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Rio Tietê: a história do rio que já foi de nadar e virou símbolo da poluição em São Paulo

Série Rios de SP, episódio 1. Há cem anos o Tietê tinha clubes de remo, regatas e curvas. Com mapas de 1926 e 1930, imagens de satélite e os dados de 33 anos de monitoramento, o AMB4 conta como o rio foi retificado, poluído e prometido limpo várias vezes.

Por Redação AMB4 11 min AmbienteSociedade
Rio Tietê: a história do rio que já foi de nadar e virou símbolo da poluição em São Paulo

Este é o primeiro episódio da série Rios de SP, do AMB4. Nos próximos: o Pinheiros e o Tamanduateí.

No começo do século 20, o Tietê era o lugar de lazer de São Paulo. Tinha clubes de remo, regatas, travessias a nado, pescaria e passeios de barco. Hoje, no trecho da capital, a água quase não tem oxigênio. O AMB4 foi a mapas antigos, estudos acadêmicos e aos dados de monitoramento para contar como isso aconteceu, e o que mudou nos últimos 33 anos.

O rio que corre para dentro do país

O nome vem do tupi e é traduzido como “água verdadeira”. O Tietê nasce em Salesópolis, a cerca de 1.120 metros de altitude e só 22 km do mar, mas não corre para o litoral: atravessa o estado por cerca de 1.100 km, no sentido do interior, até desaguar no Rio Paraná. Foi por ele que bandeirantes e as expedições das monções seguiram rumo ao interior do país.

Quando o Tietê era de nadar

Entre 1899 e 1914 surgiram às margens do rio os principais clubes de remo da cidade, como o Esperia (1899) e o Clube de Regatas Tietê (1907). As regatas reuniam público nas margens da Ponte Grande, onde hoje fica a Ponte das Bandeiras.

Cartão-postal antigo com a sede do Club Esperia à beira do Rio Tietê e um remador em barco individual em primeiro plano
Sede do Club Esperia na Ponte Grande, cerca de 1910. Cartão-postal, domínio público (Wikimedia Commons).

Um estudo publicado em 2023 na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Fiocruz, analisou jornais e revistas dos clubes de 1900 a 1940. A conclusão: até 1920, o rio era associado à saúde e ao esporte; nas décadas de 1930 e 1940, passou a ser visto como inadequado por causa da poluição. O estudo cita uma reportagem de O Estado de S. Paulo sobre a água do Tietê já em 17 de outubro de 1898.

Print do resumo do artigo científico sobre o Tietê e os clubes de remo, com o trecho sobre a poluição nas décadas de 1930 e 1940 destacado
Print do resumo do artigo de Medeiros, Silva e Quitzau (2023). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

O rio de curvas que virou canal

Na várzea da capital, o Tietê fazia dezenas de curvas (meandros) e alagava todo verão. Em 1924, a Prefeitura criou a Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê. O engenheiro sanitarista Saturnino de Brito apresentou em 1929 um plano que mantinha parques e dois grandes lagos nas margens para controlar as cheias. O plano não saiu do papel.

Planta de 1926 do Rio Tietê entre Osasco e Penha, mostrando o rio cheio de curvas em azul e o canal reto projetado sobreposto
Planta do Rio Tietê entre Osasco e Penha, Serviço Geographico Militar, 1926. Em azul, o rio com as curvas originais; a faixa reta é o canal projetado. Acervo do Museu Paulista da USP, domínio público.

Em fevereiro de 1929, uma das maiores enchentes da história da cidade ocupou toda a várzea do Tietê e do Pinheiros. O mapa abaixo, reconstituído por pesquisadores, mostra a área alagada dia a dia.

Mapa da cidade de São Paulo com a área alagada pela enchente de fevereiro de 1929 em cinza ao longo do Tietê e do Pinheiros
A enchente de fevereiro de 1929. Mapa: Grupo Hímaco/Unifesp, CC BY-SA 4.0.

A partir de 1937, o engenheiro Ulhôa Cintra assumiu o projeto de retificação, executado nas décadas de 1950 e 1960. O rio foi canalizado, aprofundado entre Guarulhos e Osasco e, no trecho da cidade, encurtado para quase metade do comprimento original, segundo estudo da USP. Nas margens, onde Saturnino de Brito queria parques, foram construídas as avenidas marginais: o primeiro trecho abriu em 1957 e o último, em 1977.

Comparação entre o mapa de 1930 e o mapa atual do mesmo trecho da Lapa, Jaguara e Vila Leopoldina, mostrando o rio com curvas e depois retificado entre as marginais
O mesmo trecho em 1930 e hoje: Vila Jaguara, Vila Anastácio e Vila Leopoldina, perto do encontro com o Pinheiros. À esquerda, Mappa Topographico do Município de São Paulo (SARA Brasil, 1930, domínio público); à direita, © colaboradores do OpenStreetMap.

