Rio Tamanduateí: a história do rio onde São Paulo nasceu e que virou canal de esgoto do ABC
Série Rios de SP, episódio 3. O Tamanduateí já foi porto, lavanderia e passeio de barco. Virou canal, avenida e esgoto do ABC. Com pinturas, fotos de 1900, mapas e dados de cada cidade, o AMB4 conta a história do rio e mostra o que está sendo feito para limpá-lo, da nascente em Mauá à foz no Tietê.

Este é o terceiro episódio da série Rios de SP, do AMB4. Os anteriores foram sobre o Rio Tietê e o Rio Pinheiros.
Para quem mora no ABC, o Tamanduateí é o rio da Avenida dos Estados. Para quem mora na capital, é o canal ao lado da Avenida do Estado. Poucos sabem que foi às margens dele que São Paulo nasceu, que ele teve porto, lavadeiras e passeios de barco, e que a nascente ainda guarda uma espécie que não existe em nenhum outro lugar do mundo. O AMB4 foi a pinturas, fotos antigas, mapas e aos dados de cada cidade para contar essa história.
O rio de muitas voltas
O nome vem do tupi e tem duas traduções conhecidas: “rio dos tamanduás verdadeiros” ou “rio de muitas voltas”, por causa do traçado sinuoso. O Tamanduateí nasce no Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia, em Mauá, e percorre cerca de 35 km, passando por Santo André e São Caetano do Sul até desaguar no Tietê, na capital. Cerca de 19 km desse percurso acompanham a Avenida dos Estados, segundo o Diário do Grande ABC.
Em 1554, os jesuítas fundaram São Paulo no alto da colina entre o Tamanduateí e o Anhangabaú. O rio era caminho de canoas: na atual Ladeira Porto Geral, perto da Rua 25 de Março, havia um porto que funcionou até o começo do século 20. Pelo rio passavam mercadorias, pessoas escravizadas, pescadores e lavadeiras.

A Várzea do Carmo
Entre o centro e o Brás, o rio se espalhava por uma várzea larga, a Várzea do Carmo, que alagava a cada verão. Em 1892, o pintor Benedito Calixto retratou uma dessas cheias em um panorama hoje no acervo do Museu Paulista da USP: a água cobre toda a planície até o horizonte.
A várzea também era lugar de lazer. Nos anos 1870, o presidente da província João Teodoro mandou criar ali a Ilha dos Amores, uma ilhota ajardinada no meio do rio, com quiosques e casas de banho.


O rio que virou canal
As tentativas de acabar com as curvas do rio começaram no século 19. A grande mudança veio no início do século 20: na gestão do prefeito Antônio Prado (1899 a 1911), o curso foi alterado e o rio foi reduzido a um canal estreito. A Ilha dos Amores deixou de existir.

Em 1911, o arquiteto francês Joseph-Antoine Bouvard propôs transformar a várzea em parque. O projeto foi executado por Francisque Cochet: a canalização do trecho foi concluída em 1921 e, no centenário da Independência, em 1922, a área ganhou o nome de Parque Dom Pedro II, terminado em 1925. A partir dos anos 1960, a abertura da Avenida do Estado e a construção de viadutos e, em 1971, de um terminal de ônibus fragmentaram o parque, que virou sobretudo um nó de trânsito.

Sem a várzea para espalhar a água, as cheias passaram a ocupar ruas e avenidas. A enchente de fevereiro de 1929, reconstituída no mapa abaixo, já mostrava a planície do Tamanduateí alagada no centro da cidade. Até hoje, trechos das avenidas do Estado e dos Estados alagam em chuvas fortes, e a bacia depende de piscinões para segurar a água da chuva.

O canal de esgoto do ABC
Com a industrialização do ABC, a partir dos anos 1950, o Tamanduateí e seus 43 afluentes passaram a receber o esgoto de bairros e cidades inteiras. Em fevereiro de 2019, o Diário do Grande ABC calculou que o rio recebia 698 litros de esgoto sem tratamento por segundo, o equivalente a 60 milhões de litros por dia, vindos de Santo André e Mauá.

Os mesmos dados mostram que o despejo já estava caindo: em Santo André, de 521,5 litros por segundo em 2017 para 233 em 2018, segundo o Semasa; em Mauá, de 233 para 199. São Caetano do Sul não lança mais esgoto no rio desde 2009, quando chegou a 100% de coleta e tratamento.

Nota: o total de 698 litros por segundo citado pelo jornal é maior do que a soma dos números das duas cidades (432 litros por segundo). O AMB4 reproduz os dois dados como publicados.
Como se limpa o Tamanduateí: o que está sendo feito
Como o rio atravessa quatro cidades, a despoluição depende de cada uma delas e de operadoras diferentes.
Mauá: a nascente
Em Mauá, onde correm cerca de 9 km do rio, o saneamento é operado pela concessionária BRK. Segundo dados divulgados em janeiro de 2026, a coleta chegou a 95% e o tratamento a 91% do esgoto, com investimento de cerca de R$ 260 milhões. A ETE Mauá usa três tanques biológicos que trabalham em ciclos de quatro horas: o esgoto entra, recebe ar, as bactérias consomem a matéria orgânica, o lodo assenta e a água tratada sai, em um processo conhecido como reator em batelada. Juntos, os tanques tratam até 1.125 litros por segundo. Perto da nascente, 12 pontos de lançamento de esgoto foram eliminados.

