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Rio Pinheiros: a história do rio que fizeram correr ao contrário

Série Rios de SP, episódio 2. O Pinheiros tinha 43 km de curvas, foi encurtado, teve o curso invertido para gerar energia e virou esgoto a céu aberto. Com mapas de 1930, estudos e dados oficiais, o AMB4 conta essa história e mostra o que está sendo feito para limpar o rio.

Por Redação AMB4 10 min AmbienteSociedade
Rio Pinheiros: a história do rio que fizeram correr ao contrário

Este é o segundo episódio da série Rios de SP, do AMB4. O primeiro foi sobre o Rio Tietê. O próximo será sobre o Tamanduateí.

Quem passa hoje pela Marginal Pinheiros vê um canal reto, entre duas pistas. Há cem anos, o mesmo rio fazia dezenas de curvas por uma várzea larga, onde hoje estão bairros como Cidade Jardim, Vila Olímpia, Brooklin e a Cidade Universitária. E corria no sentido contrário ao de hoje. O AMB4 foi a mapas antigos, estudos acadêmicos e dados oficiais para contar como isso aconteceu.

O rio das palmeiras

No período colonial, o rio era chamado de Jurubatuba, palavra tupi para “lugar com muitos jerivás”, uma palmeira nativa. O nome Pinheiros veio depois, por causa das araucárias da região. O rio nasce do encontro do Guarapiranga com o Rio Grande, no sul da cidade, e deságua no Tietê, perto do Cebolão.

Comparação entre o mapa de 1930, com o Rio Pinheiros fazendo várias curvas ao lado do bairro de Pinheiros e do Butantan, e o mapa atual com o rio reto entre as marginais
O mesmo trecho em 1930 e hoje: Butantã, Pinheiros e Jardim América. No mapa de 1930 aparece até um “emissário de esgotos” chegando à várzea. Mapas: SARA Brasil, 1930, domínio público; © colaboradores do OpenStreetMap.

A Light e o rio que virou usina

No começo do século 20, a canadense Light (São Paulo Tramway, Light and Power) controlava a energia da cidade. Em 1926, inaugurou parcialmente a usina de Cubatão, hoje Henry Borden, ao pé da Serra do Mar. Em 1927, concluiu a represa Billings e obteve do governo a concessão para “canalizar, sanear e inverter o curso do rio Pinheiros”, segundo estudo de Fabio Alexandre dos Santos (2021).

A ideia era engenhosa: em vez de deixar o Pinheiros descer para o Tietê, bombear a água no sentido contrário, até a Billings, no alto da Serra. De lá, a água despenca cerca de 700 metros por tubulações até as turbinas em Cubatão.

Tubulações gigantes da Usina Henry Borden descendo a encosta da Serra do Mar
As tubulações da Usina Henry Borden levam a água da Billings para as turbinas em Cubatão. Foto: enioprado/Panoramio, CC BY-SA 3.0.

Para isso, foram construídas duas usinas elevatórias, que bombeiam a água rio acima: Pedreira (1939) e Traição (1940), esta na própria calha do Pinheiros, na zona oeste.

Foto em preto e branco da Usina Elevatória de Traição às margens do Rio Pinheiros, com torres de transmissão e prédios ao fundo
Usina Elevatória de Traição, no Rio Pinheiros. Foto: Luís Guilherme, 2006, CC BY 2.0.

Curvas a menos, terra a mais

As obras de retificação começaram em 1927 e terminaram no fim da década de 1950. Segundo os dados de Seabra (1987), citados por Santos (2021), o rio tinha uma sinuosidade de 43 km, contando o trecho do Rio Grande, e uma várzea de 25 milhões de m². Depois de retificado, passou a ter 25,8 km.

Gráfico de barras com a extensão do Rio Pinheiros: 43 km no curso original e 25,8 km depois da retificação
Fonte: Seabra (1987), citada por Santos (2021). Gráfico: AMB4.

