Políticas públicas

Privatização resolve o saneamento do Brasil? Os números da Sabesp dizem uma coisa. O resto do país diz outra.

Por Leonardo Hidalgo Dias 13 set 202610 min
Privatização resolve o saneamento do Brasil? Os números da Sabesp dizem uma coisa. O resto do país diz outra.

Linha fina: Um ano depois da privatização da Sabesp, o investimento em saneamento em São Paulo mais que dobrou e as obras nas ruas ficaram visíveis. Só que, olhando o Brasil inteiro e 35 anos de série histórica, os dados mostram que o problema do país não é público contra privado. É que existe uma região inteira, a Amazônia, que nenhum dos dois modelos está conseguindo atender.

Categoria: Infraestrutura › Saneamento Básico · Dimensão: Sociedade e Economia · Manchete: sim
Tags: saneamento básico, Sabesp, privatização, Marco Legal do Saneamento, Amazônia, IPEA


Por AMB4

Placa de obra do Governo do Estado de São Paulo com a Sabesp, mostrando valor investido
Placa de obra de saneamento em São Paulo, parceria entre Governo do Estado e Sabesp. Foto: Wikimedia Commons/Elaste2000, licença CC BY-SA 3.0.

Quem mora no estado de São Paulo talvez tenha notado: de um ano pra cá, aumentou muito a quantidade de rua aberta, caminhão parado e placa de obra de saneamento. Não é impressão. Levantamos os números oficiais e cruzamos com 35 anos de dados históricos de acesso a água e esgoto no Brasil, com a comparação internacional e com o principal estudo acadêmico sobre privatização do setor no país. O resultado não cabe em “privatizar resolve” nem em “privatizar não resolve”. Cabe em uma pergunta mais específica: resolve pra quem, e onde.

O que mudou em São Paulo depois da Sabesp virar privada

Em julho de 2024, o governo de São Paulo vendeu o controle da Sabesp para a Equatorial Energia, num leilão de R$ 14,8 bilhões, a maior oferta do setor de saneamento já registrada no país. Em 2024, ainda sob controle estatal, a companhia investiu R$ 6,9 bilhões. Em 2025, já sob nova gestão, esse número saltou para R$ 15,2 bilhões, um aumento de 120% em um único ano.

Em investimento por habitante, a Sabesp chegou a R$ 369 por pessoa, quase o triplo da média nacional do setor em 2024 (R$ 171 por pessoa). A meta de universalização (100% de água e esgoto) para os 376 municípios atendidos, que era 2033 pela lei federal, foi antecipada para 2029. A companhia também mantém a Tarifa Social Paulista, com desconto de até 78% na conta de água para famílias de baixa renda, hoje cerca de 6 milhões de pessoas.

Isso explica a rua aberta. O que não explica, sozinho, é o resto do país.

35 anos de saneamento no Brasil: um avanço lento e desigual

Olhando a série histórica de acesso a rede de esgoto no Brasil, o quadro é de avanço real, mas devagar demais:

Ano Acesso a esgoto (rede geral)
1970 24% (só população urbana)
1990 42% (urbana)
2000 73% (urbana)
2010 52,8% (nacional, urbano + rural)
2022 62,5% (nacional)

(a queda aparente entre 2000 e 2010 reflete mudança de metodologia do Censo, que passou a considerar também a população rural, historicamente muito pior atendida)

Em 12 anos, entre os censos de 2010 e 2022, o Brasil avançou apenas 9,7 pontos percentuais em rede de esgoto. Hoje, segundo o Censo 2022 do IBGE, 62,5% dos domicílios têm acesso à rede geral, o que ainda deixa mais de 37% da população, cerca de 80 milhões de pessoas, fora dela. Do esgoto que é de fato gerado no país, apenas 52,2% recebe algum tratamento antes de voltar para rios e mares.

Para efeito de comparação internacional: a Índia, que no início dos anos 2000 tinha cobertura de esgoto pior que a do Brasil, ultrapassou os 70% de acesso depois de duas décadas de investimento pesado e contínuo no setor. O Iraque, um país que viveu anos de guerra e reconstrução, hoje tem proporção de acesso a esgoto tratado maior que a brasileira. O Brasil não está no fundo do ranking mundial, mas está atrás de países que tiveram menos tempo de estabilidade institucional para resolver o problema.

Estação de Tratamento de Esgoto da Sabesp em São Miguel Paulista, com bairro ao fundo
Estação de Tratamento de Esgoto da Sabesp em São Miguel Paulista (SP). Foto: Wikimedia Commons/CORRETOR-CARVALHO, licença CC BY-SA 3.0.

Onde o dinheiro não chega, mesmo quando existe

O Brasil investiu R$ 29,1 bilhões em saneamento em 2024, quase o dobro dos R$ 15 bilhões de 2019. O problema é que R$ 225 por habitante ao ano seriam necessários para cumprir a meta de universalização de 2033 (Marco Legal do Saneamento, Lei 14.026/2020), e a média nacional efetiva foi de R$ 137 por habitante, 39% abaixo do necessário.

Esse investimento também não se distribui de forma parecida com o tamanho do problema:

Região Investimento per capita (2024) Cobertura de rede de esgoto
Sudeste R$ 173,85 80,9%
Sul R$ 170,40 49,7%
Centro-Oeste R$ 135,84 62,3%
Nordeste R$ 86,80 31,4%
Norte R$ 61,30 14,7%

O Norte investe menos da metade da média nacional por pessoa e tem a pior cobertura de esgoto do país, pior até que o Nordeste, que é a região de menor PIB per capita do Brasil (R$ 27.682 em 2023, contra R$ 36.679 do Norte e R$ 53.887 da média nacional, segundo o IBGE). Se o problema fosse só renda regional, o Nordeste deveria estar em situação pior que o Norte. Não é isso o que os dados mostram.