Santo André: os córregos
Em abril de 2026, Santo André lançou o programa Água Limpa, Córrego Vivo, com cerca de R$ 265,3 milhões (R$ 210 milhões da Sabesp e R$ 55,3 milhões do Semasa) para levar o esgoto que ainda cai nos córregos até a rede. A obra mais adiantada é a do Córrego Taioca: R$ 220 milhões e 12.800 ligações à ETE ABC, para 178 mil moradores de Santo André e São Bernardo, segundo a Semil (maio de 2026).
A ETE ABC
Boa parte do esgoto coletado em Santo André e São Bernardo segue para a ETE ABC, uma das cinco grandes estações do sistema principal da Grande SP, que tratam juntas 24,5 m³ por segundo. Pelo programa IntegraTietê, a capacidade das cinco deve chegar a 41,2 m³/s até 2029. Nessas estações, o processo é o lodo ativado: bactérias consomem a matéria orgânica em tanques com ar, e a água tratada volta aos rios.
As margens e o leito
Na Avenida dos Estados, em Santo André, perto do Moinho São Jorge, obras de contenção de margem de R$ 4 milhões foram feitas entre agosto de 2025 e maio de 2026. Um desassoreamento de R$ 25 milhões aguardava ordem de serviço em maio de 2026, segundo o ABC Repórter. As obras reduzem o risco de erosão e de enchente, mas não limpam a água.
O resultado medido
Em setembro de 2026, a Cetesb registrou queda de 11% no carbono orgânico total do Tamanduateí, um indicador de matéria orgânica, em levantamento sobre os afluentes do Tietê na capital. É a menor queda entre os afluentes destacados pela agência, que tiveram reduções de até 31%.

A nascente que ainda é limpa
No ponto onde o rio nasce, a história é outra. Na Gruta de Santa Luzia, em Mauá, pesquisadores da USP e do Grupo Pierre Martin de Espeleologia encontraram em 2012 um caranguejo-de-rio de 2 a 3 centímetros. Depois de mais de dez anos de análises, ele foi descrito em 2025 na revista Zoological Studies como uma espécie nova, a Aegla tamanduatei, que só existe ali.
Os caranguejos do gênero Aegla são muito sensíveis à poluição e funcionam como bioindicadores. A presença da espécie mostra que a água da nascente ainda é limpa, e que o problema do Tamanduateí começa depois, quando o rio entra na cidade.


O que vem
O Tamanduateí mostra os dois extremos da despoluição: a nascente limpa e com espécie única em Mauá, e o canal de concreto que recebe o esgoto de bairros inteiros mais abaixo. Mauá e São Caetano estão perto da meta. A virada do rio depende agora, principalmente, de Santo André e dos córregos que chegam a ele. O prazo legal é 2033, pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), e a Sabesp promete antecipar a universalização para 2029 nas cidades que atende.
Linha do tempo
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1554 | Fundação de São Paulo na colina entre o Tamanduateí e o Anhangabaú |
| Anos 1870 | Ilha dos Amores, área de lazer no meio do rio |
| 1892 | Benedito Calixto pinta a inundação da Várzea do Carmo |
| 1899 a 1911 | Na gestão de Antônio Prado, o rio vira canal estreito |
| 1911 | Bouvard propõe um parque na Várzea do Carmo |
| 1921 e 1922 | Canalização concluída; nasce o Parque Dom Pedro II |
| 1929 | Grande enchente alaga a várzea |
| Anos 1960 e 1971 | Avenida do Estado, viadutos e terminal fragmentam o parque |
| 2009 | São Caetano chega a 100% de esgoto tratado |
| 2019 | Rio recebe 60 milhões de litros de esgoto por dia (DGABC) |
| 2025 | Descrita a Aegla tamanduatei, espécie única da nascente |
| 2026 | Mauá chega a 91% de tratamento; Santo André lança programa de R$ 265,3 milhões; Cetesb mede queda de 11% |
Fontes
- Wikipédia, Rio Tamanduateí: pt.wikipedia.org
- São Paulo Antiga, a história do Parque D. Pedro II: saopauloantiga.com.br
- São Paulo in Foco, breve histórico do Tamanduateí: saopauloinfoco.com.br
- Diário do Grande ABC, 60 milhões de litros de esgoto por dia (04/02/2019): dgabc.com.br
- ABC do ABC, saneamento em Mauá (09/01/2026): abcdoabc.com.br
- Diário do Grande ABC, programa de Santo André (04/2026): dgabc.com.br
- Semil, Córrego Taioca (05/2026): semil.sp.gov.br
- ABC Repórter, obras no Tamanduateí em Santo André (11/05/2026): abcreporter.com.br
- Agência SP, poluição cai em afluentes do Tietê (22/09/2026): agenciasp.sp.gov.br
- Correio da Manhã, ampliação das ETEs da Grande SP (11/06/2026): correiodamanha.com.br
- Revista Fórum, Aegla tamanduatei: revistaforum.com.br
- Lei nº 14.026/2020, Marco Legal do Saneamento: planalto.gov.br
Imagem de capa: Benedito Calixto, Inundação da Várzea do Carmo, 1892. Acervo do Museu Paulista da USP, domínio público. Fotos de Vincenzo Pastore e Guilherme Gaensly: domínio público, via Wikimedia Commons.
Conteúdo informativo, publicado em outubro 19, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.