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Rio Tamanduateí: a história do rio onde São Paulo nasceu e que virou canal de esgoto do ABC

Série Rios de SP, episódio 3. O Tamanduateí já foi porto, lavanderia e passeio de barco. Virou canal, avenida e esgoto do ABC. Com pinturas, fotos de 1900, mapas e dados de cada cidade, o AMB4 conta a história do rio e mostra o que está sendo feito para limpá-lo, da nascente em Mauá à foz no Tietê.

Por Redação AMB4 10 min AmbienteSociedade
Rio Tamanduateí: a história do rio onde São Paulo nasceu e que virou canal de esgoto do ABC

Este é o terceiro episódio da série Rios de SP, do AMB4. Os anteriores foram sobre o Rio Tietê e o Rio Pinheiros.

Para quem mora no ABC, o Tamanduateí é o rio da Avenida dos Estados. Para quem mora na capital, é o canal ao lado da Avenida do Estado. Poucos sabem que foi às margens dele que São Paulo nasceu, que ele teve porto, lavadeiras e passeios de barco, e que a nascente ainda guarda uma espécie que não existe em nenhum outro lugar do mundo. O AMB4 foi a pinturas, fotos antigas, mapas e aos dados de cada cidade para contar essa história.

O rio de muitas voltas

O nome vem do tupi e tem duas traduções conhecidas: “rio dos tamanduás verdadeiros” ou “rio de muitas voltas”, por causa do traçado sinuoso. O Tamanduateí nasce no Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia, em Mauá, e percorre cerca de 35 km, passando por Santo André e São Caetano do Sul até desaguar no Tietê, na capital. Cerca de 19 km desse percurso acompanham a Avenida dos Estados, segundo o Diário do Grande ABC.

Em 1554, os jesuítas fundaram São Paulo no alto da colina entre o Tamanduateí e o Anhangabaú. O rio era caminho de canoas: na atual Ladeira Porto Geral, perto da Rua 25 de Março, havia um porto que funcionou até o começo do século 20. Pelo rio passavam mercadorias, pessoas escravizadas, pescadores e lavadeiras.

Foto antiga em preto e branco da margem do Rio Tamanduateí, com carruagens e cavalos dentro da água e prédios do centro de São Paulo ao fundo
Margem do Tamanduateí no centro de São Paulo, cerca de 1900. Foto: Guilherme Gaensly, domínio público (acervo SMC/DPH/DIM, via Wikimedia Commons).

A Várzea do Carmo

Entre o centro e o Brás, o rio se espalhava por uma várzea larga, a Várzea do Carmo, que alagava a cada verão. Em 1892, o pintor Benedito Calixto retratou uma dessas cheias em um panorama hoje no acervo do Museu Paulista da USP: a água cobre toda a planície até o horizonte.

A várzea também era lugar de lazer. Nos anos 1870, o presidente da província João Teodoro mandou criar ali a Ilha dos Amores, uma ilhota ajardinada no meio do rio, com quiosques e casas de banho.

Foto antiga de duas canoas com pessoas remando no Rio Tamanduateí, uma delas com guarda-chuva, cercadas de vegetação densa
Passeio de barco no Tamanduateí, cerca de 1910. Foto: Vincenzo Pastore, domínio público.
Foto antiga do Rio Tamanduateí ainda natural, com lavadeiras estendendo roupas na margem gramada e casas ao fundo
O Tamanduateí antes da retificação, com lavadeiras na margem, cerca de 1910. Foto: Vincenzo Pastore, domínio público.

O rio que virou canal

As tentativas de acabar com as curvas do rio começaram no século 19. A grande mudança veio no início do século 20: na gestão do prefeito Antônio Prado (1899 a 1911), o curso foi alterado e o rio foi reduzido a um canal estreito. A Ilha dos Amores deixou de existir.

Planta antiga do projeto de canal do Rio Tamanduateí, com o rio sinuoso em verde e o traçado reto do canal sobreposto
Planta e Projecto do Canal do Rio Tamanduatehy. Em verde, o rio com as curvas; o traço reto é o canal projetado. Acervo do Museu Paulista da USP, domínio público.

