A IA tem sede: quanta água custa a inteligência artificial, e por que o Brasil já tem um caso na Justiça
Estudo na revista AGU Advances mostra que a pegada hídrica dos data centers tem pelo menos três camadas e pede mais transparência. No Brasil, o data center ligado ao TikTok em Caucaia (CE) já está na Justiça por causa do licenciamento e do uso de água.

Cada pergunta feita a uma inteligência artificial acontece em algum lugar físico. Servidores trabalham, processadores aquecem, sistemas de refrigeração entram em funcionamento e a eletricidade precisa ser produzida. Um artigo publicado em 2026 na revista AGU Advances mostra que a pegada hídrica dos data centers tem pelo menos três camadas e pede mais transparência sobre esse consumo. No Brasil, o tema já chegou ao licenciamento ambiental e à Justiça, com o data center ligado ao TikTok em Caucaia, no Ceará.
As três águas de um data center
O artigo “Data Centers Water Footprint: The Need for More Transparency”, de Privette, Barros e Cai, publicado na AGU Advances, revista da União Geofísica Americana, separa a pegada hídrica dos data centers em pelo menos três componentes:
- A água usada diretamente na refrigeração. Muitos data centers usam torres de resfriamento que evaporam água para dissipar o calor dos servidores.
- A água associada à produção da eletricidade. Usinas termelétricas e hidrelétricas consomem ou evaporam água para gerar a energia que alimenta os servidores.
- A água presente na cadeia de fabricação. Produzir chips e equipamentos eletrônicos exige grandes volumes de água ultrapura.
Em editorial sobre o trabalho, a própria revista destacou que é preciso mais transparência na forma como o consumo de água dos data centers é comunicado.

Por que “litros por pergunta” engana
Isso explica por que frases como “uma pergunta à IA consome tantos litros de água” precisam ser lidas com cuidado. O resultado varia conforme o modelo usado, a localização do data center, a temperatura ambiente, a tecnologia de resfriamento e a origem da eletricidade.
As estimativas disponíveis mostram a dimensão dessa diferença. Em agosto de 2025, o Google divulgou que uma pergunta média ao Gemini consome cerca de 0,26 mililitro de água, o equivalente a cinco gotas. Já um estudo da Universidade da Califórnia em Riverside, de 2023, estimou algo como meio litro para cada 10 a 50 respostas do antigo GPT-3, ou seja, de 10 a 50 mililitros por resposta, incluindo a água usada na geração de energia. São métodos, modelos e fronteiras de cálculo diferentes, e é justamente essa falta de padrão que os pesquisadores criticam.
A escala do problema
Um relatório do Congressional Research Service, o serviço de pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, dá a dimensão do crescimento. Os data centers americanos usaram diretamente cerca de 5,6 bilhões de galões de água em 2014 (cerca de 21 bilhões de litros) e 17 bilhões de galões em 2023 (cerca de 64 bilhões de litros). O volume triplicou em nove anos.

O mesmo relatório cita uma estimativa da Agência Internacional de Energia: um data center de 100 megawatts nos Estados Unidos pode consumir diretamente, por dia, a mesma quantidade de água que cerca de 2.600 residências. E 97% da água usada pelos data centers americanos vem da rede pública de abastecimento, a mesma que atende as casas.
O impacto é local
Globalmente, existe uma característica fundamental: o impacto é extremamente localizado. Um data center instalado numa região com água abundante representa uma situação completamente diferente de uma instalação parecida construída numa área sujeita a seca ou a estresse hídrico. Por isso, os pesquisadores defendem que as empresas divulguem o consumo de água por instalação, e não apenas números médios globais.

E no Brasil?
O debate já chegou ao licenciamento ambiental brasileiro. Em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, está em construção um complexo de data centers operado pela Omnia, do grupo Pátria Investimentos, em parceria com a Casa dos Ventos, para atender o TikTok. O projeto prevê duas unidades de 150 MW, com entrada em operação em 2027 e 2028, e investimento estimado em R$ 200 bilhões.
Em setembro de 2026, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União entraram na Justiça contra o licenciamento. Segundo a ação, o consumo de água previsto saltou de 19,7 mil litros por dia na licença prévia para 144 mil litros por dia na licença de instalação, um aumento de mais de 600%, com captação de água subterrânea para resfriamento, num estado marcado pela escassez hídrica. Os órgãos questionam o uso de um Relatório Ambiental Simplificado (RAS) pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace) e pedem Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), além de consulta prévia ao povo indígena Anacé. A Omnia afirma que o projeto tem base técnica e jurídica sólida e seguiu o licenciamento.
Em paralelo, o Brasil criou regras próprias para o setor. A Lei 15.504/2026, sancionada em setembro, instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que suspende tributos federais na compra de equipamentos. Como contrapartida, o data center precisa manter um índice de eficiência hídrica no resfriamento igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh, medido anualmente e publicado em relatório de sustentabilidade, e atender toda a demanda de energia com fontes renováveis ou de baixa emissão.
O que fica para quem trabalha com meio ambiente
- Licenciamento: o caso de Caucaia mostra que o enquadramento do empreendimento (RAS ou EIA/RIMA) vai ser um ponto central de discussão para data centers de grande porte.
- Outorga: captação de água subterrânea ou superficial para resfriamento depende de outorga de direito de uso, e a disponibilidade hídrica local pesa mais do que qualquer média global.
- Transparência: o indicador de eficiência hídrica exigido pelo Redata cria, pela primeira vez, uma métrica pública de água para o setor no Brasil.
Em números
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Água usada diretamente pelos data centers dos EUA (2014) | cerca de 21 bilhões de litros |
| Água usada diretamente pelos data centers dos EUA (2023) | cerca de 64 bilhões de litros |
| Data center de 100 MW (consumo diário) | equivalente a cerca de 2.600 residências |
| Água dos data centers dos EUA vinda da rede pública | 97% |
| Água por pergunta ao Gemini (Google, 2025) | cerca de 0,26 ml |
| Estimativa para o GPT-3 (UC Riverside, 2023) | de 10 a 50 ml por resposta |
| Data center de Caucaia (CE), licença prévia | 19,7 mil litros por dia |
| Data center de Caucaia (CE), licença de instalação | 144 mil litros por dia |
| Limite de eficiência hídrica do Redata | 0,05 litro por kWh |
Talvez essa seja uma das grandes contradições ambientais da era digital. Quanto mais invisível a tecnologia parece para quem a usa, maior a necessidade de enxergar a infraestrutura física que existe por trás dela.
Fontes:
- Privette, Barros e Cai. Data Centers Water Footprint: The Need for More Transparency. AGU Advances, 2026
- Eos / AGU. The Multi-Faceted Water Footprint of Data Centers, 18/03/2026
- Congressional Research Service. Relatório R49057
- Google Cloud. Measuring the environmental impact of AI inference, ago/2025
- Li, P., Yang, J., Islam, M. A., Ren, S. Making AI Less “Thirsty”. UC Riverside, 2023
- Olhar Digital. Justiça é acionada para parar data center de R$ 200 bi do TikTok, 14/09/2026
- TI Inside. Consumo de água do data center do TikTok no Ceará salta mais de 600% entre uma licença e outra, 16/09/2026
- Agência Senado. Incentivo para instalação de data centers no Brasil é aprovado pelo Senado, 01/09/2026
- eixos. O que é o Redata, o regime fiscal para data centers, 2026
26 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 26, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.