Sustentabilidade em alta. Então por que produzimos cada vez mais plástico?
Em três décadas, sustentabilidade, reciclagem e economia circular passaram a ocupar espaço nas empresas, nos governos e na vida cotidiana. Mas a curva do plástico continua subindo.

Em três décadas, sustentabilidade, reciclagem e economia circular passaram a ocupar espaço nas empresas, nos governos e na vida cotidiana. Mas a curva do plástico continua subindo.

Há cerca de 30 anos, o cenário era bem diferente. Uma série histórica usada pelo Our World in Data, baseada no trabalho de Roland Geyer e colaboradores, estima que o mundo produziu aproximadamente 156 milhões de toneladas de resinas plásticas e fibras sintéticas em 1995.
Desde então, o plástico não perdeu espaço, pelo contrário. Dados mais recentes da PlasticsEurope mostram que a produção mundial chegou a 430,9 milhões de toneladas em 2024, considerando o escopo que a entidade adota atualmente.
As duas séries não seguem exatamente a mesma metodologia, então seus números não devem ser simplesmente emendados numa única sequência estatística sem ressalva. Mas as duas contam a mesma história: a quantidade de plástico colocada na economia mundial continua crescendo.

A curva praticamente não para
A série histórica acadêmica mostra a transformação das últimas décadas: 156 milhões de toneladas em 1995, 213 milhões em 2000, 263 milhões em 2005, 313 milhões em 2010 e 381 milhões em 2015.
Já a série mais recente da PlasticsEurope registra 370,6 milhões de toneladas em 2018, 379,8 em 2019, 380,6 em 2020, 394,2 em 2021, 400,4 em 2022, 413,8 em 2023 e 430,9 milhões em 2024.
Mesmo com diferenças de metodologia entre as séries, a direção é inequívoca: mais plástico está sendo produzido. E isso leva à pergunta central deste texto.
Se sustentabilidade está em alta, por que o plástico também está?
A primeira explicação é simples: a sustentabilidade cresceu, mas a economia mundial cresceu junto. Mais população, mais renda, urbanização, industrialização e consumo em alta significam mais demanda por materiais.
A OCDE aponta justamente o crescimento econômico e populacional entre os principais fatores por trás do avanço do uso de plásticos. Existe ainda uma característica que torna o material difícil de substituir: ele é barato, leve, resistente, moldável e serve para praticamente qualquer setor.
- embalagens de alimentos e bebidas
- automóveis e transportes
- tubulações e construção civil
- equipamentos hospitalares
- roupas e fibras sintéticas
- computadores, celulares e eletrodomésticos
- agricultura e inúmeras aplicações industriais
O problema, portanto, é mais complexo do que simplesmente “parar de usar plástico”.

Três setores explicam grande parte dessa dependência
Segundo a OCDE, em 2019 três aplicações respondiam juntas por mais de 60% do plástico usado no mundo: embalagens, com cerca de 31%; construção, com 17%; e transportes, com 12%. Somam-se ainda produtos de consumo, tecidos, equipamentos eletrônicos, máquinas e pneus.
O plástico virou parte da infraestrutura física da economia moderna, e há uma diferença ambiental importante entre esses usos. Um tubo de PVC instalado num prédio pode durar décadas. Uma embalagem usada para transportar um alimento pode cumprir sua função em poucos minutos.
Esse segundo grupo é particularmente importante. Quase dois terços dos resíduos plásticos gerados no mundo vêm de aplicações com vida útil inferior a cinco anos. Só as embalagens respondiam por cerca de 40% dos resíduos plásticos globais analisados pela OCDE.
Produzimos plástico novo muito mais rápido do que conseguimos circular o antigo
Aqui aparece talvez a maior contradição. Em 2019, o mundo gerou aproximadamente 353 milhões de toneladas de resíduos plásticos. Apenas 9% foram efetivamente reciclados. Cerca de 19% foram incinerados, quase metade terminou em aterros sanitários e aproximadamente 22% tiveram destinação inadequada, incluindo lixões, queima aberta ou vazamento para o ambiente.

