Rio sujo também esquenta o planeta: estudo liga contaminantes na água a mais gases de efeito estufa
Estudo na Nature Water mostra que, mesmo com 82% de remoção na estação de tratamento, o efluente aumentou em 53% os contaminantes, em 44% a toxicidade e em 11% os gases de efeito estufa no rio. No Brasil, 90 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto.

Poluição da água e mudança climática costumam aparecer como problemas separados. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Nature Water mostra que eles podem estar ligados de uma forma pouco conhecida. Ao analisar um rio que recebe o efluente de uma estação de tratamento de esgoto na China, pesquisadores descobriram que, mesmo depois do tratamento, os contaminantes que chegam à água mudam o comportamento dos microrganismos do rio e aumentam a produção de gases de efeito estufa.
O estudo
O trabalho foi liderado por Rui-Feng Yan, com coordenação de Jing-Long Han e Ai-Jie Wang, do Instituto de Tecnologia de Harbin e da Academia Chinesa de Ciências, e publicado na Nature Water em 7 de setembro de 2026. A equipe acompanhou todo o caminho da água: da estação de tratamento ao trecho do rio acima e abaixo do ponto de lançamento.
Foram avaliados 159 contaminantes emergentes. São substâncias que não costumam ter limite definido em lei e que aparecem em concentrações baixas, como resíduos de medicamentos, hormônios, produtos de higiene e compostos industriais. Além deles, os pesquisadores mediram a toxicidade da água, os gases de efeito estufa (gás carbônico, metano e óxido nitroso) e o funcionamento das comunidades de microrganismos.

O tratamento funciona, mas não resolve tudo
A estação removeu 82,2% dos contaminantes emergentes avaliados. Mesmo assim, depois do lançamento do efluente, o trecho do rio a jusante registrou:
- aumento de 53,2% na concentração de contaminantes emergentes;
- aumento de 44,2% na citotoxicidade, a toxicidade para as células;
- aumento de 11,3% nos gases de efeito estufa, medidos em CO2 equivalente.

Os micróbios mudam de estratégia
A parte mais interessante do estudo aparece nos microrganismos. Expostos continuamente a misturas de contaminantes, eles precisam reorganizar o metabolismo.
As funções celulares ligadas à defesa, como bombas que expulsam substâncias tóxicas, formação de biofilme e enzimas de desintoxicação, caíram entre 52% e 58%. Ao mesmo tempo, os processos ligados à obtenção e manutenção de energia foram favorecidos. Os genes associados à produção de gases de efeito estufa ficaram entre 1,9 e 33,7 vezes mais abundantes do que no trecho acima do lançamento.
Os autores chamam isso de uma troca entre defesa e energia: sob estresse químico, a comunidade microbiana deixa de se proteger e passa a gastar energia para sobreviver, e esse novo metabolismo gera mais gases.

O que o estudo não diz
Isso não significa que todo rio poluído passe automaticamente a emitir grandes quantidades de gases. O estudo analisou um sistema específico, e os resultados precisam ser considerados dentro desse contexto. Mas ele revela algo importante: quando alteramos quimicamente um rio, não estamos apenas acrescentando substâncias à água. Estamos modificando comunidades microscópicas responsáveis por processos bioquímicos fundamentais.
E o Brasil?
No Brasil, o ponto de partida é ainda mais delicado. Segundo o Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, com dados do Sinisa de 2024, cerca de 90 milhões de pessoas, ou 43,3% da população, não têm coleta de esgoto. Boa parte do esgoto gerado chega aos rios sem tratamento nenhum. A espuma que aparece com frequência no Rio Tietê em Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo, é um dos retratos mais conhecidos desse problema.
O Novo Marco do Saneamento incluiu na Lei 11.445/2007 o art. 11-B, que fixa como meta atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.
Mesmo onde há tratamento, a regulação ainda não alcança a maior parte dos contaminantes emergentes. A Resolução Conama 430/2011, que define as condições e os padrões de lançamento de efluentes, e a Resolução Conama 357/2005, que classifica os corpos d’água, não fixam limites para fármacos, hormônios e a maioria dessas substâncias.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente
- Saneamento também é política climática: estações de tratamento e rios poluídos entram na conta de emissões, e não só pelo metano da própria estação.
- Monitoramento a jusante: o desempenho de uma estação não se mede só pela eficiência de remoção, mas pelo efeito no corpo receptor.
- Contaminantes emergentes: o tema tende a entrar na agenda regulatória. Vale acompanhar a discussão sobre padrões para fármacos e hormônios em efluentes.
Em números
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Contaminantes emergentes avaliados | 159 |
| Remoção na estação de tratamento | 82,2% |
| Contaminantes no rio a jusante | +53,2% |
| Citotoxicidade a jusante | +44,2% |
| Gases de efeito estufa (CO2 equivalente) a jusante | +11,3% |
| Queda nas funções de defesa dos micróbios | 52% a 58% |
| Genes de produção de gases | 1,9 a 33,7 vezes mais abundantes |
| Brasileiros sem coleta de esgoto | cerca de 90 milhões (43,3%) |
E algumas dessas mudanças podem acabar chegando até a atmosfera. Na natureza, a poluição raramente termina exatamente onde conseguimos enxergá-la.
Fontes:
- Yan, R.-F. et al. Emerging contaminant stress promotes greenhouse gas production through microbial defence–energy trade-off in receiving rivers. Nature Water, 07/09/2026
- O Tempo. Ranking do Saneamento 2026 mostra avanços, mas reforça necessidade de ampliar investimentos no país, 18/03/2026
- Instituto Trata Brasil. Ranking do Saneamento 2026
- Lei 11.445/2007, art. 11-B, incluído pela Lei 14.026/2020
- Resolução Conama 430/2011
- Resolução Conama 357/2005
29 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 29, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.