Em 1911, o arquiteto francês Joseph-Antoine Bouvard propôs transformar a várzea em parque. O projeto foi executado por Francisque Cochet: a canalização do trecho foi concluída em 1921 e, no centenário da Independência, em 1922, a área ganhou o nome de Parque Dom Pedro II, terminado em 1925. A partir dos anos 1960, a abertura da Avenida do Estado e a construção de viadutos e, em 1971, de um terminal de ônibus fragmentaram o parque, que virou sobretudo um nó de trânsito.

O Rio Tamanduateí canalizado ao lado da Avenida do Estado, com vegetação nas margens de concreto
O Tamanduateí ao lado da Avenida do Estado, em São Paulo, 2008. Foto: Lukaaz, CC BY-SA 3.0.

Sem a várzea para espalhar a água, as cheias passaram a ocupar ruas e avenidas. A enchente de fevereiro de 1929, reconstituída no mapa abaixo, já mostrava a planície do Tamanduateí alagada no centro da cidade. Até hoje, trechos das avenidas do Estado e dos Estados alagam em chuvas fortes, e a bacia depende de piscinões para segurar a água da chuva.

Mapa da cidade de São Paulo com a área alagada pela enchente de fevereiro de 1929 em cinza ao longo do Tietê, do Pinheiros e do Tamanduateí
A enchente de fevereiro de 1929. O Tamanduateí corre no centro do mapa, de baixo para cima, até o Tietê. Mapa: Grupo Hímaco/Unifesp, CC BY-SA 4.0.

O canal de esgoto do ABC

Com a industrialização do ABC, a partir dos anos 1950, o Tamanduateí e seus 43 afluentes passaram a receber o esgoto de bairros e cidades inteiras. Em fevereiro de 2019, o Diário do Grande ABC calculou que o rio recebia 698 litros de esgoto sem tratamento por segundo, o equivalente a 60 milhões de litros por dia, vindos de Santo André e Mauá.

Print da reportagem do Diário do Grande ABC sobre os 60 milhões de litros de esgoto lançados por dia no Rio Tamanduateí, com os números de Santo André e Mauá destacados
Print do Diário do Grande ABC (04/02/2019). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

Os mesmos dados mostram que o despejo já estava caindo: em Santo André, de 521,5 litros por segundo em 2017 para 233 em 2018, segundo o Semasa; em Mauá, de 233 para 199. São Caetano do Sul não lança mais esgoto no rio desde 2009, quando chegou a 100% de coleta e tratamento.

Gráfico de barras com o esgoto lançado no Tamanduateí: Santo André de 521,5 para 233 litros por segundo e Mauá de 233 para 199, entre 2017 e 2018
Fonte: Semasa e Prefeitura de Mauá, via Diário do Grande ABC (04/02/2019). Gráfico: AMB4.

Nota: o total de 698 litros por segundo citado pelo jornal é maior do que a soma dos números das duas cidades (432 litros por segundo). O AMB4 reproduz os dois dados como publicados.

Como se limpa o Tamanduateí: o que está sendo feito

Como o rio atravessa quatro cidades, a despoluição depende de cada uma delas e de operadoras diferentes.

Mauá: a nascente

Em Mauá, onde correm cerca de 9 km do rio, o saneamento é operado pela concessionária BRK. Segundo dados divulgados em janeiro de 2026, a coleta chegou a 95% e o tratamento a 91% do esgoto, com investimento de cerca de R$ 260 milhões. A ETE Mauá usa três tanques biológicos que trabalham em ciclos de quatro horas: o esgoto entra, recebe ar, as bactérias consomem a matéria orgânica, o lodo assenta e a água tratada sai, em um processo conhecido como reator em batelada. Juntos, os tanques tratam até 1.125 litros por segundo. Perto da nascente, 12 pontos de lançamento de esgoto foram eliminados.

Gráfico com o tratamento de esgoto em Mauá subindo de 73% em 2018 para 91% em 2026
Fontes: Diário do Grande ABC (2019); ABC do ABC (09/01/2026), com dados da BRK. Gráfico: AMB4.

Santo André: os córregos

Em abril de 2026, Santo André lançou o programa Água Limpa, Córrego Vivo, com cerca de R$ 265,3 milhões (R$ 210 milhões da Sabesp e R$ 55,3 milhões do Semasa) para levar o esgoto que ainda cai nos córregos até a rede. A obra mais adiantada é a do Córrego Taioca: R$ 220 milhões e 12.800 ligações à ETE ABC, para 178 mil moradores de Santo André e São Bernardo, segundo a Semil (maio de 2026).

