Mata Atlântica: a floresta onde o Brasil mora
Episódio 01 da série Brasis do Brasil: a Mata Atlântica abriga 72% dos brasileiros, tem só 12,4% de florestas maduras e registrou o menor desmatamento em 40 anos.

Série: Brasis do Brasil · Episódio: 01, Mata Atlântica · Dimensões: Ambiente, Sociedade, Economia
Tags: Mata Atlântica, Lei da Mata Atlântica, MapBiomas, SOS Mata Atlântica, desmatamento, biodiversidade, restauração
Por Redação AMB4
Foi pela Mata Atlântica que o Brasil começou. A floresta que os portugueses encontraram no litoral deu nome ao país, com o pau-brasil, e depois cedeu espaço para a cana, o café, as ferrovias, as indústrias e as maiores cidades do continente. Cinco séculos depois, ela é o bioma onde vive a maior parte dos brasileiros e, ao mesmo tempo, um dos mais ricos em vida do planeta. Neste primeiro episódio da série Brasis do Brasil, o AMB4 mostra quanto dela resta, o que mudou nas últimas quatro décadas e o que a ciência já sabe sobre a floresta que sobrou.

Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul
Segundo o IBGE, a Mata Atlântica ocupa 1.107.285 km², ou 13,0% do território nacional. Ela se estende pelo litoral e avança para o interior em 17 estados, considerando o mapa de aplicação da Lei nº 11.428/2006, a Lei da Mata Atlântica. No recorte estatístico do IBGE de 2024, é o bioma predominante em 2.741 municípios, quase metade das cidades do país.
Mata Atlântica não é só floresta de encosta. O art. 2º da Lei nº 11.428/2006 inclui no bioma a “Floresta Ombrófila Densa; Floresta Ombrófila Mista, também denominada de Mata de Araucárias; Floresta Ombrófila Aberta; Floresta Estacional Semidecidual; e Floresta Estacional Decidual, bem como os manguezais, as vegetações de restingas, campos de altitude, brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste”.
A floresta onde o Brasil mora
Nenhum outro bioma concentra tanta gente e tanta economia. De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, 72% dos brasileiros vivem na Mata Atlântica, e o bioma concentra 80% do PIB nacional. A Coleção 11 do MapBiomas mostra que a área urbanizada dentro do bioma cresceu 2,5 vezes desde 1985 e hoje corresponde a 52% de toda a área urbanizada do Brasil.
Isso significa que a conservação da Mata Atlântica não é um tema distante: ela está na água que abastece as grandes cidades, nas encostas que seguram (ou não) o solo nas chuvas fortes e na qualidade de vida de mais de dois terços da população.
Quanto resta
O Atlas da Mata Atlântica, produzido pela SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE, estima que restam cerca de 24% da cobertura florestal original do bioma. Desse total, apenas 12,4% correspondem a florestas maduras e bem conservadas, monitoradas em fragmentos com mais de 3 hectares.

O MapBiomas chega a um número maior, 32% do bioma com vegetação nativa em 2025, porque usa outra metodologia e conta também formações não florestais e florestas jovens. Os dois indicadores não se contradizem: medem coisas diferentes. Para quem trabalha com licenciamento, essa diferença importa, porque a legislação trata de forma distinta a vegetação primária e a secundária em cada estágio de regeneração.
A floresta que cai e a que volta
A Coleção 11 do MapBiomas, divulgada em setembro de 2026, mostra uma Mata Atlântica em movimento. Entre 1985 e 2025, o bioma perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação nativa madura. No mesmo período, surgiram mais de 8 milhões de hectares de vegetação secundária: hoje, um em cada quatro hectares de vegetação nativa do bioma é mata nova.

O saldo final ainda é negativo: a vegetação nativa encolheu cerca de 5 milhões de hectares, ou 12%, em 41 anos. E a mata nova também é derrubada. Entre 2021 e 2025, 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa foram suprimidos no bioma, e 700 mil deles eram vegetação secundária. Segundo o levantamento, Rio de Janeiro e São Paulo foram os únicos estados sem perda líquida de vegetação nativa no período.
Do outro lado da conta está o campo. A área de agricultura na Mata Atlântica passou de 9,7 milhões para 20,5 milhões de hectares, mais que o dobro, e a agropecuária como um todo ocupa hoje 63% do bioma. Boa parte do avanço veio sobre pastagens, que perderam cerca de 11 milhões de hectares. A silvicultura quadruplicou e chegou a 4,9 milhões de hectares. O bioma responde por 68% da área de café, 50% da cana, 34% dos citros e 25% da soja mapeados no Brasil.
O menor desmatamento em 40 anos
Há uma boa notícia. O Atlas da Mata Atlântica 2024-2025, publicado em maio de 2026, registrou 8.668 hectares de florestas maduras desmatadas, contra 14.366 hectares no período anterior. É uma redução de 40% e a primeira vez, em quatro décadas de monitoramento, que o desmatamento anual fica abaixo de 10 mil hectares.