A várzea, que funcionava como uma esponja nas cheias, virou pista e bairro. As enchentes continuaram, e o rio passou a depender de dragagem constante para não transbordar.

Foto em preto e branco de uma draga e uma barcaça no Rio Tietê canalizado, com a Marginal e caminhões ao fundo
Draga e máquinas no Tietê, na Marginal da Vila Leopoldina, na década de 1980. Foto: Arthur Fuentes, CC BY-SA 4.0.

A cidade cresceu em cima da bacia

Com a indústria e a explosão populacional das décadas de 1940 a 1970, o esgoto de milhões de pessoas passou a ir direto para o rio. Nos anos 1960, os peixes já tinham sumido do trecho da capital. As imagens de satélite da NASA mostram o tamanho da mancha urbana: em roxo, a área construída; em verde, a vegetação.

Duas imagens de satélite de São Paulo, de 1986 e 2013, mostrando a área urbana em roxo se espalhando sobre a vegetação verde ao longo do Tietê
São Paulo em 1986 (Landsat 5) e em 2013 (Landsat 8), em composição de cores falsas. Imagens: NASA Earth Observatory, domínio público.

1,2 milhão de assinaturas e um projeto de 33 anos

Em 1991, uma campanha da Fundação SOS Mata Atlântica com a Rádio Eldorado reuniu 1,2 milhão de assinaturas pela despoluição do Tietê. No ano seguinte, o Governo de SP e a Sabesp lançaram o Projeto Tietê. O então governador Antônio Fleury Filho chegou a dizer que beberia a água do rio.

Desde então, o projeto teve várias fases, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do BNDES. Segundo a Agência Pública, até 2015 foram investidos US$ 3,6 bilhões. A coleta de esgoto na Grande SP subiu de 70% para 87% e o tratamento, de 24% para 68%.

Gráfico de barras com a coleta de esgoto subindo de 70% para 87% e o tratamento de 24% para 68% entre 1992 e 2015
Fonte: Agência Pública (07/2015), com dados da Sabesp. Gráfico: AMB4.

As promessas de prazo

Ano da promessaO que foi prometido
1993Despoluição concluída até 2005
2004Peixes de volta ao rio até 2010
201294% de coleta de esgoto até 2015
2014Despoluição até 2019
2024Sabesp: universalização do saneamento até 2029

Fontes da tabela: Outras Palavras/Agência Pública (2017) para as promessas de 1993 a 2014; Governo de SP e Sabesp para a meta de 2029.

A evolução em números

A medida mais usada para acompanhar o rio é a mancha de poluição: o trecho com água imprópria para usos múltiplos. Em 1992, segundo a Sabesp, ela se estendia por 530 km, de Mogi das Cruzes a Barra Bonita. No monitoramento da SOS Mata Atlântica, o menor valor foi de 71 km, em 2014. Depois, a mancha voltou a crescer, caiu na pandemia, chegou a 207 km em 2024 e recuou para 174 km em 2025.

Gráfico de barras com a mancha de poluição do Tietê: 530 km em 1992, 71 km em 2014 e valores entre 85 e 207 km de 2018 a 2025
Fontes: Sabesp (1992), via Agência Brasil; SOS Mata Atlântica, Observando o Tietê (2014 a 2025). Gráfico: AMB4.
Print da reportagem da Agência Brasil com a nota da Sabesp sobre a mancha de 530 km em 1992 destacada
Print da Agência Brasil (setembro de 2019) com a nota da Sabesp. Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

Por que sobe e desce? A SOS aponta a chuva: com menos chuva, o rio tem menos água para diluir o esgoto. Em 2024, a precipitação foi de 1.072 mm, quase metade dos 2.050 mm de 2010. Pesam também os municípios onde a coleta e o tratamento ainda são baixos e as falhas na rede, como o rompimento de um interceptor de esgoto na Marginal citado no estudo de 2025.

Como se limpa um rio: o que está sendo feito

Despoluir o Tietê não é limpar a água do rio. É impedir que o esgoto chegue até ele. Para isso, o esgoto de cada casa precisa percorrer uma corrente inteira:

  • Rede coletora: o cano que sai do imóvel e passa na rua;
  • Coletor-tronco: junta o esgoto de vários bairros;
  • Interceptor: tubulação de grande porte que corre na beira dos rios e leva tudo até a estação;
  • Estação de tratamento (ETE): limpa o esgoto e devolve a água ao rio.

Se qualquer elo falha, como uma casa sem ligação, uma ocupação irregular ou um interceptor rompido, o esgoto vai direto para o córrego e chega ao Tietê. Desde a privatização da Sabesp, em julho de 2024, segundo o Governo de SP, 2,8 milhões de pessoas passaram a ter coleta e 4,7 milhões passaram a ter tratamento.