A concessão também deu à Light o direito de desapropriar as áreas alagáveis. No total, a empresa incorporou cerca de 20,8 milhões de m² de terras ao longo do rio. Do que não foi usado nas obras, só 10% voltou aos antigos proprietários. A partir de 1952, a Light passou a vender esses terrenos: até 1964 foram 710 escrituras e 13,2 milhões de m² negociados. Na antiga várzea surgiram o Jóquei Clube, a Cidade Universitária, o Jaguaré, o Brooklin, a Vila Olímpia e o entreposto da Ceagesp.

Print do artigo acadêmico sobre a Light e o Rio Pinheiros, com os trechos sobre os 20,8 milhões de metros quadrados incorporados e a redução de 43 para 25,8 km destacados
Print do artigo de Fabio Alexandre dos Santos (2021). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

A enchente de 1929

Em fevereiro de 1929, uma grande enchente alagou as várzeas do Tietê e do Pinheiros. Parte da historiografia acusa a Light de ter aberto as comportas das represas para ampliar a área alagada e, com isso, as terras a desapropriar, já que a empresa usou a extensão daquela cheia como referência. Outros autores, como o engenheiro Reynaldo Maffey, citado por Santos, afirmam que foi uma decisão técnica para proteger as obras. O debate segue aberto.

Mapa da cidade de São Paulo com a área alagada pela enchente de fevereiro de 1929 em cinza ao longo do Tietê e do Pinheiros
A enchente de fevereiro de 1929. À esquerda, a várzea do Pinheiros alagada. Mapa: Grupo Hímaco/Unifesp, CC BY-SA 4.0.

Quando o esgoto foi parar na represa

Com o crescimento da cidade, o esgoto de milhões de pessoas passou a chegar ao Tietê e ao Pinheiros. E o bombeamento passou a levar essa água poluída para a Billings, que também é usada para o abastecimento de água da Grande SP. As imagens de satélite mostram a expansão da cidade em direção às represas.

Imagens de satélite de São Paulo em 1986 e 2013 mostrando a mancha urbana roxa avançando sobre a vegetação, com o Rio Pinheiros e as represas Billings e Guarapiranga ao sul
São Paulo em 1986 e 2013. Ao sul, as represas Billings e Guarapiranga. Imagens: NASA Earth Observatory, domínio público.

Em 1992, uma resolução conjunta das secretarias estaduais do Meio Ambiente e da Saúde (Resolução SMA/SES 03/1992) passou a proibir o bombeamento regular para a Billings. Desde então, ele só é permitido para controle de cheias, em dias de chuva forte. O Pinheiros deixou de ser um canal de passagem e passou a acumular a própria poluição.

Represa Billings com margens verdes e um jet ski na beira
A Represa Billings em 2024. Foto: Erick Soares3, CC BY-SA 4.0.

A tentativa que não deu certo: a flotação

Em 2001, o Governo de SP anunciou a despoluição do Pinheiros pela flotação: microbolhas de ar levam a sujeira para a superfície, onde é raspada. Um protótipo testado em 2008, de 10 mil litros por segundo, removia 91% a 92% do fósforo e 53% da DBO, segundo estudo apresentado na ABRHidro. Mas a técnica tratava a água do rio já poluída, sem tirar o esgoto da origem. Em setembro de 2011, depois de cerca de R$ 160 milhões gastos, o projeto foi abandonado.

O Novo Rio Pinheiros

Em 2019, o Governo de SP lançou o programa Novo Rio Pinheiros, com investimento previsto de R$ 1,7 bilhão, sendo R$ 1 bilhão financiado pelo Banco Mundial. A meta era trazer de volta condições mínimas para a vida aquática, não tornar o rio próprio para nadar.

Vista aérea do Rio Pinheiros retificado com a Ponte Estaiada e as marginais
O Rio Pinheiros e a Ponte Estaiada. Foto: Divulgação/Governo de SP, 2025.

