Licenciamento

Quão transparentes são os órgãos ambientais do Brasil?

Levantamento do AMB4 aplicou 25 critérios aos 27 estados: São Paulo alcançou 96%, o Amapá 36% e a média nacional foi de 64,6%. Os maiores gargalos estão em áreas contaminadas, pareceres, multas e embargos.

Por Redação AMB4 12 min AmbienteSociedade
Mapa do Índice AMB4 de Transparência Ambiental Estadual 2026

Um levantamento do AMB4 aplicou os mesmos 25 critérios objetivos aos 26 estados e ao Distrito Federal para medir o quanto a atuação dos órgãos ambientais pode ser acompanhada pelo cidadão. São Paulo alcançou 96% e o Amapá, 36%. A média nacional foi de 64,6%, e o maior gargalo não está no acesso inicial aos portais, mas na divulgação de áreas contaminadas, pareceres técnicos, multas, embargos e documentação de dados.

A pergunta parecia simples

Licenças ambientais, pareceres técnicos, autos de infração, multas, embargos e áreas contaminadas fazem parte da rotina dos órgãos ambientais. Boa parte dessas informações interessa diretamente à sociedade: permite acompanhar empreendimentos, entender decisões administrativas, identificar passivos ambientais e verificar como o poder público fiscaliza atividades com potencial de impacto.

Quando o AMB4 começou a levantar quantas licenças ambientais cada órgão estadual emitia, surgiu uma segunda pergunta: além de produzir a informação, os estados conseguem torná-la localizável, consultável e reutilizável?

Para responder, o AMB4 aplicou a mesma metodologia às 27 unidades da Federação. Foram 25 perguntas binárias, num total de 675 verificações. Cada critério atendido recebeu quatro pontos; cada informação não localizada dentro do padrão definido recebeu zero. O máximo é 100 pontos, e o total obtido corresponde diretamente ao percentual do Índice AMB4.

Infográfico do Índice AMB4 de Transparência Ambiental Estadual 2026 com ranking dos 27 estados
Índice AMB4 de Transparência Ambiental Estadual 2026. Infográfico: AMB4

A primeira conclusão é que transparência ambiental não se resume a ter um portal. Todos os 27 entes analisados apresentaram algum sistema ou página oficial de consulta. A diferença aparece quando a busca se aprofunda: é possível abrir a licença? Consultar o parecer? Pesquisar a multa? Localizar um embargo? Descobrir onde estão as áreas contaminadas? Baixar os dados em formato reutilizável?

Resultado geral: média nacional de 64,6%

São Paulo ficou na primeira posição, com 96%, seguido pelo Rio de Janeiro, com 92%, e pelo Distrito Federal, com 88%. Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais empataram em quarto, com 84%. Na outra ponta ficaram Roraima e Tocantins, ambos com 40%, e o Amapá, com 36%.

Como ler a nota. Um estado com 84% não é “84% transparente em tudo”. Significa que obteve 84 dos 100 pontos possíveis dentro dos 25 critérios do Índice AMB4. O índice não mede qualidade técnica do licenciamento, rigor regulatório, velocidade de análise nem desempenho ambiental.

Os seis eixos mostram onde a transparência se perde

Gráfico da média nacional por eixo avaliado
Eixo avaliadoMédia nacionalLeitura
Acesso à informação88,0%Muito alto
Estatísticas74,1%Alto
Licenciamento ambiental70,8%Alto
Dados abertos60,5%Atenção
Fiscalização, multas e embargos47,2%Crítico
Áreas contaminadas14,8%Crítico

O contraste é claro: o acesso inicial aos sistemas teve média de 88,0%, enquanto o eixo de áreas contaminadas ficou em 14,8% e o de fiscalização caiu para 47,2%. O gargalo não está em encontrar o órgão, mas em acessar as informações mais sensíveis e analiticamente úteis sobre a sua atuação.

Onde os órgãos mais precisam melhorar

Os critérios abaixo concentraram o maior número de respostas “não localizado”. Funcionam como um diagnóstico prático do que ainda falta para que os sistemas estaduais sejam mais completos e auditáveis pelo cidadão.

Gráfico dos critérios com mais respostas não localizado

Duas questões se destacaram. Em 23 dos 27 estados não foi localizada, dentro do padrão pesquisado, uma relação pública de áreas contaminadas nem uma consulta com localização e classificação dessas áreas. Só São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais pontuaram nesse eixo.

Técnicos com roupa de proteção coletam amostras de solo em área contaminada
Coleta de amostras de solo em projeto de remediação de área contaminada. Foto: Richard Nyberg/USAID, via Wikimedia Commons (domínio público)

Pareceres e decisões técnicas também foram um ponto fraco: em 22 estados esse acesso não foi localizado conforme o critério definido. No eixo de fiscalização, 21 estados não permitiram consultar multas com valor e situação do processo, e 15 não ofereceram consulta de embargos, interdições ou medidas administrativas. Nem São Paulo, líder do índice, pontuou no critério das multas com valor e situação.

