Biodiversidade

Sem sol, sem clorofila: a “flor do diabo” descoberta na Tailândia vive dos fungos do solo e já nasce ameaçada

Pesquisadores da Tailândia descreveram a Thismia daemona, planta que não faz fotossíntese e obtém carbono de fungos do solo. Com menos de 50 indivíduos conhecidos, ela foi avaliada de forma preliminar como criticamente em perigo. O Brasil também tem espécies do gênero.

Por Redação AMB4 4 min AmbienteFuturo
Thismia daemona, planta sem clorofila com flores pretas e laranja, no chão da floresta
Thismia daemona no chão da floresta. Foto: Seelanan et al., PhytoKeys (2026), CC BY 4.0

Quase toda criança aprende uma regra aparentemente universal sobre as plantas: elas usam luz, água e gás carbônico para fazer fotossíntese. Mas a natureza adora criar exceções. Pesquisadores da Tailândia descreveram em agosto de 2026 uma nova espécie de planta que não faz fotossíntese e vive dos fungos do solo: a Thismia daemona. Conhecida por menos de 50 indivíduos numa área minúscula, ela já foi avaliada de forma preliminar como criticamente ameaçada.

Uma planta sem clorofila

A Thismia daemona não tem clorofila funcional, como as plantas verdes comuns. Ela pertence a um grupo chamado de plantas micoheterotróficas. Em vez de produzir o próprio açúcar pela fotossíntese, obtém carbono por meio de associações com fungos subterrâneos. Esses fungos, por sua vez, participam de redes que frequentemente envolvem outras plantas da floresta.

É como se a planta tivesse abandonado os painéis solares e se conectado à rede subterrânea do ecossistema.

Por isso, ela passa a maior parte da vida escondida no solo e só aparece na superfície para florescer.

A aparência

A aparência também é incomum. A planta inteira mede cerca de 12,5 cm, incluindo a flor. As flores são quase pretas, com partes externas carnosas em laranja-avermelhado e três apêndices finos que lembram chifres, o que explica o apelido de “flor do diabo” e o nome daemona. Por dentro, a flor esconde estruturas azuladas e translúcidas, e as raízes têm forma de coral.

Interior da flor da Thismia daemona, com estruturas azuis translúcidas
Interior da flor da Thismia daemona. Foto: Seelanan et al., PhytoKeys (2026), CC BY 4.0

A descoberta

A descrição científica foi publicada em 17 de agosto de 2026 na revista PhytoKeys por Tosak Seelanan, Isareyakorn Chantapram, Neeranuch Taosiri, Chanachon Chuchuea e Sahut Chantanaorrapint, do herbário da Prince of Songkla University. O estudo combinou características morfológicas com análises moleculares de cinco marcadores genéticos.

A planta foi encontrada em maio de 2025 no Parque Nacional Thong Pha Phum, no oeste da Tailândia, entre 930 e 970 metros de altitude. As análises colocam a espécie num grupo, a seção Geomitra, que até então só era conhecido na Malásia, em Bornéu e em Sumatra. Seu parente mais próximo é a Thismia betung-kerihunensis, de Bornéu. Com ela, a Tailândia passa a ter 16 espécies do gênero Thismia, que reúne cerca de 120 espécies no mundo.

“Encontrar a Thismia daemona foi realmente uma grande surpresa”, disse o pesquisador Sahut Chantanaorrapint.

Descoberta e ameaçada ao mesmo tempo

Existe um detalhe preocupante. A espécie é conhecida de uma área extremamente pequena, com menos de 0,05 km². Os autores localizaram menos de 50 indivíduos e, numa avaliação preliminar pelos critérios da IUCN, classificaram a espécie como Criticamente em Perigo.

Há algo quase contraditório nessa descoberta. Em 2026, ainda encontramos plantas que a ciência nunca havia descrito formalmente. Ao mesmo tempo, algumas delas podem estar ameaçadas antes mesmo que consigamos entender como vivem.

Floresta do Parque Nacional Thong Pha Phum, habitat da Thismia daemona
Habitat da espécie no Parque Nacional Thong Pha Phum, Tailândia. Foto: Seelanan et al., PhytoKeys (2026), CC BY 4.0

E no Brasil?

O Brasil também tem suas “plantas sem sol”. Em 2022, pesquisadores descreveram a Thismia mantiqueirensis, encontrada na Mata Atlântica da Serra da Mantiqueira, em São Paulo. Em 2023, foi a vez da Thismia violacea, no Cerrado. São plantas pequenas, raras e difíceis de encontrar, justamente porque passam boa parte da vida sob a serapilheira.

Para quem trabalha com levantamentos de flora em licenciamento, o recado é direto: espécies discretas como essas só aparecem em inventários bem feitos, na época certa de floração. E um inventário apressado pode deixar passar exatamente a espécie mais rara da área.

Em números

IndicadorValor
Altura da planta, com a florcerca de 12,5 cm
Indivíduos encontradosmenos de 50
Área conhecida de ocorrênciamenos de 0,05 km²
Altitude930 a 970 m
Espécies do gênero Thismia no mundocerca de 120
Espécies de Thismia na Tailândia16
Avaliação preliminar (IUCN)Criticamente em Perigo

Às vezes, descobrir uma espécie e perceber que podemos perdê-la acontecem praticamente no mesmo momento.


Fontes:

1º de outubro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em outubro 1, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

Compartilhar:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *