Oceanos

Uma alga de um micrômetro parou a água de Israel: cinco das seis dessalinizadoras saíram do ar

Floração de cianobactérias vinda do delta do Nilo turvou o Mediterrâneo e derrubou, em poucos dias, as usinas que fornecem até 80% da água potável de Israel. O país recorreu a poços, ao Mar da Galileia e a cortes na agricultura. O episódio expõe o risco de depender de uma única tecnologia e reacende o debate sobre o esgoto sem tratamento de Gaza.

Por Leonardo Hidalgo Dias 12 set 20265 min
Microalgas em primeiro plano e usina de dessalinização na costa de Israel com bandeira do país

No fim de agosto, o mar em frente a Ashkelon e Ashdod, no sul de Israel, mudou de cor. Uma mancha esverdeada, visível em imagens de satélite, avançava pela costa. Em 1º de setembro, cinco das seis grandes usinas de dessalinização do país (Ashkelon, Ashdod, Palmachim, Sorek A e Sorek B) estavam desligadas. Só Hadera, ao norte de Tel Aviv, seguia operando em capacidade plena.

O motivo é microscópico. Trata-se de uma floração de cianobactérias do gênero Synechococcus, organismos de cerca de 1 micrômetro, pequenos o bastante para atravessar os filtros de pré-tratamento e chegar às membranas de osmose reversa. Quando a turbidez da água captada passou de 5 NTU (unidades nefelométricas de turbidez), as usinas pararam para não danificar membranas projetadas para durar cerca de sete anos.

Alon Zask, diretor-geral do Instituto de Pesquisa Oceanográfica e Limnológica de Israel, classificou o episódio como “um evento sem precedentes”.

De onde veio a alga

A hipótese mais aceita é que a floração se formou no delta do Nilo, no Egito, e foi empurrada pelas correntes ao longo da costa do Sinai e de Gaza até Israel. Uma análise de imagens do satélite Sentinel-2 feita pela plataforma de verificação Misbar mostra a mancha escura aparecendo em 6 de julho em frente a Port Said, ficando mais intensa em meados de julho, chegando a Al-Arish no fim do mês, ao sul de Gaza em 24 de agosto e a Ashkelon e Ashdod em 1º de setembro. Os próprios autores ressalvam que imagem em cor natural não identifica a espécie nem prova que se trata da mesma massa de água.

Água quente, sol forte e oferta de nutrientes (fósforo e nitrogênio) são os ingredientes clássicos de uma floração. É aí que entra a disputa sobre Gaza. Com o sistema de saneamento destruído pela guerra, estima-se que cerca de 40 mil metros cúbicos de esgoto sem tratamento cheguem ao mar por dia. Avner Gross, chefe do laboratório de mudanças climáticas da Universidade Ben-Gurion, disse não ter “outra explicação além de uma fonte de poluição no sul da Faixa de Gaza”. Já a ecóloga marinha Tamar Guy-Haim, do instituto oceanográfico nacional, avalia que a probabilidade de o esgoto de Gaza ter sido o principal motor da floração é “relativamente baixa”, apontando o delta do Nilo, a temperatura do mar e tempestades recentes como fatores mais relevantes. Gidon Bromberg, da EcoPeace Middle East, chamou o caso de “um alerta absoluto para a reconstrução da infraestrutura de saneamento em Gaza”.

O que o país fez para não faltar água

Israel produzia 432 milhões de galões de água dessalinizada por dia em 2022 (cerca de 1,6 milhão de m³) e depende dessa fonte para até 80% da água potável. Com cinco usinas fora, a Autoridade de Águas e a Mekorot, empresa nacional de abastecimento, acionaram o sistema natural: poços, reservatórios centrais e bombeamento do Mar da Galileia. O sistema operou a cerca de 90% da capacidade de verão e 99% das residências não sentiram falta.

Quem sentiu foi o campo. O fornecimento aos agricultores do Negev foi interrompido por cerca de dois dias. Shai Swissa, produtora em Kadesh Barnea, relatou 27 horas sem água e a necessidade de levar água em sacos para os trabalhadores. Prefeituras receberam ordem para reduzir irrigação de parques e o consumo público.

No mar, a Autoridade de Águas testou uma medida controversa: aviões dispersaram sulfato de cobre pentahidratado ao longo de cerca de 9 km em frente a Ashkelon para tentar conter a floração. Pesquisadores estudam ainda um tratamento que faça as células se aglutinarem em partículas maiores, retidas pelos filtros.

Em 10 de setembro, todas as usinas haviam voltado a operar, a maioria em capacidade parcial. Palmachim, por exemplo, produzia entre 120 mil e 150 mil m³ por dia, contra 300 mil em condições normais.

A conta que vem depois

O governo já fala em dezenas de milhões de shekels para reparar membranas, formar estoque reserva e estender as tubulações de captação para mais longe da costa, onde a água é mais limpa. Danny Sofor, presidente interino da Mekorot, resumiu o problema: “No verão, ainda não sabemos como superar isso.”

A frase é o centro do debate que se abriu em Israel. O país é referência mundial em dessalinização e construiu, em duas décadas, um sistema que praticamente eliminou a dependência da chuva. O episódio mostrou o outro lado: seis usinas na mesma costa, expostas ao mesmo mar, podem sair do ar ao mesmo tempo por um evento que ninguém previu. Especialistas pedem um novo plano diretor de água que diversifique fontes e reforce o sistema natural como reserva estratégica. Uma sétima usina está prevista para 2027.

Por que isso interessa ao Brasil

O Brasil discute dessalinização em escala para o Nordeste, e o Ceará tem uma usina em projeto para Fortaleza. O caso israelense traz três lições diretas: a captação no mar precisa de monitoramento contínuo de turbidez e de plano de contingência para florações; a redundância entre fontes (água superficial, subterrânea e dessalinizada) vale mais do que a eficiência de uma só; e saneamento é infraestrutura de segurança hídrica, não só de saúde pública. Esgoto sem tratamento lançado no mar volta como custo, seja em Gaza, seja na costa brasileira, onde florações de cianobactérias em reservatórios e estuários já são rotina em vários estados.

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Conteúdo informativo, publicado em setembro 12, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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