Biodiversidade

Quem é o dono do céu? Drones e táxis aéreos abrem uma nova frente de conflito com a biodiversidade

Um comentário publicado na Nature Reviews Biodiversity alerta que drones de entrega e táxis aéreos estão ocupando rapidamente o espaço usado por aves, morcegos e insetos, e que as regras para proteger essa fauna ainda são escassas.

Andorinhões sobrevoando pavilhão no Parque Beihai, em Pequim
Andorinhões sobre o Parque Beihai, em Pequim. Foto: FlyingBatt / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Quando se fala em perda de habitat, a imagem que vem à cabeça é a de florestas derrubadas, rios contaminados ou áreas naturais engolidas pelas cidades. Existe um habitat que quase nunca entra nessa conversa: o céu. Um comentário científico publicado em 22 de setembro na revista Nature Reviews Biodiversity alerta que a expansão dos drones de entrega e dos táxis aéreos está ocupando rapidamente um espaço que aves, morcegos e insetos usam há milhões de anos, e que as regras para proteger essa fauna ainda são escassas.

A “economia de baixa altitude”

O texto é assinado por Zhen Xu, Xiangyi Li, Ziyao Ling e Sergio A. Lambertucci, e trata do que a China chama de “economia de baixa altitude”: o conjunto de atividades comerciais feitas por drones e aeronaves que voam perto do solo, geralmente abaixo de mil metros. Entregas de comida e remédios, inspeção de linhas de energia e painéis solares, pulverização agrícola, turismo e, em breve, transporte de passageiros.

O setor é tratado pelo governo chinês como motor de crescimento. Segundo dados oficiais divulgados pela agência Xinhua, a economia de baixa altitude deveria movimentar 1,5 trilhão de yuans em 2025 (cerca de US$ 211 bilhões) e passar de 3,5 trilhões até 2035. A China concentra a maior indústria de drones civis do mundo e, segundo números apresentados no Senado brasileiro em setembro, tem 3,29 milhões de drones civis registrados.

Drone de entrega soltando pacote com paraquedas
Drone de entrega da Zipline soltando um pacote. Foto: Roksenhorn / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Só a Meituan, gigante chinesa de delivery, passou de 900 mil entregas por drone acumuladas em maio de 2026, operando dezenas de rotas em cidades como Shenzhen, Pequim, Xangai e Hong Kong.

O alerta dos autores é direto: enquanto o uso comercial do espaço aéreo baixo cresce rapidamente, as salvaguardas ecológicas para o ar compartilhado entre drones e animais voadores continuam raras.

O problema não é só a colisão

A primeira imagem que vem à mente é a de um pássaro batendo num drone. Mas o impacto vai além. A aproximação de um drone pode provocar mudança de comportamento, interrupção da alimentação, abandono temporário de ninhos e reações de fuga, que gastam energia.

Uma meta-análise publicada em 2023 no Journal of Field Ornithology reuniu 17 estudos com 40.135 aves de 19 espécies em período de nidificação. O resultado ajuda a dimensionar o problema: voos até 50 metros de altura provocaram perturbação, enquanto acima de 50 metros não houve evidência de efeito. Aves que fazem ninho sozinhas, no chão ou em árvores, foram as mais sensíveis. Colônias que nidificam no chão, curiosamente, não mostraram reação.

Às vezes quem reage é a ave. Em 2021, em Canberra, na Austrália, corvos em época de ninho passaram a atacar os drones de entrega da Wing, empresa do grupo Alphabet (dono do Google), e a companhia suspendeu os voos em um bairro da cidade. Um ornitólogo ouvido pela emissora ABC resumiu: as aves estavam defendendo o território de uma ameaça aérea desconhecida.

Revoada de milhares de estorninhos no céu azul
Revoada de estorninhos. Foto: Skander Zarrad / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O céu como habitat

Há uma questão mais ampla. Muitas espécies usam o ar de forma organizada: rotas de migração, faixas de altitude preferidas para caçar insetos, corredores entre áreas de alimentação e abrigo. Funciona de forma parecida com os corredores ecológicos terrestres, que a legislação e o planejamento ambiental já reconhecem.

Pesquisadores chamam esse campo de “aeroconservação”, termo consolidado em 2017 num artigo da revista Conservation Letters sobre a fragmentação do céu por torres, turbinas eólicas, prédios e luz artificial. Um dos autores do comentário atual, Sergio Lambertucci, já havia alertado na revista Science, em 2015, para os conflitos entre pessoas e fauna num espaço aéreo cada vez mais lotado.

A diferença agora é a escala. O que era uma preocupação científica pode virar, em poucos anos, uma questão concreta de planejamento urbano e de licenciamento.

E o Brasil?

O Brasil ainda está longe da escala chinesa, mas a curva é de subida. Em audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, em 9 de setembro de 2026, foi informado que o país tem cerca de 177 mil drones registrados na ANAC, com aproximadamente 10 mil novos cadastros por mês. Em março eram 133 mil.

No transporte de pessoas, o eVTOL da Eve, empresa da Embraer, avança na certificação. Em julho, a ANAC abriu consulta pública sobre os critérios de aeronavegabilidade do modelo, e a empresa pediu a validação do certificado à agência europeia de aviação (EASA).

eVTOL da Eve, empresa da Embraer, em voo de teste
eVTOL da Eve, empresa da Embraer, em voo de teste. Foto: Lula Oficial / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Do outro lado, o céu brasileiro é um dos mais ricos do planeta: são cerca de 1.970 espécies de aves e mais de 180 espécies de morcegos, além de uma diversidade enorme de insetos voadores.

Não é contra a tecnologia

Os drones também são aliados da conservação. São usados para monitorar fauna e florestas, detectar focos de queimada, acompanhar reflorestamento e apoiar a fiscalização ambiental. A própria meta-análise de 2023 conclui que o drone pode ser uma ferramenta eficiente de monitoramento de aves, desde que altitude e características das espécies sejam respeitadas.

Portanto, a discussão não é ser contra ou a favor. A pergunta é outra: como ocupar um espaço que nunca foi tratado como ecossistema?

O que fica para quem trabalha com meio ambiente

Algumas perguntas devem entrar no radar de consultores, órgãos ambientais e empresas nos próximos anos:

  • Rotas de drones e vertiportos (as bases de pouso de táxis aéreos) deveriam considerar áreas de nidificação, dormitórios de aves e cavernas de morcegos?
  • Faz sentido definir altitudes mínimas ou períodos de restrição em épocas de reprodução, como já ocorre em outras atividades?
  • Os estudos de impacto de novos corredores aéreos vão olhar para a fauna voadora com o mesmo cuidado dado à fauna terrestre?

Em números

IndicadorValor
Economia de baixa altitude na China (2025)1,5 trilhão de yuans (≈ US$ 211 bi)
Projeção chinesa para 2035acima de 3,5 trilhões de yuans
Drones civis registrados na China3,29 milhões
Drones registrados no Brasil (set/2026)cerca de 177 mil
Novos cadastros no Brasilcerca de 10 mil por mês
Entregas por drone da Meituan (até mai/2026)mais de 900 mil
Aves analisadas na meta-análise de 202340.135, de 19 espécies
Altura abaixo da qual houve perturbação50 metros

Durante muito tempo, a humanidade tratou o solo, os rios e os oceanos como espaços aparentemente infinitos. Depois descobrimos que todos têm limites. Talvez estejamos começando a perceber que o céu também tem os seus.


Fontes:

24 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 24, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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