Reciclar mais, portanto, não significou necessariamente produzir menos plástico virgem. Durante muito tempo, os dois movimentos andaram juntos: a reciclagem cresceu e a produção total também.

2024 mostra o tamanho do desafio
Das aproximadamente 430,9 milhões de toneladas de plástico produzidas no mundo em 2024, a PlasticsEurope estima 387 milhões de toneladas de origem fóssil, 40,8 milhões de toneladas de reciclagem mecânica pós-consumo, 2,6 milhões de toneladas de origem biológica ou bioatribuída e cerca de 0,4 milhão de toneladas de reciclagem química pós-consumo.

Isso significa que cerca de 89,8% da produção mundial ainda estava ligada a matérias-primas fósseis. A reciclagem mecânica pós-consumo representava aproximadamente 9,5%. O plástico circular está crescendo, mas ainda compete com uma quantidade bem maior de plástico produzido a partir de matéria-prima fóssil.
Então a sustentabilidade não funcionou?
Essa seria uma conclusão simplista. Nos últimos 30 anos houve avanços reais em coleta seletiva, reciclagem, eficiência de materiais, design de embalagens, logística reversa, legislação e desenvolvimento de materiais alternativos.
O problema é outro: a velocidade com que a economia aumenta a demanda por plástico ainda supera a velocidade com que conseguimos reduzir, reutilizar e substituir esse material.
É como tentar esvaziar uma banheira enquanto a torneira continua aberta.
Dá para aumentar a capacidade do ralo. Mas, se a quantidade de água entrando continuar crescendo, o nível não vai necessariamente diminuir.
E o futuro pode ampliar ainda mais essa contradição
A OCDE modelou o futuro do plástico considerando a manutenção das políticas atuais. Nesse cenário, o uso mundial de plástico poderia passar de aproximadamente 460 milhões de toneladas em 2019 para mais de 1,2 bilhão de toneladas por ano em 2060.

O principal fator seria de novo o crescimento econômico, especialmente em economias emergentes da Ásia e da África. Há um detalhe importante: mesmo nesse cenário, a participação do plástico reciclado aumentaria, mas o plástico primário continuaria dominante.
Ou seja: dá para reciclar mais e, ainda assim, continuar produzindo mais plástico novo.
Talvez essa seja a pergunta ambiental dos próximos 30 anos
Durante décadas, boa parte da discussão ambiental sobre plástico girou em torno de uma pergunta: “como reciclar o plástico depois que ele é usado?” Os números sugerem que talvez seja necessário acrescentar outra: “quanto plástico realmente precisamos produzir?”
Porque depois de três décadas de consciência ambiental crescente, chegamos a uma situação curiosa. Nunca falamos tanto sobre reciclagem. Nunca discutimos tanto economia circular. Nunca tivemos tantas empresas com metas ambientais. E, mesmo assim, o mundo continua colocando centenas de milhões de toneladas de plástico novo na economia todos os anos.
Talvez o desafio dos próximos 30 anos não seja só descobrir o que fazer com o plástico depois que ele vira resíduo. Talvez seja descobrir como fazer a curva parar de subir.
Fontes e notas metodológicas
- OCDE, Global Plastics Outlook: Economic Drivers, Environmental Impacts and Policy Options (2022). Dados de uso global, aplicações, geração de resíduos, reciclagem e projeções até 2060.
- PlasticsEurope, Plastics: The Fast Facts 2025. Dados recentes de produção mundial em 2024 e participação de matérias-primas fósseis, recicladas e de base biológica.
- Our World in Data, Global plastics production. Série histórica de produção com base em Geyer et al. e outras compilações internacionais.
- Geyer, R.; Jambeck, J.; Law, K., Production, use, and fate of all plastics ever made. Science Advances (2017). Referência histórica amplamente usada para estimativas globais de produção e destino dos plásticos.
Nota metodológica: os valores históricos e os valores recentes não devem ser tratados como uma única série homogênea sem ressalvas, pois fontes diferentes adotam escopos e metodologias distintas. Este texto usa essas séries para mostrar a tendência de longo prazo e apresenta os dados recentes separadamente.
19 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 19, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.