Tour Ambiental pelo Mundo

Butão: o país que a Constituição obriga a ter 60% de floresta, absorve mais carbono do que emite e vive de vender energia para a Índia

Segunda edição do Tour Ambiental pelo Mundo: o Butão fixou na Constituição um mínimo de 60% de floresta, sequestra 2,5 vezes o que emite e financia tudo com hidrelétricas vendidas à Índia. Mas 278 lagos glaciais, 11 mil pessoas e 4 barragens estão no caminho do derretimento do Himalaia.

Por Redação AMB4 10 min AmbienteEconomia
Mulher com mochila segurando a bandeira do Butão, com montanhas do Himalaia e um dzong ao fundo
Tour Ambiental pelo Mundo: Butão. Imagem: AMB4

Série: Tour Ambiental pelo Mundo · País: Butão · Dimensões: Ambiente, Economia
Tags: Butão, carbono negativo, floresta, hidrelétrica, áreas protegidas, geleiras, Himalaia


Por Redação AMB4

Mosteiro de Paro Taktsang encravado num penhasco coberto de floresta, no Butão
Mosteiro de Paro Taktsang, o Ninho do Tigre, no vale de Paro: a floresta que cobre o penhasco faz parte dos 69,71% do território butanês sob cobertura florestal, quase dez pontos acima do piso constitucional de 60%. Foto: Nina R / UnpetitproleX, CC BY 2.0

O Butão tem cerca de 800 mil habitantes num território de 38 mil km², pouco menor que o Espírito Santo, encaixado no Himalaia entre a Índia e a China. É o único país do mundo cuja Constituição fixa um piso de cobertura florestal, e um dos pouquíssimos que absorvem mais carbono do que emitem: no inventário oficial mais recente, as florestas retiram da atmosfera duas vezes e meia o que o país inteiro lança. Mas a mesma montanha que sustenta esse balanço, e a hidrelétrica que paga a conta, está derretendo. A segunda edição do Tour Ambiental pelo Mundo vai ao país que virou vitrine do “carbono negativo” e olha também para o que essa vitrine não mostra.

A Constituição que proíbe o país de ter menos de 60% de floresta

A Constituição do Butão, promulgada em 2008 quando o reino fez a transição para monarquia parlamentar, determina no artigo 5 que o governo deve manter, “para todo o tempo”, no mínimo 60% do território sob cobertura florestal. Não é meta, é piso constitucional. O inventário florestal nacional citado na terceira NDC do país, entregue à ONU em novembro de 2025, mede a cobertura real em 69,71% do território (dado de 2023), quase dez pontos acima do mínimo legal.

O compromisso climático veio na sequência: em 2009, na COP15 de Copenhague, o Butão prometeu permanecer carbono neutro para sempre, e em 2015, na COP21 de Paris, reafirmou que suas emissões nunca ultrapassariam a capacidade de sequestro das suas florestas.

Carbono negativo de verdade: os números do inventário

A expressão “carbono negativo” costuma aparecer sem número. No caso do Butão, o número existe e é oficial. Segundo a terceira NDC, as emissões nacionais de 2022 somaram 4.454 Gg de CO₂ equivalente (cerca de 4,5 milhões de toneladas) sem contar o uso da terra, enquanto o sequestro pelas florestas ficou em 10.965 Gg de CO₂e, quase 11 milhões de toneladas. O saldo líquido é negativo em mais de 6 milhões de toneladas por ano, e o Primeiro Relatório Bienal de Transparência do país, de 2024, confirmou o status de carbono neutro com sumidouros acima das emissões.

O plano para manter esse saldo à medida que a economia cresce está na mesma NDC: um potencial de mitigação de até 17.532,8 Gg de CO₂e entre 2026 e 2030 e de até 36.332,8 Gg entre 2031 e 2035, com custo estimado de US$ 9,4 bilhões no primeiro período e US$ 4,3 bilhões no segundo. A meta de energia é chegar a 25.000 MW de capacidade renovável instalada até 2040, sendo 15.000 MW em hidrelétricas e 5.000 MW em solar, tecnologia que o país só começou a explorar em escala com a usina de Sephu, de 22,8 MW.

Punakha Dzong, fortaleza-monastério à beira do rio, com ponte de madeira e montanhas ao fundo, Butão
Punakha Dzong, na confluência dos rios Pho Chhu e Mo Chhu: o mesmo rio que alimenta as hidrelétricas trouxe, em 1994, a inundação do lago glacial Lugge Tsho que danificou o monumento. Foto: Bernard Gagnon, CC BY-SA 4.0

A hidrelétrica que paga a conta: 20% do PIB, 63% das exportações e uma dependência de mão dupla com a Índia

O modelo econômico butanês é, na prática, vender água que cai. A capacidade hidrelétrica instalada chegou a 2.326 MW em 2024 e deu um salto de cerca de 40% em 11 de novembro de 2025, quando o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck inauguraram a usina de Punatsangchhu-II, de 1.020 MW. O setor responde por aproximadamente 20% do PIB e por 63% da receita total de exportações, quase toda direcionada à Índia, que hoje importa mais de 1.500 MW das usinas butanesas. O potencial ainda não aproveitado passa de 23.000 MW.

O contraponto está no calendário. Entre novembro e abril, no inverno seco do Himalaia, a geração cai e o Butão inverte o fluxo: importa da Índia, com picos acima de 800 MW, eletricidade que vem em boa parte de usinas a carvão. O país que exporta energia limpa no verão compra energia suja no inverno. É esse detalhe que explica a corrida por solar na NDC e a insistência em novas usinas de reservatório.