A ETE ABC

Boa parte do esgoto coletado em Santo André e São Bernardo segue para a ETE ABC, uma das cinco grandes estações do sistema principal da Grande SP, que tratam juntas 24,5 m³ por segundo. Pelo programa IntegraTietê, a capacidade das cinco deve chegar a 41,2 m³/s até 2029. Nessas estações, o processo é o lodo ativado: bactérias consomem a matéria orgânica em tanques com ar, e a água tratada volta aos rios.

As margens e o leito

Na Avenida dos Estados, em Santo André, perto do Moinho São Jorge, obras de contenção de margem de R$ 4 milhões foram feitas entre agosto de 2025 e maio de 2026. Um desassoreamento de R$ 25 milhões aguardava ordem de serviço em maio de 2026, segundo o ABC Repórter. As obras reduzem o risco de erosão e de enchente, mas não limpam a água.

O resultado medido

Em setembro de 2026, a Cetesb registrou queda de 11% no carbono orgânico total do Tamanduateí, um indicador de matéria orgânica, em levantamento sobre os afluentes do Tietê na capital. É a menor queda entre os afluentes destacados pela agência, que tiveram reduções de até 31%.

O Rio Tamanduateí canalizado perto da Marginal Tietê, com chaminés ao fundo
O Tamanduateí perto do encontro com o Tietê, 2009. Foto: Lukaaz, CC BY-SA 3.0.

A nascente que ainda é limpa

No ponto onde o rio nasce, a história é outra. Na Gruta de Santa Luzia, em Mauá, pesquisadores da USP e do Grupo Pierre Martin de Espeleologia encontraram em 2012 um caranguejo-de-rio de 2 a 3 centímetros. Depois de mais de dez anos de análises, ele foi descrito em 2025 na revista Zoological Studies como uma espécie nova, a Aegla tamanduatei, que só existe ali.

Os caranguejos do gênero Aegla são muito sensíveis à poluição e funcionam como bioindicadores. A presença da espécie mostra que a água da nascente ainda é limpa, e que o problema do Tamanduateí começa depois, quando o rio entra na cidade.

Lago com pedra grande e árvores no Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia, em Mauá
Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia, em Mauá, onde nasce o Tamanduateí. Foto: Allan S. Lisboa, CC BY-SA 4.0.
Print da reportagem da Revista Fórum sobre a descoberta do caranguejo Aegla tamanduatei na Gruta de Santa Luzia, com o trecho destacado
Print da Revista Fórum sobre a Aegla tamanduatei. Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

O que vem

O Tamanduateí mostra os dois extremos da despoluição: a nascente limpa e com espécie única em Mauá, e o canal de concreto que recebe o esgoto de bairros inteiros mais abaixo. Mauá e São Caetano estão perto da meta. A virada do rio depende agora, principalmente, de Santo André e dos córregos que chegam a ele. O prazo legal é 2033, pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), e a Sabesp promete antecipar a universalização para 2029 nas cidades que atende.

Linha do tempo

AnoO que aconteceu
1554Fundação de São Paulo na colina entre o Tamanduateí e o Anhangabaú
Anos 1870Ilha dos Amores, área de lazer no meio do rio
1892Benedito Calixto pinta a inundação da Várzea do Carmo
1899 a 1911Na gestão de Antônio Prado, o rio vira canal estreito
1911Bouvard propõe um parque na Várzea do Carmo
1921 e 1922Canalização concluída; nasce o Parque Dom Pedro II
1929Grande enchente alaga a várzea
Anos 1960 e 1971Avenida do Estado, viadutos e terminal fragmentam o parque
2009São Caetano chega a 100% de esgoto tratado
2019Rio recebe 60 milhões de litros de esgoto por dia (DGABC)
2025Descrita a Aegla tamanduatei, espécie única da nascente
2026Mauá chega a 91% de tratamento; Santo André lança programa de R$ 265,3 milhões; Cetesb mede queda de 11%

Fontes

Imagem de capa: Benedito Calixto, Inundação da Várzea do Carmo, 1892. Acervo do Museu Paulista da USP, domínio público. Fotos de Vincenzo Pastore e Guilherme Gaensly: domínio público, via Wikimedia Commons.

Conteúdo informativo, publicado em outubro 19, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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