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Tietê, Pinheiros e Tamanduateí: o que os estudos mostram sobre a despoluição dos rios de São Paulo

A carga de esgoto no Tietê caiu quase 30% em dois anos, mas nenhum trecho do rio está livre de contaminação, e o Pinheiros bateu recorde de lixo retirado em 2025. O AMB4 foi aos estudos da Cetesb e da SOS Mata Atlântica para mostrar o que melhorou, o que não melhorou, de onde vem a sujeira e como ela é tratada.

Por Redação AMB4 13 min AmbienteSociedade
Tietê, Pinheiros e Tamanduateí: o que os estudos mostram sobre a despoluição dos rios de São Paulo

Em setembro de 2026, a Cetesb anunciou que a poluição orgânica levada pelo Rio Tietê caiu 29,4% em dois anos. Três meses antes, a Fundação SOS Mata Atlântica tinha publicado o resultado de uma expedição da nascente à foz: não há um único trecho do Tietê livre de contaminação. As duas informações são verdadeiras, e juntas contam onde está a despoluição dos rios de São Paulo.

O AMB4 foi às fontes originais, os relatórios da Cetesb, os levantamentos da SOS Mata Atlântica e os balanços do Governo de SP e da Sabesp, para olhar três rios: o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí, que corre ao lado da Avenida dos Estados, em Santo André, e da Avenida do Estado, em São Paulo.

O que melhorou

O número mais citado vem da Cetesb, a agência ambiental paulista. O estudo mede a carga orgânica, ou seja, quantas toneladas de matéria orgânica (medida em DBO, a demanda bioquímica de oxigênio) o Tietê carrega por dia. Segundo a Cetesb, a carga caiu de 218 toneladas por dia em 2024 para 154 toneladas por dia em 2026, abaixo da meta de 192 toneladas fixada para este ano. São 64 toneladas a menos de dejetos por dia.

Gráfico de barras com a carga orgânica do Rio Tietê: 218 toneladas por dia em 2024 e 154 em 2026, abaixo da meta de 192
Fonte: Cetesb, via Agência SP (17/09/2026). Gráfico: AMB4.

A medição usa 28 pontos no Tietê e 30 em afluentes. O Índice de Qualidade da Água (IQA) subiu na Ponte dos Remédios, de 15 para 23, e em Guarulhos, de 17 para 21. Em outro levantamento, de 22/09/2026, a Cetesb registrou queda de 23% no carbono orgânico dos 30 afluentes monitorados na capital, com destaque para o Cabuçu de Cima (-31%), o Aricanduva (-26%) e o Cabuçu de Baixo (-26%). No Tamanduateí, a queda foi de 11%.

Print do texto da Agência SP sobre a queda de 29,4% na carga de poluição do Rio Tietê, com o trecho principal destacado
Print do comunicado do Governo de SP com os dados da Cetesb (17/09/2026). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

O governo atribui o resultado à ampliação da coleta e do tratamento de esgoto e ao desassoreamento. Desde a privatização da Sabesp, em julho de 2024, segundo o governo, 2,8 milhões de pessoas passaram a ter esgoto coletado e 4,7 milhões passaram a ter esgoto tratado.

O que não melhorou

No estudo Observando o Tietê, de setembro de 2025, a chamada mancha de poluição, o trecho com água imprópria para usos múltiplos, caiu de 207 km em 2024 para 174 km em 2025, uma redução de 15,9%. Mas o número ainda é o dobro do menor patamar recente, de 85 km, em 2021.

Gráfico com a extensão da mancha de poluição do Tietê: 85 km em 2021, 207 km em 2024 e 174 km em 2025
Fonte: SOS Mata Atlântica, Observando o Tietê (18/09/2025). Gráfico: AMB4.

Dos 55 pontos analisados, só um teve água de qualidade boa (1,8%). A maioria ficou regular (61,8%), ruim (27,3%) ou péssima (9,1%). Nenhum ponto foi classificado como ótimo. O estudo cita fatores que pesaram no ano: a chuva menor, que caiu de 2.050 mm em 2010 para 1.072 mm em 2024 e diluiu menos o esgoto, o rompimento de um interceptor de esgoto na Marginal, em julho, e despejos irregulares.

Print do estudo Observando o Tietê da SOS Mata Atlântica com o trecho sobre a redução da mancha de 207 para 174 km destacado
Print do Observando o Tietê, da SOS Mata Atlântica (18/09/2025). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

É muito mais fácil poluir um rio do que despoluir.

Gustavo Veronesi, coordenador do programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica

As duas medições não se contradizem. A Cetesb mede quanta matéria orgânica o rio carrega; a SOS mede a qualidade da água em cada ponto, com mais parâmetros. A carga pode cair e o rio continuar ruim, porque ele parte de um nível muito degradado.

O que tem na água

Em junho de 2025, a SOS Mata Atlântica percorreu os mais de 1.100 km do Tietê, de Salesópolis à foz no Rio Paraná, com a Unifesp, a UFABC, o CENA/USP, a USCS e o Instituto do Mar. O relatório da Expedição Tietê 2025, publicado em junho de 2026, encontrou:

  • Microplásticos em todos os 14 pontos, de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico, com os maiores valores em Osasco e Promissão;
  • 25 agrotóxicos dos 46 pesquisados, entre eles a atrazina, proibida na União Europeia desde 2004, acima do limite nos trechos agrícolas;
  • 16 fármacos e drogas, como cafeína, carbamazepina, diclofenaco, losartana, cocaína e benzoilecgonina (o produto da cocaína no organismo);
  • Oxigênio dissolvido quase zero na Grande SP: 0,37 mg/L em Guarulhos e 0,49 mg/L em Osasco. A resolução Conama nº 357/2005 exige no mínimo 5 mg/L em rios de classe 2.
Print da reportagem da SOS Mata Atlântica sobre a Expedição Tietê 2025, com o trecho sobre microplásticos, agrotóxicos e fármacos destacado
Print do relatório da Expedição Tietê 2025, da SOS Mata Atlântica (25/06/2026). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.
Espuma branca cobrindo o Rio Tietê em Salto, no interior de São Paulo
Espuma no Tietê em Salto. A espuma está associada aos detergentes do esgoto que chega da Grande SP. Foto: zardeto/Panoramio, CC BY 3.0.

De onde vem a poluição

Os estudos apontam quatro origens principais. O peso de cada uma muda ao longo do rio.

1. Esgoto doméstico

É a principal fonte na região metropolitana. A matéria orgânica do esgoto consome o oxigênio da água, e por isso o Tietê chega a quase zero de oxigênio entre Guarulhos e Osasco. Os fármacos e a cocaína encontrados pela expedição também chegam pelo esgoto. Em 2024, na área do programa IntegraTietê, a coleta de esgoto alcançava 85% da população, segundo a Sabesp. Os 15% restantes, as ligações clandestinas e os vazamentos de interceptores ainda chegam, em boa parte, aos córregos.

Moradias e chaminés às margens do Rio Tietê, com água escura e margem sem mata
Moradias às margens do Tietê, 15/12/2023. Foto: Sintegrity, CC BY-SA 4.0.

2. Lixo

O lixo chega aos rios pelas ruas: a chuva leva o que foi descartado nas calçadas, nos bueiros e nos córregos. Em 2025, o Governo de SP retirou 43.948 toneladas de lixo flutuante do Rio Pinheiros, 14% a mais que em 2024 e o maior volume desde 2023. Em três anos foram 116,9 mil toneladas, com gasto de mais de R$ 190 milhões. Entre os itens: garrafas PET, isopor, bolas, bonecas, sofás e colchões.

Gráfico com o lixo retirado do Rio Pinheiros: 34.704 toneladas em 2023, 38.260 em 2024 e 43.948 em 2025
Fonte: SP Águas, via Agência SP (08/01/2026). Gráfico: AMB4.
Barco de coleta com escavadeira retirando lixo do Rio Pinheiros, ao lado da ciclovia
Coleta de lixo flutuante no Rio Pinheiros. Foto: Divulgação/Governo de SP (Agência SP, 08/01/2026).
Painel do Lixômetro e escultura de peixe cheia de lixo retirado do Rio Pinheiros, no Parque Bruno Covas
O Lixômetro e a escultura de peixe feita com lixo do rio, no Parque Bruno Covas. Foto: Divulgação/Semil, 2025.
Print da Agência SP com o título sobre o aumento de 14% na retirada de lixo do Rio Pinheiros em 2025
Print do comunicado do Governo de SP (08/01/2026).

3. Poluição difusa

É a sujeira que não sai de um cano: fuligem, óleo, pneu e resíduos que a chuva lava do asfalto, e o sedimento das margens sem mata. No interior, entram os agrotóxicos e o adubo das lavouras, o que explica a atrazina acima do limite nos trechos agrícolas. A expedição da SOS liga a contaminação à urbanização, ao saneamento insuficiente, ao uso agrícola do solo e aos reservatórios.

4. Despejos irregulares

Indústrias e imóveis que lançam efluentes sem licença. Em junho de 2026, a fiscalização integrada no Tietê aplicou R$ 14,5 milhões em multas, depois de percorrer mais de 7,4 mil km.

O Pinheiros: o rio que voltou a ter vida, mas segue péssimo

O programa Novo Rio Pinheiros (2019 a 2022) ligou mais de 500 mil pessoas à rede de esgoto e instalou 5 Unidades Recuperadoras nos afluentes Pirajussara, Água Espraiada, Jaguaré, Cachoeira e Antonico, que tratam cerca de 6 mil litros por segundo. Segundo a Exame, o programa custou R$ 1,7 bilhão, com R$ 1 bilhão financiado pelo Banco Mundial, e a DBO caiu de 60 a 75 mg/L em 2019 para 19 mg/L em julho de 2023.

Vista aérea do Rio Pinheiros com a Ponte Estaiada e as marginais
Rio Pinheiros e a Ponte Estaiada. Foto: Divulgação/Governo de SP, 2025.

Do outro lado, a SOS Mata Atlântica classificou o Pinheiros como péssimo, com IQA de 18 a 19, no relatório Observando os Rios de março de 2025. A Exame resumiu o quadro no título da reportagem: o rio está vivo, mas ainda doente. A bióloga Renata Esteves, ouvida pela revista, fez ressalvas ao programa. O lixo retirado cresceu em 2024 e em 2025, sinal de que o descarte na origem continua.

O Tamanduateí e o ABC

O Tamanduateí nasce em Mauá, atravessa Santo André, onde corre ao lado da Avenida dos Estados, passa por São Caetano e encontra o Tietê na capital, depois de correr ao lado da Avenida do Estado. Em 2019, Santo André (233 litros por segundo) e Mauá (199 litros por segundo) lançavam juntas cerca de 60 milhões de litros de esgoto por dia no rio, segundo o Diário do Grande ABC. São Caetano trata 100% do esgoto desde 2009.

Rio Tamanduateí canalizado ao lado da Avenida do Estado, com vegetação nas margens
O Tamanduateí ao lado da Avenida do Estado, em São Paulo, 2008. Foto: Lukaaz, CC BY-SA 3.0.

Desde então:

  • Mauá (janeiro de 2026): a ETE Mauá trata até 1.125 litros por segundo; a coleta chegou a 95% e o tratamento a 91%, com investimento de R$ 260 milhões. Um caranguejo raro de água doce, do gênero Aegla, foi encontrado na nascente.
  • Santo André (abril de 2026): o programa “Água Limpa, Córrego Vivo” prevê cerca de R$ 265,3 milhões, sendo R$ 210 milhões da Sabesp e R$ 55,3 milhões do Semasa.
  • Córrego Taioca, em Santo André: obras de R$ 220 milhões com 12.800 ligações à ETE ABC, para 178 mil moradores de Santo André e São Bernardo.
  • Avenida dos Estados, perto do Moinho São Jorge: obras de contenção de margem de R$ 4 milhões (agosto de 2025 a maio de 2026) e desassoreamento de R$ 25 milhões, que aguardava ordem de serviço em maio de 2026.
Encontro do Rio Tamanduateí com o Rio Tietê, com chaminés ao fundo
O Tamanduateí perto da Marginal Tietê, 2009. Foto: Lukaaz, CC BY-SA 3.0.

Como a água é tratada

Despoluir um rio é, na prática, impedir que o esgoto e o lixo cheguem até ele, e tirar o que já está lá. Os principais tipos de tratamento usados em São Paulo:

TipoComo funcionaOnde é usado
Lodo ativado (ETE)Bactérias consomem a matéria orgânica do esgoto em tanques com ar; o lodo é separado e a água tratada volta ao rioETE Barueri, ETE ABC, ETE Mauá
Unidades RecuperadorasTratam a água do próprio córrego antes de ela chegar ao rio principal, com lodo ativado e membranas5 afluentes do Pinheiros
FlotaçãoMicrobolhas de ar levam a sujeira para a superfície, onde é raspadaProtótipo no Pinheiros em 2008, abandonado
DesassoreamentoDragas e barcaças retiram sedimento e lixo do fundoTietê, Pinheiros e Tamanduateí
Coleta de lixo flutuanteBarcos e escavadeiras retiram o lixo da superfícieRio Pinheiros
Vista aérea da Estação de Tratamento de Esgoto de Barueri, com tanques e prédios ao fundo
ETE Barueri, 07/06/2017. Foto: Governo do Estado de SP, CC BY 2.0.

A ETE Barueri recebe o esgoto de cerca de 10 milhões de pessoas e vai passar de 16 para 22,5 mil litros por segundo, com obras de R$ 6 bilhões de 2026 a 2029, segundo a Semil.

Passarela sobre os tanques de aeração da ETE Barueri, com espuma na água
Tanques de aeração da ETE Barueri, onde as bactérias do lodo ativado consomem a matéria orgânica, 2017. Foto: Prefeitura de Itapevi, CC BY 2.0.

A flotação foi a grande aposta para o Pinheiros nos anos 2000. Um estudo apresentado na ABRHidro em 2008 mostrou que o protótipo, de 10 mil litros por segundo, removia 91% a 92% do fósforo e 53% da DBO. A técnica não virou solução definitiva: tratava a água do rio depois de poluída, sem tirar o esgoto da origem.

Barcaça navegando no Rio Tietê canalizado, com árvores e viaduto ao fundo
Barcaça no Rio Tietê, 2014. Foto: Marco Aurélio Esparza, CC BY-SA 3.0.

O desassoreamento do IntegraTietê já retirou quase 5 milhões de metros cúbicos de sedimentos da bacia, segundo a Semil (janeiro de 2026). O trabalho reduz o risco de enchente, mas não melhora sozinho a qualidade da água.

Os planos e os prazos

  • IntegraTietê: o programa do Governo de SP para o Tietê, com mais de R$ 22 bilhões contratados, segundo o governo.
  • Universalização: a Sabesp promete atingir a meta em 2029, antes de 2033, o prazo do Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), que exige 99% da população com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto.
  • Projeto Tietê: começou em 1992. Até 2015, tinha gasto US$ 3,6 bilhões, a maior parte com financiamento do BID. A coleta de esgoto subiu de 70% para 87% e o tratamento de 24% para 68%, segundo a Agência Pública.

Os dois lados

O que avançouO que falta
Carga orgânica do Tietê caiu 29,4% em dois anos (Cetesb)Só 1 de 55 pontos tem água boa (SOS)
Mancha de poluição caiu de 207 para 174 kmMancha ainda é o dobro dos 85 km de 2021
Afluentes da capital com 23% menos carbono orgânicoMicroplásticos em todos os pontos do rio
Mauá e São Caetano perto de tratar todo o esgotoLixo retirado do Pinheiros cresceu em 2024 e em 2025
DBO do Pinheiros caiu de 60-75 para 19 mg/LPinheiros ainda classificado como péssimo

A despoluição completa depende de levar o esgoto de todos para as estações, e isso inclui as áreas irregulares, onde as redes são mais difíceis de instalar. O lixo depende de coleta e descarte nas cidades. E a chuva mais fraca dos últimos anos mostrou que, sem diluição, qualquer falha aparece no rio.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente

  • Os indicadores são diferentes: carga orgânica (Cetesb), IQA por ponto (SOS) e lixo retirado (SP Águas). Comparar um com o outro gera conclusões erradas.
  • O saneamento é a variável principal. O Marco Legal fixa 2033 como prazo nacional, e a fiscalização das metas é feita pelas agências reguladoras.
  • Microplásticos, fármacos e agrotóxicos ainda não têm limite na resolução Conama 357/2005, que classifica os rios. É uma lacuna para a próxima geração de monitoramento.

Em números

IndicadorValorFonte
Carga orgânica do Tietê (2024 → 2026)218 → 154 t/diaCetesb
Mancha de poluição do Tietê (2024 → 2025)207 → 174 kmSOS Mata Atlântica
Pontos com água boa no Tietê1 de 55 (1,8%)SOS Mata Atlântica
MicroplásticosEm 14 de 14 pontosExpedição Tietê 2025
Lixo retirado do Pinheiros em 202543.948 tSP Águas
Sedimentos retirados (IntegraTietê)Quase 5 milhões m³Semil
Esgoto lançado no Tamanduateí (2019)~60 milhões L/diaDiário do Grande ABC

Fontes

Imagem de capa: escavadeira retira lixo do Rio Pinheiros, 2026 (foto: Divulgação/Semil). As fotos marcadas como Divulgação são imagens oficiais do Governo de SP e da Semil, com crédito; as demais são do Wikimedia Commons, com as licenças indicadas.

Nota metodológica: a Cetesb mede a carga orgânica em DBO (toneladas por dia) e, nos afluentes, o carbono orgânico total (COT). A SOS Mata Atlântica usa um índice próprio de qualidade da água, com coletas feitas por voluntários. Os resultados não são diretamente comparáveis.

Conteúdo informativo, publicado em outubro 21, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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