Segundo o governo, a DBO média caiu de 60 a 75 mg/L em 2019 para 30 mg/L na entrega do programa e para 19 mg/L em julho de 2023. Peixes voltaram a ser vistos em 2021. “O rio está vivo. Mas, como rio urbano, não tem essa funcionalidade (nadar)”, disse a subsecretária de Recursos Hídricos, Samanta Tavares, ao Estadão.

Gráfico com a DBO do Rio Pinheiros: de 60 a 75 mg/L em 2019 para 30 em 2022 e 19 em julho de 2023
Fonte: Governo de SP, via Estadão/IstoÉ Dinheiro (31/07/2023). Gráfico: AMB4.
Print da reportagem com os dados de DBO do Rio Pinheiros e a fala da subsecretária destacados
Print da reportagem do Estadão Conteúdo publicada pela IstoÉ Dinheiro (31/07/2023). Destaque em amarelo feito pelo AMB4.

Eu que estou colada ao rio não notei melhora nenhuma.

Renata Esteves, advogada e bióloga, moradora do Butantã, ao Estadão (2023)

Os dados independentes também mostram um rio ainda doente. No relatório Observando os Rios de março de 2025, a SOS Mata Atlântica classificou o Pinheiros como péssimo, com IQA de 18 a 19. Os dois indicadores medem coisas diferentes: a DBO mede a matéria orgânica; o IQA reúne vários parâmetros da qualidade da água.

Como se limpa o Pinheiros: o que está sendo feito

A limpeza do Pinheiros combina cinco frentes. Nenhuma resolve sozinha.

1. Levar o esgoto para a estação

É a frente principal. O Novo Rio Pinheiros fez mais de 650 mil ligações de imóveis à rede de esgoto. Só no primeiro semestre de 2023 foram 25 mil novas ligações, várias encontradas pela investigação de ligações clandestinas, segundo o governo. O esgoto coletado na bacia segue por grandes tubulações, como o emissário Pinheiros-Leopoldina, até a ETE Barueri, onde é tratado por lodo ativado: bactérias consomem a matéria orgânica em tanques com ar.

Passarela sobre os tanques de aeração da ETE Barueri
Tanques de aeração da ETE Barueri, que recebe o esgoto da bacia do Pinheiros. Foto: Prefeitura de Itapevi, CC BY 2.0.

2. Tratar os córregos antes do rio

Onde o esgoto ainda chega aos córregos, o programa instalou cinco Unidades Recuperadoras da Qualidade da Água nos afluentes Pirajussara, Água Espraiada, Jaguaré, Cachoeira e Antonico. Elas captam a água do córrego, tratam e devolvem ao Pinheiros, somando cerca de 6 mil litros por segundo. É uma solução de transição, que funciona enquanto as ligações não chegam a todas as casas.

3. Tirar o lixo flutuante

Barcos com escavadeiras recolhem o lixo que chega pelos córregos e galerias. Em 2025 foram 43.948 toneladas, 14% a mais que em 2024. Em três anos, 116,9 mil toneladas e mais de R$ 190 milhões gastos. Entre os itens: garrafas PET, isopor, bolas, bonecas, sofás e colchões.

Gráfico com o lixo retirado do Rio Pinheiros: 34.704 toneladas em 2023, 38.260 em 2024 e 43.948 em 2025
Fonte: SP Águas, via Agência SP (08/01/2026). Gráfico: AMB4.
Barco de coleta com escavadeira retirando lixo do Rio Pinheiros, ao lado da ciclovia
Coleta de lixo flutuante no Rio Pinheiros. Foto: Divulgação/Governo de SP (Agência SP, 08/01/2026).
Painel do Lixômetro e escultura de peixe feita com lixo retirado do Rio Pinheiros, no Parque Bruno Covas
O Lixômetro e a escultura de peixe feita com lixo do rio, no Parque Bruno Covas. Foto: Divulgação/Semil, 2025.