Por que a Amazônia fica de fora, seja o operador público ou privado

Casas ribeirinhas sobre o rio em Manaus, Amazonas
Casas ribeirinhas em Manaus (AM). Foto: Wikimedia Commons/Henrique Pina, licença CC BY 4.0.

A explicação mais provável não é falta de vontade política, é o modelo de negócio do setor. Saneamento no Brasil se financia majoritariamente por tarifa: quem usa, paga a expansão da rede. Isso funciona em área densa, com renda per capita razoável e custo de obra baixo por pessoa atendida, o caso de São Paulo, e explica por que a Sabesp conseguiu triplicar investimento tão rápido: existe demanda solvável para sustentar a dívida do investimento.

Na Amazônia, essa conta não fecha do mesmo jeito. A população é dispersa ao longo de rios, o que multiplica o custo de obra por domicílio atendido, e a renda é mais baixa. Um levantamento setorial mostra que, na região Norte, apenas 25% da população tem coleta de esgoto, e mesmo onde a rede chega, a ligação depende da capacidade de pagar a taxa: cerca de metade das famílias que ganham até um quarto do salário mínimo não está ligada à rede, contra apenas 10% entre quem ganha acima de cinco salários mínimos. Isso vale tanto para operador estatal quanto para concessão privada: nenhum dos dois modelos, do jeito como está desenhado hoje, resolve uma conta que não fecha financeiramente sozinha.

O que os dados (não a opinião) dizem sobre privatizar saneamento

Um estudo do Ipea sobre privatização e equidade no acesso a saneamento no Brasil, hoje a referência acadêmica mais citada sobre o tema, chegou a um resultado que não bate com nenhum dos dois discursos prontos. A privatização de concessões municipais esteve associada a um aumento médio de 6,1 pontos percentuais no acesso a esgoto, e esse ganho foi maior justamente nos municípios que partiam da pior situação, com menos de 25% de cobertura inicial, que tiveram avanço de mais de 10 pontos percentuais. Ou seja, a privatização, em média, reduziu a desigualdade entre municípios.

Dentro de um mesmo município, porém, o efeito foi o oposto: bairros de renda mais alta se beneficiaram um pouco mais rápido que bairros de renda mais baixa dentro da mesma cidade. E o acesso à água tratada, ao contrário do esgoto, não teve o mesmo salto com a privatização, o estudo sugere que operadores públicos historicamente priorizaram água (mais visível e mais rápida de entregar, com retorno eleitoral maior) em detrimento de esgoto.

Do outro lado, existem operadoras públicas com resultado igual ou melhor que o de qualquer privada do país: Maringá (PR) tem 99,7% de cobertura de água e 98,5% de esgoto tratado, Ribeirão Preto (SP) e Piracicaba (SP) chegam a 100% de cobertura de água e esgoto tratado, respectivamente, todas sob gestão pública municipal. A Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), que defende esse modelo, usa esses casos para argumentar que o problema nunca foi ser público ou privado, foi investimento e gestão, dois fatores que também explicam por que companhias estatais mal geridas e mal financiadas atrasaram o país por décadas.

O que fica, sem escolher lado

Os dados permitem três conclusões que não dependem de qual lado do debate público-privado alguém já escolheu antes de ler:

A primeira é que investimento resolve, na medida certa: quando o dinheiro por habitante triplica, como em São Paulo, a obra aparece na rua em menos de um ano. A segunda é que privatização, em média, tende a ajudar mais quem estava pior, mas não é bala de prata nem garantia automática, existem estatais com desempenho melhor que qualquer concessão privada do país. A terceira, e talvez a mais importante para outubro: nenhum dos dois modelos, hoje, tem resposta pronta para a Amazônia, porque o problema ali não é ideológico, é que o modelo de negócio do setor inteiro, seja com CNPJ público ou privado, foi desenhado para lugar denso e com gente pagando conta.

Antes de perguntar a um candidato se ele é a favor ou contra privatizar saneamento, talvez valha perguntar outra coisa: o que ele propõe para a Amazônia, onde nem a tarifa do usuário nem o discurso ideológico resolvem sozinhos.

Em números

Acesso a rede de esgoto no Brasil (Censo 2022) 62,5% da população
Avanço em rede de esgoto, 2010-2022 +9,7 pontos percentuais
Esgoto gerado no país que recebe tratamento 52,2%
Investimento nacional em saneamento (2024) R$ 29,1 bilhões
Investimento per capita necessário para universalização (2033) R$ 225/ano
Investimento per capita efetivo (2024) R$ 137/ano (-39%)
Investimento per capita no Norte R$ 61,30 (a menor do país)
Cobertura de esgoto no Norte 14,7% (a menor do país)
Investimento da Sabesp em 2024 (estatal) R$ 6,9 bilhões
Investimento da Sabesp em 2025 (privada) R$ 15,2 bilhões (+120%)
Ganho médio de acesso a esgoto com privatização (Ipea) +6,1 pontos percentuais
Ganho em municípios com pior cobertura inicial +10 pontos percentuais

Fontes:


AMB4 é o portal de notícias, legislação e projetos ambientais. Esta reportagem foi feita a partir de dados públicos do IBGE, Ipea, Instituto Trata Brasil e fontes oficiais listadas acima.

13 de setembro de 2026

Saiba mais: este artigo faz parte do nosso guia de referência sobre resíduos e saneamento.

Conteúdo informativo, publicado em setembro 13, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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