O agrotóxico que não aparece nas estatísticas: por dentro do contrabando que abastece 1 em cada 4 lavouras
Na matéria anterior desta série, mostramos de onde vem o agrotóxico que o Brasil importa de forma legal e registrada. Só que existe um outro agrotóxico, que não passa por nenhuma estatística oficial de comércio exterior, entra escondido, sem registro, sem controle de qualidade, e segundo estimativas do setor, responde por 1 em cada 4 produtos aplicados na lavoura brasileira.

Na matéria anterior desta série, mostramos de onde vem o agrotóxico que o Brasil importa de forma legal e registrada. Só que existe um outro agrotóxico, que não passa por nenhuma estatística oficial de comércio exterior, entra escondido, sem registro, sem controle de qualidade, e segundo estimativas do setor, responde por 1 em cada 4 produtos aplicados na lavoura brasileira.
O caminho é sempre parecido: o produto entra de forma legal no Paraguai, onde a regulação de agrotóxico é mais permissiva e o preço é mais baixo, e depois cruza a fronteira com o Brasil de forma irregular, seja pela fronteira seca, seja pelo rio Paraná. Em muitos casos o produto nem é ilegal no Paraguai, só se torna ilegal quando entra em território brasileiro sem passar pela Receita Federal e sem registro no Ministério da Agricultura (Mapa).
O tamanho do problema: apreensão dispara em 2026
Levantamos os números de apreensão de agrotóxico contrabandeado feitos por Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e forças estaduais. Em 2025, o total apreendido no ano inteiro chegou a 78.186 toneladas. Só nos quatro primeiros meses de 2026, esse número já passou de 42.000 toneladas, mais da metade de tudo que foi apreendido no ano anterior inteiro.

O salto não significa necessariamente que o contrabando cresceu na mesma proporção, pode refletir também um esforço maior de fiscalização. De qualquer forma, o volume apreendido é só a ponta do que circula: por definição, apreensão mede o que foi pego, não o que passou.
Quanto disso vira mercado: 1 em cada 4 produtos vendidos
Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), o mercado ilegal de agrotóxico (somando contrabando, falsificação e roubo) responde por cerca de 25% de tudo que é vendido no Brasil, movimentando mais de R$ 15 bilhões por ano. Ou seja, a cada quatro litros ou quilos de agrotóxico aplicados numa lavoura brasileira, um não passou por nenhum controle sanitário, ambiental ou fiscal.

Contrabando, falsificação ou roubo: como o crime se divide
Dentro desse mercado ilegal, a maior fatia não é falsificação, é contrabando puro: produto trazido de fora pronto pra uso, sem nenhuma alteração, correspondendo a cerca de 67% do total. A falsificação e o desvio de finalidade (quando o rótulo é trocado ou o produto é adulterado e revendido como se fosse outra coisa) ficam com cerca de 30%. O roubo de carga é a fatia menor, mas é a que mais cresce nos últimos anos, segundo o setor.

Na prática, o contrabando costuma seguir algumas rotas bem conhecidas: a Tríplice Fronteira (Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú), o rio Paraná, e rodovias como a BR-163, a BR-277 e a BR-369, que escoam a carga até centros de distribuição em cidades como Cascavel, Dourados e Presidente Prudente. De lá, parte do produto ainda passa por laboratórios clandestinos de reenvase, identificados em municípios paulistas como Franca, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, onde é reembalado com rótulo de marca legítima antes de chegar ao produtor final, muitas vezes sem que ele saiba que está comprando um produto adulterado.
O risco não fica só no bolso de quem é enganado
Produto contrabandeado não passa pelo registro sanitário do Mapa, da Anvisa ou do Ibama, o que significa zero controle sobre composição, dose ou validade. É comum encontrar entre os produtos apreendidos princípios ativos organoclorados já banidos no Brasil há décadas por seus efeitos como disruptores endócrinos, além de produtos vencidos ou fabricados sem nenhum padrão de qualidade.

Um exemplo concreto desse risco aparece no Pantanal, onde casos de envenenamento de onças-pintadas já foram associados ao uso ilegal de carbofuran, um agrotóxico de uso restrito no Brasil, aplicado de forma criminosa em carcaças de gado pra matar predadores. O mesmo tipo de produto sem procedência que contamina o solo e a água também entra na cadeia alimentar de quem consome os alimentos produzidos com ele.
O que está sendo feito
A fiscalização reagiu ao crescimento do problema em 2026. Em abril, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 240 kg de agrotóxico contrabandeado em Uberlândia (MG). Em setembro, uma ação conjunta da Polícia Federal com a Polícia Militar do Paraná apreendeu 337,5 kg em Guaíra (PR), cidade da fronteira com o Paraguai. Em operações mais amplas ao longo do ano, Mapa, Ibama e PRF já retiraram de circulação cerca de 150 toneladas de produtos irregulares só no estado de São Paulo.

No Congresso, o Projeto de Lei 9.271/17 tramita com o objetivo de endurecer as penas para quem contrabandeia, falsifica ou revende agrotóxico irregular, hoje tratado, na prática, com penas mais brandas do que outros tipos de contrabando. Enquanto o projeto não avança, a fiscalização segue dependendo de operações pontuais nas rotas de fronteira, sem dar conta de um mercado estimado em R$ 15 bilhões por ano.
Fontes e notas metodológicas
- Volume de agrotóxico contrabandeado apreendido em 2025 (ano completo) e jan-abr de 2026: apreensões de Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e forças estaduais, compiladas por imprensa especializada.
- Participação do mercado ilegal no total vendido no Brasil (25%, R$ 15+ bilhões/ano) e composição por tipo de crime (contrabando, falsificação, roubo): Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), citado em reportagens de 2025-2026.
- Rotas de entrada e centros de reenvase clandestino: reportagens de investigação sobre o mercado ilegal de agrotóxico na fronteira Brasil-Paraguai e no interior de São Paulo.
- Caso de envenenamento de onças-pintadas por carbofuran no Pantanal: reportagens sobre conservação de fauna na região.
- Operações de 2026 (PRF em Uberlândia/MG, PF e PM/PR em Guaíra/PR, Mapa/Ibama/PRF em São Paulo): boletins oficiais e cobertura de imprensa.
- PL 9.271/17: tramitação no Congresso Nacional.
Nota metodológica: os percentuais de composição do mercado ilegal (contrabando, falsificação, roubo) são estimativas do setor, não há levantamento oficial e público com a mesma metodologia todos os anos, então os números devem ser lidos como ordem de grandeza, não como medição exata.
19 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 19, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.