Agro e solo

Pimentão macho e fêmea existe? A ciência por trás do mito dos 3 e 4 gomos

Por Redação AMB4 6 min
Pimentão macho e fêmea: dois pimentões vermelhos, um com quatro gomos e outro com três

Você provavelmente já viu essa explicação nas redes sociais: pimentão com três gomos é macho, pimentão com quatro gomos é fêmea, e o de quatro gomos seria mais doce e teria mais sementes. A história é simples, fácil de lembrar e foi repetida durante anos em vídeos, receitas e publicações sobre alimentação.

O problema é que, do ponto de vista botânico, ela não existe. Serviços de extensão de universidades americanas já analisaram essa afirmação especificamente, e pesquisas sobre a genética do pimentão ajudam a explicar por que alguns frutos têm três, quatro ou até cinco divisões.

Pimentão não é macho nem fêmea

O pimentão que compramos no mercado é o fruto da planta Capsicum annuum. Ele se desenvolve a partir do ovário da flor depois da polinização. Classificar o fruto em si como macho ou fêmea, portanto, não faz sentido.

A Iowa State University Extension, em uma publicação dedicada aos mitos sobre pimentões, afirma que não existe pimentão macho ou fêmea determinado pelo número de gomos. Segundo a universidade, a quantidade dessas divisões está ligada principalmente às características da variedade e às condições de cultivo. A Cornell University também incluiu a história na sua lista de mitos, lendas e mentiras sobre hortaliças.

De onde vêm os 3 e 4 gomos?

O que chamamos popularmente de gomos corresponde, por fora, à organização interna do fruto em compartimentos chamados lóculos. E a quantidade de lóculos realmente varia: há pimentões com 3, 4, 5 e, ocasionalmente, outras configurações.

Corte esquemático de pimentões com 3, 4 e 5 lóculos
Os gomos visíveis por fora correspondem aos lóculos, os compartimentos internos do fruto.

A University of Georgia explica que, mesmo dentro de uma mesma variedade de pimentão, existe uma distribuição natural de frutos com três, quatro e cinco lóculos. Ou seja: a mesma planta, da mesma variedade, pode produzir frutos com formatos diferentes.

A instituição observa ainda que frutos com quatro lóculos e aparência mais quadrada costumam ser mais valorizados comercialmente, por terem um formato considerado mais desejável para determinados mercados. Isso não tem nenhuma relação com sexo do fruto.

A ciência encontrou genes ligados ao número de lóculos

Pesquisadores estudam de fato por que alguns pimentões desenvolvem mais lóculos que outros. Um trabalho publicado em 2022 na revista científica Horticulturae, conduzido por pesquisadores da Northwest A&F University, na China, investigou regiões genéticas relacionadas a diversas características do fruto do pimentão, entre elas o número de lóculos.

Os pesquisadores identificaram uma região genética chamada lcn1.1, associada ao número de divisões, e apontaram um gene candidato denominado CaBRX. Quando a atividade desse gene foi reduzida experimentalmente, o número de lóculos dos frutos também diminuiu.

Existe, portanto, uma base genética real por trás da quantidade de divisões do pimentão. A internet atribuiu os três ou quatro gomos ao sexo do fruto, enquanto a explicação está na genética vegetal, no desenvolvimento da flor e nas condições ambientais.

Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports, que acompanhou características morfológicas de Capsicum annuum durante três anos, reforça esse quadro: os pesquisadores encontraram ampla diversidade de tamanho, formato, espessura da parede e número de lóculos. Nos pimentões do tipo bell pepper, os grandes e doces que encontramos no mercado, o número de lóculos variou de forma considerável entre os materiais genéticos avaliados.

O de quatro gomos é mais doce?

Também não. A Oregon State University investigou essa afirmação e classificou como ficção a ideia de que pimentões com quatro ou cinco lóculos seriam mais doces ou melhores para consumo cru. O sabor depende principalmente da genética da variedade e do estágio de maturação do fruto. A Iowa State University chega à mesma conclusão: o número de lóculos não determina o sabor. Um pimentão de três gomos pode ser mais doce que outro de quatro.

O fator que realmente pesa é a maturação. Muitos pimentões verdes são simplesmente frutos colhidos antes de completar o amadurecimento. Conforme amadurecem, dependendo da variedade, ficam vermelhos, amarelos, laranjas ou roxos, e o perfil químico do fruto muda junto. Por isso, de forma geral, os pimentões maduros coloridos são mais doces que os verdes.

E tem mais sementes?

Não existe regra desse tipo. A quantidade de sementes depende da variedade e de quantos óvulos da flor foram efetivamente fecundados na polinização. Dois pimentões aparentemente iguais podem ter quantidades bem diferentes de sementes.

A diferença real é o formato

Existe uma diferença prática, mas ela é morfológica e comercial. Pimentões com quatro lóculos costumam ter formato mais quadrado e uniforme, o que ajuda a rechear, cortar em pedaços regulares, embalar e vender. A Oregon State University observa que cozinheiros frequentemente preferem frutos com quatro lóculos e paredes grossas para preparações como pimentão recheado.

Isso é consequência do formato físico, não de sexo, doçura ou qualquer diferença fundamental entre os frutos.

Um mito que esconde uma ciência mais interessante

3 gomos = macho. 4 gomos = fêmea.

A resposta da internet cabe em uma linha. A resposta científica é bem mais rica: o número de lóculos de um pimentão está relacionado à genética da planta, à expressão de genes envolvidos no desenvolvimento do fruto, à variedade cultivada, à polinização e às condições ambientais durante o crescimento. E os pesquisadores continuam estudando essas características porque formato, tamanho, espessura e número de lóculos têm importância agrícola e comercial.

Da próxima vez que encontrar dois pimentões no mercado, um com três e outro com quatro gomos, vale olhar para eles de outro jeito. Não são macho e fêmea. São duas expressões diferentes de uma característica biológica que a ciência ainda estuda em detalhes.

Conteúdo informativo, não substitui consultoria técnica específica.

22 de setembro de 2026

Fontes

Conteúdo informativo, publicado em setembro 22, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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