Agente de fiscalização ambiental em curral de área desmatada
Fiscalização ambiental em campo: autos de infração, multas e embargos estão entre as informações menos acessíveis nos sites estaduais. Foto: Nelson Feitosa/Ibama, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Por que “não localizado” não significa “não existe”

A metodologia foi deliberadamente conservadora. O AMB4 só atribuiu pontos quando encontrou evidência pública oficial durante a auditoria. Quando a informação não foi encontrada, o registro usado foi “não localizado”, e não “inexistente”. Um órgão pode ter determinado documento internamente, publicá-lo em um sistema de baixa indexação ou indicar depois uma página oficial que não foi localizada na auditoria inicial.

Essa distinção mantém o índice atualizável. A versão 1.0 é uma fotografia documental de 23 de setembro de 2026. Se um órgão apresentar um endereço oficial que atenda integralmente a um critério, a evidência pode ser revisada sem alterar a metodologia aplicada aos demais estados.

Perguntas e respostas sobre o índice

Nota baixa quer dizer que o órgão ambiental é ruim?

Não. O índice mede só o que está publicado e pode ser encontrado pelo cidadão. Ficam de fora, de propósito, a qualidade técnica do licenciamento, o rigor da análise, o prazo das licenças e o desempenho ambiental do estado. Um órgão pode trabalhar bem e mostrar pouco; é essa distância que o índice aponta.

Por que só sim ou não, sem meio-termo?

Para aplicar a mesma régua às 27 unidades da Federação e permitir que qualquer pessoa refaça o teste. São 25 critérios iguais para todos, cada um valendo 4 pontos, com o mesmo peso. Uma nota intermediária dependeria de opinião; o sim ou não depende de evidência.

Quem avaliou e com quais fontes?

A equipe do AMB4, numa auditoria documental online encerrada em 23 de setembro de 2026, usando exclusivamente páginas, sistemas e documentos oficiais. Cada um dos 675 testes tem a URL registrada na planilha técnica. O índice é uma metodologia editorial própria e não é certificação oficial da CGU, do Ministério do Meio Ambiente ou dos órgãos estaduais.

É questão de região?

Os dados não mostram isso. A mesma região tem estados no alto e no fim da lista: no Norte, o Pará ficou com 80%, o Amazonas com 64% e o Amapá com 36%. E nenhum estado gabaritou: nem São Paulo, líder com 96%, permitiu consultar multas com valor e situação do processo.

Meu estado discorda do resultado. E agora?

Basta enviar o endereço oficial que atende ao critério para contato@amb4.com.br. A revisão usa os mesmos critérios aplicados a todos os estados. Esta é a versão 1.0, pensada para ser atualizada: se a evidência atender ao critério, a nota muda.

Ranking completo do Índice AMB4

Pos.UFEstadoÓrgão principalÍndiceNível
1SPSão PauloCETESB / SEMIL96%Muito alta
2RJRio de JaneiroINEA92%Muito alta
3DFDistrito FederalBrasília Ambiental (IBRAM)88%Muito alta
4GOGoiásSEMAD84%Muito alta
4MTMato GrossoSEMA/MT84%Muito alta
4MGMinas GeraisSEMAD/FEAM84%Muito alta
7PRParanáIAT80%Alta
7PAParáSEMAS80%Alta
7RSRio Grande do SulFEPAM80%Alta
7SCSanta CatarinaIMA/SC80%Alta
11CECearáSEMACE72%Alta
11MSMato Grosso do SulIMASUL72%Alta
13AMAmazonasIPAAM64%Alta
14ESEspírito SantoIEMA60%Atenção
14MAMaranhãoSEMA/MA60%Atenção
16ACAcreIMAC56%Atenção
16ALAlagoasIMA/AL56%Atenção
16RORondôniaSEDAM56%Atenção
16SESergipeADEMA56%Atenção
20PBParaíbaSUDEMA48%Crítica
20RNRio Grande do NorteIDEMA48%Crítica
22BABahiaINEMA44%Crítica
22PEPernambucoCPRH44%Crítica
22PIPiauíSEMARH44%Crítica
25RRRoraimaFEMARH40%Crítica
25TOTocantinsNATURATINS40%Crítica
27APAmapáSEMA/AP36%Crítica

