O mundo nunca usou tanto petróleo, e ele nunca pesou tão pouco: o balanço ambiental de 2025
Em 2025, o mundo bateu recorde de consumo de petróleo, mas a fatia dele na energia do planeta é a menor em mais de meio século. O AMB4 foi aos estudos da AIE, do Banco Mundial, da Opep e do Energy Institute para fazer o balanço ambiental, comparando o mundo com o Brasil em cada tema.

Em 2025, o mundo consumiu 103 milhões de barris de petróleo por dia, o maior volume da história. Ao mesmo tempo, a participação do petróleo na energia do planeta é a menor em mais de meio século. As duas coisas são verdade, e entender por que é o primeiro passo para fazer um balanço honesto da relação entre o petróleo e o meio ambiente.
O AMB4 reuniu os principais estudos internacionais publicados em 2026, da Agência Internacional de Energia (AIE), do Banco Mundial, do Energy Institute, da Opep e da federação de armadores ITOPF, e foi às fontes originais. Em cada tema, comparamos com o Brasil.
Quanto o mundo usa
Segundo o Statistical Review of World Energy 2026, do Energy Institute, o consumo mundial de petróleo cresceu 1,3% em 2025 e chegou a 103 milhões de barris por dia. É mais que o dobro do que o mundo usava em 1965.
Mas a energia total cresceu ainda mais rápido. Em 1973, ano do primeiro choque do petróleo, ele respondia por cerca de metade de toda a energia primária consumida no mundo. Em 2025, por um terço, pela metodologia do Energy Institute. Pela conta da AIE, que inclui outras fontes como a biomassa tradicional, a fatia ficou abaixo de 30% pela primeira vez em 2024, depois de 50 anos de queda desde o pico de 46%.

Em 2026, a curva deu um solavanco. Com o Estreito de Ormuz fechado, a AIE passou a prever queda de 1,1 milhão de barris por dia na demanda mundial do ano, com preços altos e falta de combustível em vários países. A mesma AIE prevê retomada de 2 milhões de barris por dia em 2027. (Leia a nossa matéria sobre Ormuz.)
E o Brasil?
O Brasil consumiu 2,61 milhões de barris por dia em 2025, 2,5% do total mundial. Dividindo pela população, dá cerca de 4,5 barris por brasileiro por ano, praticamente a média mundial, de cerca de 4,6 (cálculo do AMB4 com dados do Energy Institute, IBGE e ONU). O peso do petróleo na matriz também é parecido: 33,7% da oferta interna de energia, segundo o Balanço Energético Nacional 2026, da EPE.
A diferença está no resto da matriz. Quase metade da energia brasileira (49,4%) vem de fontes renováveis, como hidrelétricas, cana, eólica e solar, contra 13,8% nos países da OCDE.
A conta ambiental
1. Clima
As emissões de CO₂ do setor de energia bateram novo recorde em 2025: 35,8 bilhões de toneladas, alta de 1,1% (Energy Institute). O petróleo é uma das três grandes fontes dessas emissões, ao lado do carvão e do gás.
No Brasil, as emissões associadas à energia somaram 440,2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2025, cerca de 2,1 toneladas por habitante (EPE), em torno da metade da média mundial do setor de energia. Metade dessas emissões brasileiras vem dos transportes, o principal destino do petróleo no país.
2. Metano: o vazamento que não se vê
O metano esquenta o planeta muitas vezes mais que o CO₂ no curto prazo. Segundo o Global Methane Tracker 2026, da AIE, a produção de petróleo emitiu 45 milhões de toneladas de metano em 2025, e petróleo e gás juntos, 81 milhões. O dado mais forte do relatório: cerca de três quartos das emissões de petróleo e gás podem ser cortadas com tecnologia que já existe, e mais de 35 milhões de toneladas de metano das fontes fósseis poderiam ser evitadas sem custo líquido, porque o gás recuperado paga o investimento.

3. A queima de gás
Nos campos de petróleo, parte do gás que sai junto com o óleo é simplesmente queimada em tochas, o chamado flaring. Em 2025, foram 167 bilhões de metros cúbicos queimados, o terceiro ano seguido de alta, segundo o Banco Mundial. É quase todo o gás que a África consome em um ano, e equivale a US$ 54 bilhões jogados fora. Nove países (Rússia, Irã, Iraque, Venezuela, México, Líbia, Argélia, Nigéria e EUA) respondem por mais de quatro quintos da queima.