52% do território protegido, e um fundo com data para acabar

O Butão tem 10 áreas protegidas (4 parques nacionais, 4 santuários de vida silvestre e 1 reserva natural estrita), mais um parque botânico real, conectados por 9 corredores biológicos criados a partir de 1999. Somadas, as áreas protegidas e os corredores cobrem 52% do território, a maior proporção da Ásia. Não é área vazia: cerca de 35 mil pessoas vivem dentro da rede e 110 mil moram a menos de 10 km dos seus limites.

O que chama atenção é o financiamento. Em 2018 o país lançou o Bhutan for Life, primeiro fundo do tipo “Project Finance for Permanence” da Ásia, desenhado com o WWF: um fundo de transição de US$ 43 milhões, captado com doadores, e um compromisso do governo de aportar US$ 75 milhões ao longo de 14 anos. A lógica é a de uma hipoteca ao contrário: a contribuição externa diminui ano a ano enquanto a do orçamento nacional cresce, até que, ao fim do período, a gestão das áreas protegidas seja bancada inteiramente pelo próprio país.

O resultado mais visível é o tigre. O levantamento nacional de 2021-2022, feito com 1.201 pontos de armadilha fotográfica em 32.800 km², contou 131 tigres, 27% a mais que os 103 do primeiro censo sistemático, em 2015, com registro de reprodução em várias altitudes e uma foto a mais de 4.400 metros, recorde mundial para a espécie.

O outro lado da montanha: 278 lagos glaciais e uma inundação que já aconteceu

Se a floresta é o ativo do Butão, a geleira é o passivo. Em 7 de outubro de 1994, o rompimento do lago glacial Lugge Tsho, no norte do país, despejou uma onda de lama e gelo pelo vale do rio Pho Chhu que matou mais de 20 pessoas e destruiu parte do dzong de Punakha, um dos monumentos mais importantes do reino. O episódio virou o caso de referência do que os cientistas chamam de GLOF, sigla em inglês para inundação por rompimento de lago glacial.

Um estudo publicado em março de 2026 na revista Natural Hazards and Earth System Sciences, liderado por Sonam Rinzin, da Universidade de Newcastle, avaliou 278 lagos glaciais butaneses e classificou um deles, o Thorthormi Tsho, como de perigo muito alto, mais 5 de perigo alto e 22 de perigo moderado. Na área de alcance dessas inundações potenciais estão mais de 11 mil pessoas, mais de 2.500 edificações, 250 km de estradas, 400 pontes, 20 km² de lavouras e 4 barragens hidrelétricas, ou seja, o próprio motor da economia. Cinco dos distritos classificados em risco alto ou muito alto nunca tinham aparecido como vulneráveis em levantamentos anteriores.

O Butão não esperou o estudo para agir. Entre 2009 e 2012, com financiamento do Fundo para Países Menos Desenvolvidos gerido pelo PNUD, mais de 350 trabalhadores subiram ao Thorthormi todo verão para escavar canais de drenagem no gelo, com pás e picaretas, e baixar artificialmente o nível do lago. No vale de Punakha-Wangdue foi instalado um sistema automático de alerta com 17 sirenes, 4 estações de nível de água, 3 estações meteorológicas e uma central de monitoramento 24 horas. O plano nacional de adaptação estima a conta em US$ 14 bilhões entre 2023 e 2038, para um país cujo PIB inteiro fica na casa dos US$ 3 bilhões.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente no Brasil

O Brasil ainda tem a maior parte do território coberta por vegetação nativa, mas o Código Florestal opera com reserva legal por imóvel, não com um piso nacional. O Butão escolheu o caminho inverso: fixou o mínimo no texto constitucional e deixou a política pública se organizar em torno dele. O segundo ponto é o financiamento com prazo: o Bhutan for Life nasceu com data para o dinheiro externo acabar e com o orçamento nacional obrigado a assumir o lugar, ano a ano, em vez de um fundo que depende de doação renovada. E o terceiro é o mais incômodo: um país que faz quase tudo certo no balanço de carbono continua exposto a um risco climático que não criou, com 4 barragens e 11 mil pessoas no caminho de um lago que pode se romper. Ser carbono negativo não isenta ninguém da conta da adaptação.

Em números

Piso constitucional de cobertura florestal (Constituição de 2008, art. 5) 60% do território
Cobertura florestal real (inventário nacional, 2023) 69,71%
Emissões nacionais em 2022 (sem uso da terra) 4.454 Gg CO₂e
Sequestro pelas florestas em 2022 10.965 Gg CO₂e
Capacidade hidrelétrica instalada (2024) 2.326 MW
Usina de Punatsangchhu-II, inaugurada em 11/11/2025 1.020 MW
Peso da hidrelétrica no PIB / nas exportações ~20% / 63%
Pico de importação de energia da Índia no inverno mais de 800 MW
Meta de capacidade renovável até 2040 25.000 MW (15.000 hidro + 5.000 solar)
Território em áreas protegidas e corredores biológicos 52%
Bhutan for Life (2018): fundo de transição / aporte do governo US$ 43 mi / US$ 75 mi em 14 anos
Tigres (censo 2021-2022 / 2015) 131 / 103 (+27%)
Lagos glaciais avaliados / de perigo muito alto, alto e moderado 278 / 1, 5 e 22
Pessoas e barragens no alcance de um GLOF mais de 11.000 / 4
Custo estimado de adaptação (2023-2038) US$ 14 bilhões

Fontes:


Tour Ambiental pelo Mundo é a série de terça-feira do AMB4: toda semana, o meio ambiente de um país diferente. Edição anterior: Costa Rica.

21 de setembro de 2026 (segunda edição)

Conteúdo informativo, publicado em setembro 21, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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