7 de 9: a Terra tem nove grandes limites, e sete já foram ultrapassados
O Planetary Health Check 2026, do Instituto Potsdam, mostra que sete dos nove limites que mantêm a Terra habitável estão fora da zona segura, e todos os sete estão piorando. A boa notícia: a camada de ozônio segue em recuperação.

Imagine um painel com nove indicadores que mostram se o planeta continua funcionando dentro das condições que permitiram o desenvolvimento das sociedades humanas. Agora imagine que sete deles estão fora da zona segura, e todos os sete estão piorando. Essa é a fotografia do Planetary Health Check 2026, divulgado em 21 de setembro pelo Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), na Alemanha, com a participação de mais de 60 cientistas.
O que são os limites planetários
O conceito foi criado em 2009 por um grupo de cientistas liderado por Johan Rockström, hoje diretor do PIK. A ideia é identificar os processos que mantêm o planeta estável e definir, para cada um, até onde a humanidade pode pressionar sem aumentar muito o risco de mudanças profundas. São nove: clima, integridade da biosfera, uso da terra, água doce, fluxos de nitrogênio e fósforo, novas entidades químicas, acidificação dos oceanos, aerossóis na atmosfera e camada de ozônio.
Desde 2024, o PIK publica uma avaliação anual, o Planetary Health Check. A edição de 2026 é a terceira.

Sete fora da zona segura
Segundo o relatório, quatro limites estão na zona de alto risco: mudanças climáticas, integridade da biosfera, fluxos de nitrogênio e fósforo e novas entidades químicas, que incluem plásticos, agrotóxicos e substâncias como os PFAS. Outros três estão na zona de risco crescente: mudança no uso da terra, água doce e acidificação dos oceanos.
A acidificação dos oceanos foi o limite mais recente a cruzar a linha de segurança, na edição de 2025. Os dois limites que seguem dentro da zona segura são a camada de ozônio e a carga de aerossóis na atmosfera, embora haja problemas regionais, como a poluição do ar no Sul da Ásia.
Alguns números ajudam a dimensionar a situação:
| Limite | Situação atual | Limite seguro |
|---|---|---|
| Clima (CO2 na atmosfera) | 426 ppm | 350 ppm, superado em 1987 |
| Clima (forçamento radiativo) | +3,10 W/m² | +1 W/m² |
| Uso da terra (cobertura florestal) | 64% da cobertura potencial | 78% |
| Acidificação dos oceanos (saturação de aragonita) | 2,85 | 2,86 |
“A pressão está aumentando em todos os limites planetários que já estão fora do espaço operacional seguro”, afirmou Boris Sakschewski, autor principal do relatório.

Ultrapassar não é “ponto de não retorno”
Isso não significa que a Terra tenha cruzado sete pontos de não retorno. O conceito funciona de outra forma. Ultrapassar um limite planetário significa entrar numa região em que cresce o risco de alterações profundas, persistentes ou potencialmente irreversíveis. É como um médico que diz que a pressão arterial está alta: ainda não é o infarto, mas o risco já subiu.
O relatório lembra os sinais recentes desse sistema sob pressão: as enchentes de monção de 2025 no Paquistão atingiram mais de 6,9 milhões de pessoas; cerca de 84% dos recifes de coral do mundo passaram por estresse de branqueamento entre 2023 e 2025; e a Europa Ocidental teve em junho e julho de 2026 um calor recorde, com secas e incêndios.
Tudo está conectado
Talvez a principal mensagem do relatório esteja na conexão entre os indicadores. Clima, biodiversidade, água, oceanos e florestas não funcionam separadamente. Uma floresta degradada absorve menos carbono. Um oceano mais quente e ácido altera os ecossistemas marinhos. Mudanças no ciclo da água afetam vegetação e agricultura.
Os cientistas alertam que calor, secas e degradação repetidos podem reduzir a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono e, no limite, transformá-los de sumidouros em fontes de emissão. No Brasil, isso já foi medido: um estudo publicado na revista Nature em 2021, liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Inpe, mostrou que o sudeste da Amazônia passou a emitir mais carbono do que absorve, com relação direta ao desmatamento e às queimadas.

A boa notícia
O relatório também traz um exemplo de que é possível voltar. A camada de ozônio segue em recuperação graças ao Protocolo de Montreal, de 1987, que eliminou os gases que a destruíam. A recuperação ficou mais lenta nos últimos anos, mas o limite continua dentro da zona segura.
“Temos o conhecimento, a capacidade e as soluções para mudar o rumo”, disse Johan Rockström.
O que fica para quem trabalha com meio ambiente
Vários dos limites rompidos estão ligados a atividades que passam pelo licenciamento e pela fiscalização no Brasil: supressão de vegetação e mudança de uso do solo, uso de fertilizantes e agrotóxicos, outorga de água, gestão de resíduos e de substâncias químicas. O relatório é global, mas a pressão sobre cada limite é a soma de decisões locais.
O planeta não tem nove crises independentes. Tem um único sistema formado por processos conectados. E os indicadores mostram que estamos pressionando vários deles ao mesmo tempo.
Fontes:
- PIK. Planetary Health Check 2026 finds mounting pressures across Earth’s life support systems, 21/09/2026
- EurekAlert. Planetary Health Check 2026 finds mounting pressures across Earth’s life support systems, 2026
- Down To Earth. Seven of nine planetary boundaries transgressed with worsening trends, 2026
- Scientific American. 9 boundaries keep Earth livable. We’ve breached 7 of them, 2026
- Planetary Health Check. Ocean Acidification e Land System Change
- PIK. Seven of nine planetary boundaries now breached: ocean acidification joins the danger zone, 2025
- Gatti, L. V. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature, 2021
27 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 27, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.