Tour Ambiental pelo Mundo

Dinamarca: o país que produz 60% da eletricidade com vento, taxa o carbono da vaca e mesmo assim está sendo cobrado pela Europa por causa do mar

Terceira edição do Tour Ambiental pelo Mundo: a Dinamarca fechou 2025 com 60% da eletricidade vinda do vento, tem meta de 70% de corte de emissões escrita em lei e aprovou o primeiro imposto do mundo sobre o metano do gado. Mas os fiordes vivem a pior falta de oxigênio em 20 anos e o país descumpre as diretivas de água da União Europeia.

Por Redação AMB4 9 min AmbienteEconomia
Dinamarca: o país que produz 60% da eletricidade com vento, taxa o carbono da vaca e mesmo assim está sendo cobrado pela Europa por causa do mar

Série: Tour Ambiental pelo Mundo · País: Dinamarca · Dimensões: Ambiente, Economia
Tags: Dinamarca, energia eólica, imposto de carbono, pecuária, nitrogênio, fiordes, transição energética


Por Redação AMB4

Fileira de turbinas eólicas offshore do parque de Middelgrunden, no mar em frente a Copenhague, Dinamarca
Parque eólico de Middelgrunden, em frente a Copenhague: 20 turbinas em arco, metade delas de uma cooperativa com 8.500 moradores da cidade. Foto: Kim Hansen, CC BY-SA 3.0

A Dinamarca tem 6 milhões de habitantes e um território menor que o Espírito Santo, sem montanha, sem hidrelétrica e sem um único reator nuclear. Mesmo assim, fechou 2025 com 60% da eletricidade produzida por vento, a maior proporção do mundo, e 78% de toda a oferta elétrica vinda de fontes renováveis. É também o primeiro país do planeta a aprovar um imposto sobre o carbono emitido por vacas e porcos. A terceira edição do Tour Ambiental pelo Mundo vai ao país que mais longe chegou na transição energética, e olha também para o que essa transição ainda não resolveu: o mar dinamarquês está sufocando.

60% de vento num ano em que ventou pouco

O Relatório do Mercado Elétrico de 2025 da Energinet, a operadora do sistema dinamarquês, mostra que o vento respondeu por cerca de 60% da eletricidade produzida no país, e a energia solar por 14% (era 10% em 2024). Pela contabilidade da Agência Dinamarquesa de Energia, no método da União Europeia, as renováveis somaram 77,7% da oferta total de eletricidade.

O detalhe que diz mais sobre o sistema é outro: 2025 foi um ano de vento fraco. As turbinas geraram cerca de 19 TWh, 1,5 TWh a menos que em 2024, e a geração total do país caiu quase 2 TWh. A Dinamarca não apagou a luz porque está ligada por cabos submarinos à Noruega, à Suécia, à Alemanha, à Holanda e ao Reino Unido, e importa nas horas sem vento. Descontadas importações e exportações, a fatia do vento no consumo cai para cerca de 41%. O modelo dinamarquês, portanto, não é só turbina: é interconexão, flexibilidade e sinal de preço.

A meta de 70% até 2030, escrita em lei

A Lei do Clima dinamarquesa, aprovada em 2020 com apoio de quase todo o Parlamento, fixou uma redução de 70% das emissões até 2030 em relação a 1990, neutralidade climática em 2045 e emissões líquidas negativas (110% de redução) em 2050. Não é plano de governo: é lei com metas intermediárias obrigatórias, e o governo tem que responder anualmente ao Conselho do Clima, órgão independente que fiscaliza o cumprimento.

O relatório de status do Conselho, de fevereiro de 2025, confirmou que a meta intermediária de 2025 (50% de redução) seria cumprida, com projeção de cerca de 55%, e considerou a meta de 2030 alcançável desde que todas as políticas já aprovadas sejam de fato executadas. A projeção oficial mais recente coloca o país em 68% de redução em 2030, faltando cerca de 1,5 milhão de toneladas de CO₂e pra fechar a conta. O setor elétrico estará praticamente descarbonizado em 2030. O problema, como resumiu o ministro do Clima, Lars Aagaard, é que “a agricultura vai continuar respondendo por quase metade das emissões dinamarquesas em 2030”.

Gado pastando em campo verde perto de Esbjerg, na Dinamarca, com árvores ao fundo
Gado perto de Esbjerg, no oeste do país: a agropecuária responde por 28% das emissões dinamarquesas e por cerca de 70% do nitrogênio que chega ao mar. Foto: Kent Madsen, CC BY-SA 2.0

O primeiro imposto do mundo sobre o carbono da vaca

Foi exatamente por isso que a Dinamarca fez o que nenhum outro país tinha feito. Em junho de 2024, governo, sindicato rural, indústria de alimentos, sindicatos de trabalhadores e a maior ONG ambiental do país fecharam o acordo batizado de Tripartite Verde, transformado em acordo político amplo no Parlamento em novembro do mesmo ano. A partir de 2030, cada tonelada de CO₂ equivalente emitida pela pecuária (metano do gado, principalmente) será taxada em 300 coroas, cerca de US$ 43, subindo para 750 coroas (cerca de US$ 108) em 2035. Como há uma dedução de 60% na base de cálculo, o valor efetivo pago pelo produtor fica em 120 coroas por tonelada em 2030 e 300 em 2035. A receita volta para o próprio setor, financiando tecnologia de redução de emissões.

O imposto é só uma parte do pacote. O acordo prevê tirar 140 mil hectares de terras baixas ricas em carbono da produção agrícola até 2030 (áreas de turfa drenada que, cultivadas, emitem CO₂ continuamente), plantar 250 mil hectares de floresta nova até 2045, o equivalente a 6% do território, e criar um Fundo de Áreas Verdes de 40 bilhões de coroas (cerca de US$ 5,8 bilhões) pra bancar a conversão. A redução esperada só com o imposto é de 1,8 milhão de toneladas de CO₂e em 2030, praticamente o tamanho da lacuna que falta pra chegar aos 70%.

O outro lado: o mar que não respira

O que o vento não conta é o que acontece debaixo d’água. A Dinamarca é um país de fiordes rasos e mar interior, e a agricultura intensiva em 60% do território despeja nitrogênio nessas águas há décadas. O resultado, segundo a Universidade de Aarhus, que faz o monitoramento oficial, é a pior falta de oxigênio nos fiordes e áreas costeiras em 20 anos: zonas mortas em que, nas palavras do pesquisador Jens Würgler Hansen, “os animais estão mortos ou fugiram”. Cerca de 70% do nitrogênio que chega ao mar dinamarquês vem da agricultura.

O país não cumpre a Diretiva-Quadro da Água nem a Diretiva dos Nitratos da União Europeia, cujo prazo final para o bom estado ecológico das águas é 2027, e a Sociedade Dinamarquesa de Conservação da Natureza levou uma queixa formal à Comissão Europeia. O plano do governo prevê cortar 10.400 toneladas de nitrogênio por ano, em boa parte com adesão voluntária dos produtores, exatamente o modelo que, segundo as ONGs, não funcionou entre 2015 e 2021. É o mesmo Tripartite Verde que aprova o imposto sobre a vaca que está sendo criticado por ser brando demais com o nitrogênio.

Quando o mercado sozinho não basta: o leilão eólico sem nenhuma proposta

Dois episódios recentes desmontam a ideia de que a transição dinamarquesa roda no automático. Em dezembro de 2024, a primeira rodada do maior leilão de eólica offshore da história do país (3 GW de um pacote de 6 GW em seis áreas), sem subsídio e com o Estado como sócio minoritário, terminou sem uma única proposta. Custos de capital e juros altos tinham mudado a conta, e em janeiro de 2025 o governo cancelou o certame. A saída foi voltar ao contrato por diferença, com preço mínimo garantido pelo Estado: em agosto de 2026, a Vattenfall levou dois parques, Hesselø (800 MW) e Nordsøen Midt (1 GW), somando 1,8 GW, quase o dobro dos 2,7 GW hoje instalados no mar.

O outro episódio é Copenhague. A capital prometeu ser a primeira do mundo neutra em carbono em 2025, chegou a cortar 80% das emissões, e em agosto de 2022 abandonou a meta: o plano dependia de capturar o CO₂ da usina de incineração de lixo de Amager, e a operadora não cumpriu os critérios do fundo público de captura de carbono. A cidade não é menos verde por isso, mas o caso virou referência mundial de que meta ambiciosa sem engenharia financeira por trás vira manchete de fracasso.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente no Brasil

O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, e a agropecuária responde por cerca de um quarto das emissões nacionais brutas, sem contar o desmatamento que ela puxa. A Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, deixou a produção agropecuária primária de fora do mercado regulado. A Dinamarca foi na direção oposta: pôs preço no metano do gado, mas negociou o preço com o próprio setor, devolveu a receita a ele e acoplou o imposto a um fundo de conversão de terras. O segundo ponto é a Lei do Clima com metas obrigatórias e um conselho independente que cobra o governo todo ano, com relatório público. E o terceiro é o alerta dos fiordes: um país pode liderar o mundo em energia limpa e, ao mesmo tempo, estar sendo processado pela União Europeia por causa da água. Descarbonizar a eletricidade não resolve o nitrogênio.

Em números

Eletricidade produzida por vento em 2025 ~60% (maior proporção do mundo)
Eletricidade produzida por solar em 2025 (2024) 14% (10%)
Renováveis na oferta total de eletricidade em 2025 77,7%
Geração eólica em 2025 (2024) ~19 TWh (~20,5 TWh)
Meta da Lei do Clima para 2030 (base 1990) / projeção atual 70% / 68%
Meta de 2025 (50%) / resultado projetado cumprida / ~55%
Neutralidade climática / emissões líquidas negativas 2045 / 2050 (110%)
Participação da agropecuária nas emissões 28% hoje, quase metade em 2030
Imposto sobre emissões da pecuária (valor efetivo) 120 DKK/t CO₂e em 2030, 300 DKK/t em 2035
Terras baixas retiradas da produção até 2030 / floresta nova até 2045 140 mil ha / 250 mil ha
Fundo de Áreas Verdes 40 bilhões DKK (~US$ 5,8 bi)
Nitrogênio no mar vindo da agricultura ~70%
Falta de oxigênio nos fiordes pior em 20 anos
Leilão eólico offshore de dez/2024 (3 GW, sem subsídio) zero propostas
Leilão de ago/2026 com preço garantido (Hesselø + Nordsøen Midt) 1,8 GW para a Vattenfall

Fontes:


Tour Ambiental pelo Mundo é a série de terça-feira do AMB4: toda semana, o meio ambiente de um país diferente. Edições anteriores: Costa Rica e Butão.

28 de setembro de 2026 (terceira edição)

Conteúdo informativo, publicado em setembro 29, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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