Os dois levantamentos olham para coisas diferentes: o Atlas acompanha a perda de florestas maduras; o MapBiomas mede toda a vegetação nativa, inclusive a secundária. Juntos, eles mostram que o corte de floresta madura desacelerou, mas a supressão de matas jovens continua relevante.
Uma das florestas mais ricas em vida do planeta
Mesmo reduzida, a Mata Atlântica abriga mais de 20 mil espécies de plantas, das quais cerca de 8 mil só existem nela. Entre os vertebrados, são cerca de 620 espécies de aves (181 endêmicas), 280 de anfíbios (253 endêmicas), 261 de mamíferos (73 endêmicas) e 200 de répteis (60 endêmicas), segundo levantamento da Conservação Internacional.

É também a casa do muriqui, o maior primata das Américas, que só existe neste bioma e está ameaçado de extinção.

A alta proporção de anfíbios endêmicos é uma das marcas do bioma: quase todas as espécies de sapos, rãs e pererecas registradas na Mata Atlântica não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo.

O que a ciência revelou: a floresta que sobrou está mais pobre
Um estudo publicado em 2020 na Nature Communications, liderado por Renato A. F. de Lima, do Instituto de Biociências da USP, reuniu 1.819 inventários florestais de todo o bioma. Os pesquisadores compararam os fragmentos que restaram com florestas pouco perturbadas e encontraram uma erosão generalizada.
Em média, os fragmentos têm de 25% a 32% menos biomassa e de 23% a 31% menos espécies de árvores. A perda é ainda maior entre as espécies mais sensíveis: 33% menos indivíduos de espécies de estágios avançados de sucessão, 36% menos de espécies de sementes grandes e 42% menos de espécies endêmicas.
Os autores calcularam que essa degradação silenciosa equivale a desmatar de 55 mil a 70 mil km² de floresta, ou de 451 a 525 milhões de toneladas de carbono, algo entre US$ 2,3 bilhões e US$ 2,6 bilhões em créditos de carbono. Ou seja: além de proteger o que resta, é preciso olhar para a qualidade da floresta que ficou de pé.
O que fica para quem trabalha com meio ambiente
A Mata Atlântica tem lei própria: a Lei nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006, regulamentada pelo Decreto nº 6.660, de 21 de novembro de 2008. Na prática, o que define o que pode ou não ser suprimido é o tipo de vegetação e o seu estágio de regeneração.
Para a vegetação primária, o art. 20 é direto: “O corte e a supressão da vegetação primária do Bioma Mata Atlântica somente serão autorizados em caráter excepcional, quando necessários à realização de obras, projetos ou atividades de utilidade pública, pesquisas científicas e práticas preservacionistas.”
E quando a supressão é autorizada, o art. 17 exige compensação: “O corte ou a supressão de vegetação primária ou secundária nos estágios médio ou avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica, autorizados por esta Lei, ficam condicionados à compensação ambiental, na forma da destinação de área equivalente à extensão da área desmatada, com as mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica, sempre que possível na mesma microbacia hidrográfica, e, nos casos previstos nos arts. 30 e 31, ambos desta Lei, em áreas localizadas no mesmo Município ou região metropolitana.”
Os dados do MapBiomas sobre a supressão de vegetação secundária e os do estudo da USP sobre a degradação dos fragmentos reforçam a importância de uma boa caracterização do estágio sucessional nos processos de licenciamento: é ela que define o enquadramento legal e, portanto, o que pode ser autorizado e quanto precisa ser compensado.
Em números
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Área do bioma (IBGE) | 1.107.285 km² (13,0% do Brasil) |
| Municípios com o bioma predominante (IBGE, 2024) | 2.741 |
| População brasileira no bioma (SOS Mata Atlântica) | 72% |
| Cobertura florestal original restante (Atlas) | cerca de 24% |
| Florestas maduras (Atlas) | 12,4% |
| Vegetação nativa em 2025 (MapBiomas) | 32% |
| Vegetação madura perdida, 1985 a 2025 (MapBiomas) | 9,7 milhões de ha |
| Desmatamento de florestas maduras, 2024-2025 (Atlas) | 8.668 ha (menos 40%) |
| Espécies de plantas / endêmicas | mais de 20 mil / 8 mil |
Fontes
- IBGE, Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil
- IBGE (2024), Bioma Predominante por Município para Fins Estatísticos
- Lei nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006
- INPE e SOS Mata Atlântica, Atlas da Mata Atlântica 2024-2025
- SOS Mata Atlântica, “Mata Atlântica”
- MapBiomas Brasil, Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra (1985 a 2025)
- CNN Brasil, “Mata Atlântica: um quarto da vegetação nativa é mata nova, aponta estudo”
- Apremavi, dados de biodiversidade da Conservação Internacional
- Lima, R. A. F. et al. (2020), “The erosion of biodiversity and biomass in the Atlantic Forest biodiversity hotspot”, Nature Communications 11, 6347
Fotos: capa, Totem Tribo (CC BY-SA 4.0); muriqui-do-norte, Bart van Dorp (CC BY 2.0); perereca-macaco, Renato Augusto Martins (CC BY-SA 4.0); todas via Wikimedia Commons.
Brasis do Brasil é a série semanal do AMB4 sobre os seis biomas brasileiros. Episódio anterior: Abertura, quanto do nosso próprio país ainda não conhecemos? Próximo episódio: Cerrado.
27 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em outubro 4, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.