Biodiversidade

7 de 9: a Terra tem nove grandes limites, e sete já foram ultrapassados

O Planetary Health Check 2026, do Instituto Potsdam, mostra que sete dos nove limites que mantêm a Terra habitável estão fora da zona segura, e todos os sete estão piorando. A boa notícia: a camada de ozônio segue em recuperação.

A Terra vista do espaço pela missão Apollo 17
A Terra vista pela Apollo 17. Foto: NASA / Wikimedia Commons, domínio público

Imagine um painel com nove indicadores que mostram se o planeta continua funcionando dentro das condições que permitiram o desenvolvimento das sociedades humanas. Agora imagine que sete deles estão fora da zona segura, e todos os sete estão piorando. Essa é a fotografia do Planetary Health Check 2026, divulgado em 21 de setembro pelo Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), na Alemanha, com a participação de mais de 60 cientistas.

O que são os limites planetários

O conceito foi criado em 2009 por um grupo de cientistas liderado por Johan Rockström, hoje diretor do PIK. A ideia é identificar os processos que mantêm o planeta estável e definir, para cada um, até onde a humanidade pode pressionar sem aumentar muito o risco de mudanças profundas. São nove: clima, integridade da biosfera, uso da terra, água doce, fluxos de nitrogênio e fósforo, novas entidades químicas, acidificação dos oceanos, aerossóis na atmosfera e camada de ozônio.

Desde 2024, o PIK publica uma avaliação anual, o Planetary Health Check. A edição de 2026 é a terceira.

Painel dos nove limites planetários em 2026
Os nove limites planetários em 2026. Fonte: Planetary Health Check 2026 (PIK). Elaboração: AMB4

Sete fora da zona segura

Segundo o relatório, quatro limites estão na zona de alto risco: mudanças climáticas, integridade da biosfera, fluxos de nitrogênio e fósforo e novas entidades químicas, que incluem plásticos, agrotóxicos e substâncias como os PFAS. Outros três estão na zona de risco crescente: mudança no uso da terra, água doce e acidificação dos oceanos.

A acidificação dos oceanos foi o limite mais recente a cruzar a linha de segurança, na edição de 2025. Os dois limites que seguem dentro da zona segura são a camada de ozônio e a carga de aerossóis na atmosfera, embora haja problemas regionais, como a poluição do ar no Sul da Ásia.

Alguns números ajudam a dimensionar a situação:

LimiteSituação atualLimite seguro
Clima (CO2 na atmosfera)426 ppm350 ppm, superado em 1987
Clima (forçamento radiativo)+3,10 W/m²+1 W/m²
Uso da terra (cobertura florestal)64% da cobertura potencial78%
Acidificação dos oceanos (saturação de aragonita)2,852,86

“A pressão está aumentando em todos os limites planetários que já estão fora do espaço operacional seguro”, afirmou Boris Sakschewski, autor principal do relatório.

Área desmatada ao lado de floresta em Rondônia
Desmatamento em Rondônia. Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Ultrapassar não é “ponto de não retorno”

Isso não significa que a Terra tenha cruzado sete pontos de não retorno. O conceito funciona de outra forma. Ultrapassar um limite planetário significa entrar numa região em que cresce o risco de alterações profundas, persistentes ou potencialmente irreversíveis. É como um médico que diz que a pressão arterial está alta: ainda não é o infarto, mas o risco já subiu.

O relatório lembra os sinais recentes desse sistema sob pressão: as enchentes de monção de 2025 no Paquistão atingiram mais de 6,9 milhões de pessoas; cerca de 84% dos recifes de coral do mundo passaram por estresse de branqueamento entre 2023 e 2025; e a Europa Ocidental teve em junho e julho de 2026 um calor recorde, com secas e incêndios.

Tudo está conectado

Talvez a principal mensagem do relatório esteja na conexão entre os indicadores. Clima, biodiversidade, água, oceanos e florestas não funcionam separadamente. Uma floresta degradada absorve menos carbono. Um oceano mais quente e ácido altera os ecossistemas marinhos. Mudanças no ciclo da água afetam vegetação e agricultura.

Os cientistas alertam que calor, secas e degradação repetidos podem reduzir a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono e, no limite, transformá-los de sumidouros em fontes de emissão. No Brasil, isso já foi medido: um estudo publicado na revista Nature em 2021, liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Inpe, mostrou que o sudeste da Amazônia passou a emitir mais carbono do que absorve, com relação direta ao desmatamento e às queimadas.

Vista aérea da floresta amazônica cortada por rio
Vista aérea da floresta amazônica. Foto: lubasi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

A boa notícia

O relatório também traz um exemplo de que é possível voltar. A camada de ozônio segue em recuperação graças ao Protocolo de Montreal, de 1987, que eliminou os gases que a destruíam. A recuperação ficou mais lenta nos últimos anos, mas o limite continua dentro da zona segura.

“Temos o conhecimento, a capacidade e as soluções para mudar o rumo”, disse Johan Rockström.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente

Vários dos limites rompidos estão ligados a atividades que passam pelo licenciamento e pela fiscalização no Brasil: supressão de vegetação e mudança de uso do solo, uso de fertilizantes e agrotóxicos, outorga de água, gestão de resíduos e de substâncias químicas. O relatório é global, mas a pressão sobre cada limite é a soma de decisões locais.

O planeta não tem nove crises independentes. Tem um único sistema formado por processos conectados. E os indicadores mostram que estamos pressionando vários deles ao mesmo tempo.


Fontes:

27 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 27, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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