Dentro da estação

As grandes ETEs da Grande SP usam o processo de lodo ativado. Primeiro, grades e caixas de areia tiram o lixo e a areia. No decantador primário, a parte pesada afunda. No tanque de aeração, ar e bactérias consomem a matéria orgânica. No decantador final, o lodo se separa e a água tratada volta ao rio. O processo reduz muito a carga orgânica, mas não foi desenhado para remover todo microplástico, fármaco ou agrotóxico.

Vista aérea da ETE Barueri com tanques retangulares e prédios ao fundo
ETE Barueri, 2017. Foto: Governo do Estado de SP, CC BY 2.0.
Passarela sobre os tanques de aeração da ETE Barueri
Tanques de aeração da ETE Barueri, onde as bactérias consomem a matéria orgânica. Foto: Prefeitura de Itapevi, CC BY 2.0.

As cinco grandes estações do sistema principal (Barueri, ABC, Parque Novo Mundo, São Miguel e Suzano) tratam juntas 24,5 m³ de esgoto por segundo. Pelo programa IntegraTietê, que prevê R$ 23,5 bilhões até 2029, a capacidade deve chegar a 41,2 m³/s, um aumento de 68%. A maior obra é a da ETE Barueri, de 16 para 22,5 m³/s, com investimento de R$ 6 bilhões.

No próprio rio

  • Desassoreamento: quase 5 milhões de m³ de sedimentos retirados da bacia (Semil, janeiro de 2026). Reduz o risco de enchente, mas não limpa a água sozinho.
  • Fiscalização integrada: R$ 14,5 milhões em multas depois de 7,4 mil km percorridos (junho de 2026).
  • Monitoramento: a Cetesb mede 28 pontos no Tietê e 30 em afluentes. O IQA na Ponte dos Remédios subiu de 15 para 23. Na escala da Cetesb, até 19 é “péssimo” e até 36 é “ruim”: o rio saiu do fundo, mas ainda está na faixa ruim.

Fontes desta seção: Correio da Manhã (11/06/2026); Semil, ETE Barueri; Semil, desassoreamento; Diário de SP, fiscalização; Cetesb, via Agência SP.

O Tietê hoje

Os dados mais recentes mostram avanço e limite ao mesmo tempo. A Cetesb mediu queda de 29,4% na carga orgânica do rio entre 2024 e 2026, de 218 para 154 toneladas por dia. Mas a expedição da SOS Mata Atlântica, que percorreu os 1.100 km do rio em 2025, encontrou microplásticos em todos os 14 pontos analisados, 25 agrotóxicos e 16 fármacos e drogas.

Gráfico com a carga orgânica do Tietê caindo de 218 para 154 toneladas por dia entre 2024 e 2026
Fonte: Cetesb, via Agência SP (17/09/2026). Gráfico: AMB4.
Print da SOS Mata Atlântica sobre a Expedição Tietê 2025 com o trecho sobre microplásticos, agrotóxicos e fármacos destacado
Print do relatório da Expedição Tietê 2025, SOS Mata Atlântica (25/06/2026). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.
Espuma branca cobrindo o Rio Tietê em Salto
A espuma no Tietê em Salto, no interior. Foto: zardeto/Panoramio, CC BY 3.0.
Moradias às margens do Rio Tietê com água escura
Moradias às margens do Tietê, 2023. Foto: Sintegrity, CC BY-SA 4.0.

O que vem

A meta atual é a universalização do saneamento: a Sabesp promete 2029, antes do prazo de 2033 do Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), que exige 99% da população com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Se cumprida, será a primeira vez, em 33 anos de Projeto Tietê, que um prazo para o rio é alcançado.

Linha do tempo

AnoO que aconteceu
1898Jornal já publica reportagem sobre a água do Tietê
1899 a 1914Surgem os clubes de remo às margens do rio
1924Criada a Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê
1926Serviço Geographico Militar mapeia o rio com as curvas e o canal projetado
1929Grande enchente; Saturnino de Brito apresenta plano com parques
1937Ulhôa Cintra assume o projeto de retificação
1930 a 1940Poluição torna o rio inadequado para o esporte
1950 a 1960Obras de retificação; peixes somem da capital
1957 a 1977Construção das marginais
1991Campanha reúne 1,2 milhão de assinaturas
1992Começa o Projeto Tietê; mancha de 530 km (Sabesp)
2014Menor mancha da série da SOS: 71 km
2024Mancha volta a 207 km; Sabesp é privatizada
2026Cetesb mede queda de 29,4% na carga orgânica

Fontes

Imagem de capa: Rio Tietê e os clubes de regatas, cartão-postal de Guilherme Gaensly datado de 1907. Acervo do Museu Paulista da USP, domínio público. Mapas históricos e cartões-postais: Wikimedia Commons, domínio público, salvo indicação.

Conteúdo informativo, publicado em outubro 6, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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