O Brasil fica fora do grupo dos grandes queimadores: as plataformas brasileiras queimaram cerca de 1 bilhão de metros cúbicos em 2025, menos de 1% do total mundial, segundo dados do rastreador do Banco Mundial compilados pelo portal Buds Offshore Energy. Ainda assim, é bem mais que a Noruega, referência no tema, com 36 milhões de metros cúbicos.
4. Vazamentos: a boa notícia e a ferida aberta
Aqui os dados trazem uma boa notícia. Os grandes vazamentos de navios petroleiros despencaram. Segundo a ITOPF, entidade que atende os armadores em acidentes, a quantidade de óleo derramado por navios nos anos 2010 foi 95% menor que nos anos 1970, mesmo com o comércio marítimo de petróleo muito maior. Em 2025, foram 3 grandes vazamentos e cerca de 4 mil toneladas perdidas no mar.

Mas os acidentes que acontecem deixam marcas por décadas. A explosão da Deepwater Horizon, em 2010, matou 11 trabalhadores e despejou milhões de barris no Golfo do México. No Delta do Níger, na Nigéria, décadas de vazamentos em dutos e poços levaram o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) a encontrar, em 2011, água de poço com benzeno, substância cancerígena, 900 vezes acima do limite da Organização Mundial da Saúde. A limpeza foi estimada em até 30 anos e US$ 1 bilhão só para começar.
O Brasil conhece o problema de perto. Em 2019, manchas de óleo atingiram o litoral de todos os estados do Nordeste, do Espírito Santo e do norte do Rio de Janeiro: mais de 3 mil quilômetros de costa e mais de 5 mil toneladas de resíduos recolhidos, segundo a Marinha.


O pico vem ou não vem?
Essa é a pergunta de trilhões de dólares, e as duas instituições mais ouvidas do setor dão respostas opostas.
- AIE: no seu cenário com as políticas já anunciadas pelos países, a demanda de petróleo estabiliza por volta de 2030. Mas, no World Energy Outlook 2025, a agência passou a mostrar também um cenário só com as políticas em vigor hoje, em que a demanda continua subindo até 113 milhões de barris por dia em 2050.
- Opep: no World Oil Outlook 2026, lançado em junho, o cartel dos exportadores prevê 124 milhões de barris por dia em 2050 e “nenhum pico à vista”. Para isso, calcula que o mundo precisaria investir US$ 17,7 trilhões em petróleo até 2050.


O Brasil está do lado de quem aposta no crescimento. A produção nacional bateu recorde em 2025: 3,77 milhões de barris por dia, alta de 11,9% sobre 2024, com cerca de 80% vindo do pré-sal (EPE e ANP). Como o país consome 2,61 milhões, o excedente vai para exportação, quase todo como óleo cru, enquanto o Brasil ainda importa derivados como o diesel.


As alternativas
Mais da metade do petróleo do mundo vai para o transporte. É ali que a substituição avança mais rápido.
- Carro elétrico: as vendas passaram de 20 milhões em 2025, alta de 20%. Um em cada quatro carros novos vendidos no mundo já é elétrico, e a frota elétrica deixou de consumir 1,2 milhão de barris por dia, segundo o Global EV Outlook 2026, da AIE. Na China, mais da metade das vendas já é elétrica.
- Biocombustíveis: aqui o Brasil é referência. Graças ao etanol e ao biodiesel, 26,1% da energia usada nos transportes brasileiros em 2025 foi renovável (EPE). Desde agosto de 2026, a gasolina tem 32% de etanol.
- Petroquímica: o crescimento que sobra para o petróleo está cada vez mais no plástico e nos químicos. A AIE já apontou a petroquímica como a maior fonte de crescimento da demanda de petróleo nas próximas décadas, o que liga o tema do petróleo ao da reciclagem.

No carro elétrico, o Brasil ainda engatinha: os eletrificados (que incluem híbridos) somaram 223,9 mil unidades em 2025, cerca de 9% das vendas de veículos leves, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico. No mundo, só os 100% elétricos e híbridos plug-in já são 25%.