Pontuação por eixo em cada estado

UFAcessoLicenc.Estat.Fiscal.Contam.DadosÍndice
SP100%100%100%75%100%100%96%
RJ100%88%100%75%100%100%92%
DF100%88%100%50%100%100%88%
GO100%88%100%75%0%100%84%
MT100%75%100%100%0%100%84%
MG100%75%100%75%100%67%84%
PR100%88%100%75%0%67%80%
PA100%100%75%50%0%100%80%
RS100%75%100%100%0%67%80%
SC100%75%100%100%0%67%80%
CE100%75%75%75%0%67%72%
MS100%75%75%75%0%67%72%
AM75%63%100%50%0%67%64%
ES100%75%100%0%0%33%60%
MA100%50%75%75%0%33%60%
AC75%38%75%75%0%67%56%
AL75%63%100%25%0%33%56%
RO75%63%25%75%0%67%56%
SE100%63%100%0%0%33%56%
PB75%50%75%25%0%33%48%
RN100%50%25%25%0%67%48%
BA75%75%25%0%0%33%44%
PE50%63%75%0%0%33%44%
PI75%75%25%0%0%33%44%
RR75%63%25%0%0%33%40%
TO75%75%0%0%0%33%40%
AP50%50%50%0%0%33%36%

Metodologia: os 25 critérios

Unidade de análise: o sistema estadual de transparência ambiental, tendo o órgão licenciador principal como referência. Quando uma informação ambiental é mantida por outra entidade pública estadual, ela pode ser considerada desde que esteja disponível oficialmente e atenda ao critério. Pontuação: SIM = 4 pontos; NÃO LOCALIZADO = 0 ponto; máximo de 100.

Acesso à informação

  • Q1. Existe sistema ou página oficial para consulta ambiental pública?
  • Q2. A consulta pode ser feita sem cadastro, login ou pagamento?
  • Q3. É possível pesquisar por processo, licença ou empreendimento?
  • Q4. Existem filtros por município, período e modalidade?

Licenciamento ambiental

  • Q5. O sistema identifica claramente as modalidades existentes (LP, LI, LO, LAC, licença simplificada ou única, dispensa, inexigibilidade, outorga e outras denominações do estado)?
  • Q6. Número da licença e/ou processo é informado?
  • Q7. Empreendimento, atividade e município são identificados?
  • Q8. Data de emissão, validade e situação da licença são apresentadas?
  • Q9. É possível acessar o documento da licença emitida?
  • Q10. Pareceres, decisões ou documentos técnicos podem ser consultados?
  • Q11. EIA/RIMA e outros estudos ambientais ficam disponíveis quando aplicáveis?
  • Q12. Audiências e consultas públicas possuem documentos acessíveis quando aplicáveis?

Estatísticas

  • Q13. O órgão informa quantas licenças ou documentos ambientais emitiu no último ano completo, ou oferece base completa que permita contagem reprodutível?
  • Q14. Os números podem ser separados por modalidade (LP, LI, LO, LAC etc.)?
  • Q15. Existe histórico público de pelo menos cinco anos?
  • Q16. Os dados estão sendo atualizados no ano corrente?

Fiscalização, infrações e embargos

  • Q17. Existe consulta pública de autos de infração ambiental?
  • Q18. É possível consultar multas, incluindo valor e situação do processo, quando legalmente divulgáveis?
  • Q19. É possível consultar embargos, interdições ou medidas administrativas ambientais?
  • Q20. Infrações e sanções podem ser pesquisadas por critérios como município, período, empreendimento ou processo?

Áreas contaminadas

  • Q21. O estado mantém relação pública ou sistema de consulta de áreas contaminadas?
  • Q22. A consulta informa localização/município e situação ou classificação da área contaminada?

Dados abertos

  • Q23. Os dados podem ser baixados em formato reutilizável, como CSV, XLSX, JSON, XML ou equivalente?
  • Q24. A base disponibiliza registros individuais, e não apenas números consolidados ou PDFs?
  • Q25. Existe documentação da base, metodologia, dicionário de dados, API ou mecanismo equivalente para compreender e reutilizar as informações?

Principais portas de entrada oficiais

A auditoria usou exclusivamente páginas, sistemas e documentos oficiais como evidência. A planilha técnica do levantamento registra a URL associada a cada um dos 675 testes. Abaixo, a principal porta de entrada consultada em cada unidade da Federação:

Nota editorial e possibilidade de revisão

O Índice AMB4 de Transparência Ambiental Estadual é uma metodologia editorial e documental própria. Não é uma certificação oficial da Controladoria-Geral da União, do Ministério do Meio Ambiente ou dos órgãos estaduais, e mede somente os 25 critérios definidos nesta versão.

O levantamento foi desenhado para ser auditável e atualizável. Órgãos ambientais que identifiquem fonte pública oficial capaz de alterar alguma resposta podem enviar o endereço ao AMB4 pelo e-mail contato@amb4.com.br. A revisão, quando cabível, preserva os mesmos critérios usados para todas as unidades da Federação.

Síntese. O Brasil já tem muitos portais de licenciamento. O próximo avanço de transparência está em outra camada: tornar pareceres, multas, embargos, áreas contaminadas, séries históricas e bases reutilizáveis tão acessíveis quanto a consulta inicial de uma licença.


Nota metodológica: Índice AMB4 de Transparência Ambiental Estadual, versão 1.0. Auditoria documental online encerrada em 23 de setembro de 2026. Os percentuais por eixo foram arredondados para o inteiro mais próximo.

23 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 23, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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