com o Oceano Índico, o que significa que a poluição que entra demora a sair. Pesquisadores da Universidade do Catar já o descreviam, antes da guerra, como uma das regiões marinhas mais impactadas pelo homem no mundo.
Com o bloqueio, centenas de petroleiros ficaram parados dentro do golfo (mais de 600 em maio), alguns atingidos por mísseis e drones. Pesquisadores do Laboratório de Oceanografia Óptica da Universidade do Sul da Flórida (USF), Junnan Jiao, Chuanmin Hu e Brian Barnes, cruzaram imagens de radar, ópticas e de infravermelho termal de satélite para mapear as manchas de óleo de fevereiro e março de 2026 e comparar com o mesmo período de 2025.

O mapa do estudo mostra a diferença a olho nu: a área total de manchas detectadas em março passou de 318 km² em 2025 para 2.265 km² em 2026, cerca de sete vezes mais.

O AMB4 foi à fonte
O comunicado da universidade, que circulou na imprensa internacional, fala em área de óleo “cerca de quatro vezes maior”. Fomos ao artigo científico, publicado como preprint (ainda sem revisão por pares) e em análise pelo periódico Marine Pollution Bulletin. O resumo dos próprios autores é mais conservador: a área de óleo ponderada (que leva em conta a espessura da mancha) ficou cerca de duas vezes acima do nível normal nas três zonas analisadas do golfo.
Os números não se contradizem, eles medem coisas diferentes: área bruta (7x), área ponderada no golfo todo (4x, segundo o comunicado) e comparação com o “ruído de fundo” de cada zona (2x, segundo o artigo). Em qualquer das contas, o golfo tem hoje muito mais óleo na superfície do que antes da guerra.


Foi uma expansão enorme da pegada de óleo. Sabíamos que haveria alguma mudança, mas não esperávamos o que vimos.
Brian Barnes, USF
Casos concretos registrados:
- Caroline Bezengi: petroleiro com cerca de 800 mil barris a bordo, vazando desde junho.
- Minoan Pioneer: atingido em 3 de agosto, deixou uma mancha de mais de 10 km perto da ilha iraniana de Qeshm.
- Em setembro, 18 petroleiros aguardavam para cruzar o estreito com cerca de 11,1 milhões de barris a bordo.
O que está em risco: o manguezal de Hara, maior reserva de manguezais do Irã, no estreito de Khuran, entre a ilha de Qeshm e o continente. O estudo da USF registrou vazamento contínuo de navios ali, com manchas espessas encostando na reserva. Também recifes de coral, pradarias marinhas (alimento dos dugongos, parentes do peixe-boi), tartarugas, aves migratórias e, principalmente, ovos e larvas de peixe, a fase mais sensível ao óleo.


O precedente é conhecido. Na Guerra do Golfo de 1991, o óleo derramado atingiu mais de 770 km de costa, do Kuwait à Arábia Saudita, e o dano durou décadas. A limpeza, na época, foi mais “controle de danos” do que restauração.
A água que se bebe também vem do mar
No Golfo, água potável é água do mar dessalinizada. Cerca de 65 milhões de pessoas nos países árabes da região dependem dessas usinas, além de 15 milhões de iranianos no litoral. Óleo na água captada compromete o tratamento e pode obrigar a desligar unidades. É um impacto ambiental que vira, em poucos dias, crise de abastecimento.
O paradoxo do clima
Seria natural imaginar que uma guerra em torno do petróleo piorasse o clima. Os números de 2026 mostram algo mais complicado.
Com o petróleo caro e escasso, o mundo consumiu menos: a demanda deve cair 2,4% no ano, segundo análise do Carbon Brief com dados da Agência Internacional de Energia (AIE). Carros elétricos bateram recorde de participação de mercado, com vendas quase dobrando em países emergentes. No total, as emissões de CO₂ de combustíveis fósseis devem cair cerca de 0,5% em 2026.
Só que o GNL também ficou preso em Ormuz. Sem gás, Japão, Índia, Coreia do Sul, Bangladesh, Filipinas, Tailândia, Taiwan, China e parte da Europa voltaram a queimar carvão. A AIE projeta 8,94 bilhões de toneladas de carvão consumidas em 2026, o maior volume da história.

Ou seja: a crise acelerou a eletrificação e, ao mesmo tempo, devolveu fôlego à fonte mais poluente da matriz. Uma ressalva que o próprio Carbon Brief faz: boa parte do aumento do carvão não tem relação com Ormuz, e mesmo assim esse aumento é mais que compensado pela queda de petróleo e gás.

O ponto de vista brasileiro
O Brasil está a 12 mil quilômetros de Ormuz, mas o bloqueio chega aqui por três caminhos.
1. O adubo da lavoura
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que usa e quase todo o nitrogênio. Em 2025, foram 7,7 milhões de toneladas de ureia importadas. Os maiores fornecedores foram Nigéria (23,4%), Omã (15,6%) e Catar (12,9%), segundo dados do Comex Stat.
Aqui cabe uma correção de rota. Circula a informação de que “80% dos nitrogenados vêm da região de Ormuz”. Ela mistura duas coisas: estar no Oriente Médio e passar pelo estreito. Omã, por exemplo, embarca ureia pelos portos de Sur e Sohar, que ficam no Golfo de Omã, do lado de fora de Ormuz. Já Catar, Irã, Arábia Saudita e Emirados embarcam de dentro do golfo e dependem da passagem. (Há ainda uma ressalva: parte da ureia registrada como omanense pode ter origem iraniana, segundo o mercado.)

Mesmo sem ser maioria, a fatia que depende de Ormuz pesa, porque o preço é global: quando o Catar sai do mercado, todos os vendedores sobem o preço. Misturadoras brasileiras chegaram a parar por falta de matéria-prima, e analistas preveem menos adubo aplicado na próxima safra. Menos nitrogênio no solo significa menor produtividade e, em alguns casos, pressão para abrir área nova em vez de produzir mais na mesma área.
O tema conversa com a matéria do AMB4 sobre a origem real dos agrotóxicos e fertilizantes importados pelo Brasil: a dependência externa de insumos é o calcanhar de Aquiles do agro brasileiro, e Ormuz é mais um teste de estresse.
2. O combustível na bomba
O governo respondeu à alta do petróleo com mais biocombustível. Desde 1º de agosto, a gasolina passou a ter 32% de etanol anidro (E32), contra 30% antes, por 180 dias prorrogáveis, com base na Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024). A justificativa oficial é reduzir a importação de gasolina e reforçar a segurança energética. O governo também anunciou a intenção de levar o biodiesel no diesel de 15% para 16% (B16).

Do ponto de vista ambiental, é uma resposta que reduz emissões por litro rodado. Mas tem custo: mais demanda por cana e soja, e o debate sobre onde essa produção vai se expandir.
3. A contradição do petróleo
O Brasil é exportador líquido de petróleo e, com o barril caro, ganha. Em setembro, o país caminhava para bater o recorde mensal de exportação: 10,1 milhões de toneladas até a quarta semana, alta de 50% na média diária frente a setembro de 2025, com preço médio 26% maior (Secex). Parte disso foi para a China, que perdeu o petróleo do Golfo.
Ao mesmo tempo, em 14 de agosto, a Petrobras anunciou a descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho e, dias depois, confirmou que se trata de óleo leve. O poço fica no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, a 175 km da costa do Amapá, em lâmina d’água de 2.900 metros. A perfuração foi licenciada pelo Ibama em outubro de 2025. A empresa fala em mais três poços no bloco e 32 poços exploratórios em toda a Margem Equatorial, todos dependentes de novas licenças.