4. Desassorear

Dragas retiram do fundo o sedimento e o lixo acumulados. Segundo reportagem do Estadão de 2023, o desassoreamento custava cerca de R$ 4 milhões por mês. Reduz o risco de enchente, mas não melhora sozinho a qualidade da água.

5. Controlar o bombeamento

Desde 1992, a água do Pinheiros só é bombeada para a Billings para evitar enchentes. Isso protege a represa, que é manancial, mas mantém no Pinheiros a poluição que antes seguia adiante. Quanto menos esgoto chegar ao rio, menor o impacto quando o bombeamento precisa ser feito.

O que vem

As margens do Pinheiros ganharam a ciclovia (2010), o Parque Bruno Covas e um projeto de concessão para transformar a antiga Usina de Traição em espaço de lazer. Mas o volume de lixo retirado cresceu em 2024 e em 2025, e a classificação independente da água segue péssima. Como no Tietê, o horizonte é a universalização do saneamento prometida pela Sabesp para 2029, antes do prazo de 2033 do Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020).

Linha do tempo

AnoO que aconteceu
1560Jesuítas rebatizam o Jurubatuba de Rio Pinheiros, segundo a tradição
1926Light inaugura parcialmente a usina de Cubatão (Henry Borden)
1927Represa Billings concluída; Light recebe concessão para canalizar e inverter o rio
1929Grande enchente; debate sobre o papel da Light
1939 e 1940Inauguradas as usinas elevatórias de Pedreira e Traição
1952 a 1964Light vende 13,2 milhões de m² da antiga várzea
Fim dos anos 1950Concluída a retificação: de 43 km para 25,8 km
1970Inaugurada a Marginal Pinheiros
1992Bombeamento para a Billings restrito ao controle de cheias
2001 a 2011Projeto de flotação: R$ 160 milhões e abandono
2010Inaugurada a ciclovia do Rio Pinheiros
2019 a 2022Novo Rio Pinheiros: DBO cai de 60 a 75 para 30 mg/L
2023DBO chega a 19 mg/L, segundo o governo
2025SOS classifica o rio como péssimo; recorde de lixo retirado: 43.948 t

Fontes

  • Fabio Alexandre dos Santos, “A capital paulista, suas águas e seu espaço (1890-1940)”, América Latina en la Historia Económica (2021): scielo.org.mx
  • Wikipédia, Rio Pinheiros e Usina Elevatória de Traição: pt.wikipedia.org e pt.wikipedia.org
  • ((o))eco, o centenário imbróglio das águas paulistanas: oeco.org.br
  • ABRHidro, teste de flotação no Rio Pinheiros (2008): abrhidro.org.br
  • IstoÉ Dinheiro/Estadão Conteúdo, Rio Pinheiros vivo, mas ainda doente (31/07/2023): istoedinheiro.com.br
  • Seesp, engenharia no Rio Pinheiros: seesp.org.br
  • Metrópoles, qualidade do Rio Pinheiros (SOS Mata Atlântica): metropoles.com
  • Agência SP, lixo no Rio Pinheiros em 2025 (08/01/2026): agenciasp.sp.gov.br
  • O Estado de S. Paulo, 20 anos da campanha pelo Tietê (22/09/2011), sobre o emissário Pinheiros-Leopoldina: socioambiental.org
  • NASA Earth Observatory, Growth of São Paulo, Brazil: science.nasa.gov
  • Lei nº 14.026/2020, Marco Legal do Saneamento: planalto.gov.br

Imagem de capa: o Rio Pinheiros com suas curvas ao lado do bairro de Pinheiros e do Butantan, no Mappa Topographico do Município de São Paulo, SARA Brasil, 1930. Domínio público (Wikimedia Commons).

Conteúdo informativo, publicado em outubro 18, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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