Oceanos

Um dos resíduos mais comuns do planeta cabe entre dois dedos: bitucas são 12% do lixo aquático, e o Brasil tem praias entre as mais contaminadas do mundo

Revisão liderada pela Unifesp reuniu 130 estudos de 55 países: bitucas são 12% do lixo em rios, lagos e praias. O Brasil é o 4º país com praias mais contaminadas, e Boa Viagem, no Recife, tem 37 vezes a média mundial.

Gaivota com bituca de cigarro no bico
Gaivota com uma bituca de cigarro no bico. Foto: Tony Wills / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Uma bituca de cigarro parece pequena demais para ser considerada um problema ambiental. Multiplicada por bilhões, a dimensão muda completamente. Uma revisão científica liderada pela Unifesp reuniu 130 estudos de 55 países e mostrou que as bitucas representam, em média, 12% de todo o lixo encontrado em rios, lagos e praias. O Brasil aparece como o quarto país com praias mais contaminadas, e a praia de Boa Viagem, no Recife, registrou 37 vezes a média mundial.

O maior levantamento já feito sobre bitucas

O estudo foi publicado na revista Environmental Chemistry Letters e é assinado por Victor Vasques Ribeiro, Lucas Buruaem Moreira, Graziele Grilo, Gabriel Enrique De-la-Torre, Danilo Freitas Rangel e André Salem Szklo. Participaram pesquisadores da Unifesp, da Unesp, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e da Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru.

Os autores reuniram 2.723 registros de densidade de bitucas publicados entre 2013 e 2024. A média global ficou em 0,24 bituca por metro quadrado, algo como uma bituca a cada quatro metros quadrados. Em 29,5% das áreas avaliadas não havia contaminação. Nas outras, o quadro variou muito: 17 países concentraram os pontos críticos, a maior parte na Ásia e na América Latina.

Nos ambientes aquáticos, em especial nas praias, a bituca respondeu por 12% de todo o lixo, em média. Em alguns países, passou de 50%. O pior registro foi no litoral do Golfo Pérsico, no Irã, com 38,32 bitucas por metro quadrado.

O Brasil no mapa

O Brasil foi o país com mais estudos incluídos na revisão e ficou em quarto lugar entre os litorais mais contaminados, atrás de Irã, Chile e Tailândia. Pernambuco e São Paulo concentram as praias com os maiores registros:

Gráfico: densidade de bitucas em praias brasileiras comparada à média mundial
Densidade de bitucas por metro quadrado. Fonte: Ribeiro et al., Environmental Chemistry Letters (2026). Elaboração: AMB4
PraiaBitucas por m²
Boa Viagem (Recife, PE)8,85
Perequê (Guarujá, SP)2,64
Porto de Galinhas (Ipojuca, PE)1,57
Santa Cruz dos Navegantes (Guarujá, SP)1,04
Média mundial0,24

Boa Viagem, com 8,85 bitucas por metro quadrado, tem quase 37 vezes a média mundial.

Praia de Boa Viagem, no Recife
Praia de Boa Viagem, no Recife (PE). Foto: CivArmy / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O filtro não é algodão

O problema vai além da estética. O filtro do cigarro é feito de acetato de celulose, um material plástico que se fragmenta e vira microplástico. Além disso, a bituca carrega resíduos da queima: o cigarro tem mais de 7 mil substâncias químicas, pelo menos 150 delas tóxicas. Em contato com a água, a bituca libera nicotina, metais pesados, compostos fenólicos e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). O autor principal, Victor Vasques Ribeiro, descreve a bituca como uma “bomba química” quando chega à água.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 4,5 trilhões de filtros de cigarro poluem oceanos, rios, calçadas, parques e praias todos os anos. A OMS classifica os produtos de tabaco como o item mais descartado de forma irregular no planeta. E a conta da limpeza fica com o poder público: no Brasil, a OMS estimou em 2022 um custo anual acima de US$ 200 milhões.

Bitucas de cigarro descartadas no chão
Bitucas de cigarro descartadas no chão. Foto: Brian Parker / Wikimedia Commons, domínio público

Onde tem regra, tem menos bituca

A revisão encontrou uma diferença grande entre áreas protegidas e não protegidas. Fora das unidades de conservação, a média foi de 0,29 bituca por metro quadrado. Dentro delas, 0,06: quase cinco vezes menos. Nas áreas de proteção integral, onde a retirada de recursos é proibida, a redução chegou a quase dez vezes.

Proibir o fumo na areia também funciona, principalmente quando há multa. Os autores citam resultados na Malásia, na Espanha, no México e na Itália.

Outro caminho é cobrar do fabricante. Na União Europeia, a Diretiva (UE) 2019/904, sobre plásticos de uso único, obriga os países a criar sistemas de responsabilidade alargada do produtor para produtos do tabaco com filtro (art. 8º), incluindo o custo de limpeza do lixo, e exige aviso na embalagem de que o filtro contém plástico (art. 7º). França e Espanha já aplicam esse modelo.

Voluntário contando bitucas recolhidas em mutirão de limpeza
Voluntário conta bitucas recolhidas em mutirão de limpeza. Foto: NOAA Marine Debris Program / Wikimedia Commons, domínio público

E aqui?

No Brasil, a bituca não está entre os produtos com logística reversa obrigatória listados no art. 33 da Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que inclui agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas e eletroeletrônicos. Ou seja, não há obrigação legal de o fabricante recolher ou pagar pela limpeza desse resíduo.

As iniciativas aparecem no nível municipal. Em Santos, um projeto de lei complementar apresentado em junho de 2026 quer proibir o fumo em toda a faixa de areia, com multa a ser regulamentada pela prefeitura. Na capital paulista e em outras cidades, projetos que multam quem joga bituca na rua vêm e vão nas câmaras municipais.

Ribeiro resume o ponto central do estudo: reduzir o consumo de tabaco traz um benefício duplo, para a saúde e para o ambiente.

Em números

IndicadorValor
Estudos analisados130, em 55 países (2013 a 2024)
Registros de densidade2.723
Média global0,24 bituca por m²
Participação no lixo aquático12% em média; acima de 50% em alguns países
Posição do Brasil4º litoral mais contaminado
Pior praia brasileiraBoa Viagem (Recife), 8,85 por m²
Áreas protegidas x não protegidas0,06 x 0,29 por m²
Filtros descartados por ano no mundo (OMS)cerca de 4,5 trilhões

Talvez a bituca seja um dos exemplos mais claros de um problema ambiental baseado em escala. Um único objeto parece irrelevante. Milhões deles deixam de ser. E bilhões transformam um gesto de poucos segundos em uma contaminação que permanece no ambiente por muito mais tempo.


Fontes:

25 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 25, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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