Os dois lados do debate usam a mesma crise como argumento:
| Quem defende ampliar a exploração | Quem pede cautela |
|---|---|
| Ormuz mostrou que petróleo é segurança energética e soberania | A região tem manguezais extensos e o sistema de recifes da foz do Amazonas, pouco estudado |
| O mundo seguirá comprando petróleo por décadas; melhor que seja do Brasil | As correntes fortes da região dificultam a contenção de vazamentos |
| Receita de royalties e exportação financia a transição | A própria crise mostrou queda de demanda e avanço dos elétricos; um poço novo leva anos para produzir |
O que fica para quem trabalha com meio ambiente no Brasil
- Vazamento é risco de guerra e de rotina. O Golfo mostra o que acontece quando óleo encontra mangue em mar de pouca circulação. A costa norte do Brasil tem o maior cinturão contínuo de manguezais do mundo, e o país ainda lembra do óleo que atingiu o Nordeste em 2019. Planos de emergência individual e de área deixam de ser papel quando a exploração avança.
- Dependência de insumo é questão ambiental. Falta de fertilizante muda manejo, produtividade e uso do solo. Produção nacional de nitrogenados, bioinsumos e uso mais eficiente de adubo entram na pauta de segurança e de sustentabilidade ao mesmo tempo.
- Biocombustível em alta pede atenção ao licenciamento. O E32 e o B16 aumentam a demanda por cana, soja e novas usinas, com reflexo em licenças, outorgas de água e gestão de vinhaça.
- Crises aceleram decisões. Tanto a eletrificação quanto a volta do carvão e a corrida por novos poços avançaram mais em sete meses do que em anos de negociação. O efeito ambiental de longo prazo depende de qual dessas tendências fica quando o estreito reabrir.
Em números
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Dias de Ormuz fechado (até 05/10/2026) | 218 |
| Petróleo que passava pelo estreito antes da guerra | ~20 milhões de barris/dia |
| Queda no tráfego de navios | ~95% |
| Pico do Brent | US$ 126/barril |
| Navios atacados desde março | 75+ |
| Área de manchas de óleo no Golfo, março (2025 → 2026) | 318 km² → 2.265 km² |
| Pessoas que dependem de dessalinização no Golfo | ~65 milhões (+15 milhões no Irã) |
| Variação das emissões de CO₂ fóssil em 2026 | -0,5% |
| Consumo mundial de carvão em 2026 | 8,94 bilhões de t (recorde) |
| Ureia importada pelo Brasil em 2025 | 7,7 milhões de t |
| Etanol anidro na gasolina desde 01/08/2026 | 32% |
| Poço Morpho (Foz do Amazonas) | 175 km da costa, 2.900 m de lâmina d’água |
Nota: as imagens do estudo da USF (mapa e satélite) são reproduzidas a título de citação, com crédito aos autores, conforme o art. 46, III, da Lei 9.610/1998. As demais imagens são de domínio público ou licença livre, com autoria indicada na legenda. A capa mostra a lancha da Guarda Revolucionária do Irã junto ao porta-contêineres MSC Epaminondas, apreendido em abril de 2026 (foto: Meysam Mirzadeh / Tasnim News, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons).
5 de outubro de 2026
Fontes
- Jiao, J.; Hu, C.; Barnes, B. B. “Conflict-induced oil spills in the Persian (Arabian) Gulf in March 2026: A multi-sensor assessment”. SSRN (preprint), 22/05/2026: ssrn.com
- University of South Florida, “Oil spills spiked in the Persian Gulf during the Iran war, according to new study”, 08/06/2026: usf.edu
- Al Jazeera, “Iran says Strait of Hormuz to remain closed until US meets conditions”, 04/10/2026: aljazeera.com
- Al Jazeera, “Why US-Iran war over Hormuz is threatening the Gulf’s waters”, 09/09/2026: aljazeera.com
- Greenpeace Internacional, petroleiros presos em Ormuz, mar/2026: greenpeace.org
- Wikipedia, “2026 Strait of Hormuz crisis” (cronologia e dados de tráfego): wikipedia.org
- Carbon Brief, “Global fossil-fuel emissions set to fall in 2026 amid Hormuz crisis”, S. Evans, 16/09/2026: carbonbrief.org
- AIE, demanda de carvão em 2026 (via Yahoo Finance, 20/09/2026): finance.yahoo.com
- Gazeta do Povo, “Como o conflito no Oriente Médio afeta o agro brasileiro”, 04/03/2026 (dados Comex Stat): gazetadopovo.com.br
- O Presente Rural, “Incertezas geopolíticas cercam mercado de ureia”, 14/01/2026: opresenterural.com.br
- CNN Brasil, “Tensão em Ormuz afeta produção de fertilizantes no Brasil”, 13/07/2026: cnnbrasil.com.br
- Agência Gov, “Gasolina com 32% de etanol vale desde sábado (1º)”, 31/07/2026: agenciagov.ebc.com.br
- CNN Brasil, “Governo vai elevar mistura do etanol para 32% e do biodiesel para 16%”, 30/04/2026: cnnbrasil.com.br
- Forbes Brasil/Reuters, “Brasil pode bater recorde de exportação de petróleo em setembro”, 28/09/2026 (dados Secex): forbes.com.br
- eixos, “Petrobras anuncia descoberta de hidrocarbonetos na Foz do Amazonas”, 14/08/2026: eixos.com.br
- Cenário Energia, “Petrobras confirma óleo leve no poço Morpho”, 18/08/2026: cenarioenergia.com.br
Conteúdo informativo, publicado em outubro 6, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.
[…] Em 2026, a curva deu um solavanco. Com o Estreito de Ormuz fechado, a AIE passou a prever queda de 1,1 milhão de barris por dia na demanda mundial do ano, com preços altos e falta de combustível em vários países. A mesma AIE prevê retomada de 2 milhões de barris por dia em 2027. (Leia a nossa matéria sobre Ormuz.) […]