O que fica para quem trabalha com meio ambiente
- O volume ainda cresce, mas o peso cai. Petróleo não vai sair de cena tão cedo, e isso mantém a demanda por licenciamento, planos de emergência e monitoramento ambiental no setor.
- Os ganhos mais baratos estão no metano e na queima de gás. São perdas de produto que, segundo AIE e Banco Mundial, podem ser cortadas com tecnologia já disponível e, em boa parte, com lucro.
- Vazamento de navio caiu; o risco agora é a fronteira. Com a exploração avançando para áreas novas e sensíveis, como a Margem Equatorial, a capacidade de resposta a acidentes vira o ponto central.
- O Brasil tem uma posição rara. Produz mais petróleo do que consome, tem uma matriz quase metade renovável e domina o biocombustível. O desafio é decidir o que fazer com essa vantagem.
Em números
| Indicador | Mundo | Brasil |
|---|---|---|
| Consumo de petróleo, 2025 | 103 milhões de barris/dia | 2,61 milhões de barris/dia |
| Consumo por pessoa (cálculo AMB4) | ~4,6 barris/ano | ~4,5 barris/ano |
| Petróleo na energia | 33,5% (Energy Institute) | 33,7% (EPE) |
| Renováveis na matriz | 13,8% (OCDE) | 49,4% |
| Produção de petróleo, 2025 | n/d | 3,77 milhões de barris/dia (recorde) |
| Gás queimado (flaring), 2025 | 167 bilhões de m³ | ~1 bilhão de m³ (plataformas) |
| Metano do petróleo, 2025 | 45 milhões de t | n/d |
| Carros elétricos nas vendas, 2025 | 25% | ~9% (inclui híbridos) |
| Óleo perdido por navios, 2025 | ~4 mil t | n/d |
Imagem de capa: incêndio na plataforma Deepwater Horizon, Golfo do México, 21/04/2010 (foto: Guarda Costeira dos EUA, domínio público).
Nota metodológica: a participação do petróleo na energia varia conforme o método. O Energy Institute usa o “método de substituição” (33,5% em 2025); a AIE usa a oferta total de energia, incluindo biomassa tradicional (abaixo de 30% em 2024); a EPE usa a oferta interna de energia brasileira (33,7%). O consumo por pessoa é cálculo do AMB4 com população de 213 milhões (Brasil, IBGE) e 8,2 bilhões (mundo, ONU). A demanda da Opep usa base própria (105,1 milhões de barris por dia em 2025).
5 de outubro de 2026
Fontes
- Energy Institute, Statistical Review of World Energy 2026 (02/07/2026): energyinst.org; resumo em DieselNet
- Our World in Data, consumo e participação do petróleo, com dados do Energy Institute: ourworldindata.org
- AIE, Global Energy Review 2025, participação do petróleo abaixo de 30% (via S&P Global): spglobal.com
- AIE, Oil Market Report, junho de 2026: iea.org
- AIE, Global Methane Tracker 2026: iea.org
- Banco Mundial, Global Gas Flaring Tracker 2026 (23/06/2026): worldbank.org
- Buds Offshore Energy, dados de queima offshore por país (16/07/2026): budsoffshoreenergy.com
- ITOPF, Oil Tanker Spill Statistics 2025: itopf.org
- PNUMA, Environmental Assessment of Ogoniland (2011), via Yale Environment 360: e360.yale.edu
- Marinha do Brasil (IEAPM), derramamento de óleo de 2019: marinha.mil.br
- AIE, World Energy Outlook 2025 (12/11/2025), via S&P Global: spglobal.com
- Opep, World Oil Outlook 2026 (18/06/2026): opec.org
- AIE, Global EV Outlook 2026: iea.org
- AIE, petroquímica como maior fonte de crescimento da demanda de petróleo: iea.org
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, relatório síntese (03/06/2026): epe.gov.br
- Agência Brasil, produção recorde de petróleo em 2025 (03/02/2026): agenciabrasil.ebc.com.br
- KPMG, Brasil no Statistical Review 2026, via Agência Infra (12/08/2026): agenciainfra.com
- ABVE, vendas de eletrificados em 2025, via Forbes Brasil (08/01/2026): forbes.com.br
Conteúdo informativo, publicado em outubro 6, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.