Brasis do Brasil: quanto do nosso próprio país ainda não conhecemos?
Episódio de abertura da série Brasis do Brasil: os seis biomas em números, o que mudou em 41 anos segundo o MapBiomas e o que a ciência ainda não sabe sobre eles.

Série: Brasis do Brasil · Episódio: 00, Abertura · Dimensões: Ambiente, Sociedade, Futuro
Tags: biomas, IBGE, MapBiomas, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Pampa
Por Redação AMB4
O Brasil costuma ser apresentado como um único território, mas ambientalmente ele é formado por paisagens que funcionam de maneiras profundamente diferentes. Florestas úmidas, savanas, campos, áreas semiáridas e planícies periodicamente inundadas convivem dentro das mesmas fronteiras. Cada uma delas tem clima, solo, vegetação, dinâmica da água, fauna, história de ocupação e pressões humanas próprias.
É daí que nasce a série Brasis do Brasil. Em sete episódios, o AMB4 começa por esta visão geral e depois percorre, um a um, os seis biomas terrestres reconhecidos pelo IBGE: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Caatinga, Pantanal e Pampa. A proposta não é apenas mostrar onde eles estão, mas entender como mudaram, o que ainda conservam, quais ameaças enfrentam e o que a ciência vem descobrindo sobre eles.
Todos os episódios seguem a mesma lógica: mapa, área, comparação histórica, cobertura vegetal, transformações no uso da terra, curiosidades, características ecológicas e estudos acadêmicos.

Os seis biomas em números
Segundo o IBGE, a Amazônia ocupa 49,5% do território brasileiro; o Cerrado, 23,3%; a Mata Atlântica, 13,0%; a Caatinga, 10,1%; o Pampa, 2,3%; e o Pantanal, 1,8%. Juntos, Amazônia e Cerrado somam 72,8% do país: quase três quartos do território nacional.
| Bioma | Área aproximada | % do Brasil |
|---|---|---|
| Amazônia | 4.210.931 km² | 49,5% |
| Cerrado | 1.984.554 km² | 23,3% |
| Mata Atlântica | 1.107.285 km² | 13,0% |
| Caatinga | 862.652 km² | 10,1% |
| Pampa | 193.996 km² | 2,3% |
| Pantanal | 151.001 km² | 1,8% |

A extensão territorial, porém, conta só uma parte da história. No recorte estatístico do IBGE, que atribui a cada município o bioma que ocupa a maior parte do seu território, a Mata Atlântica é o bioma predominante em 2.741 municípios, ou 49,3% do total de 5.572. Ou seja, um bioma com 13% da área do país predomina em quase metade das cidades brasileiras.
| Bioma predominante | Municípios | % dos municípios |
|---|---|---|
| Mata Atlântica | 2.741 | 49,3% |
| Caatinga | 1.095 | 19,7% |
| Cerrado | 1.062 | 19,1% |
| Amazônia | 503 | 9,0% |
| Pampa | 162 | 2,9% |
| Pantanal | 9 | 0,2% |
O mesmo levantamento identificou 963 municípios interbiomas, cerca de 17% do total, cujo território se divide entre dois ou mais biomas.
Antes de começar: você conhece mesmo os biomas brasileiros?
- Qual bioma ocupa quase metade do Brasil?
A Amazônia. Sozinha, ela corresponde a 49,5% do território nacional. - Qual é o único bioma exclusivamente brasileiro?
A Caatinga. Sua distribuição natural está inteiramente dentro do Brasil, o que torna sua conservação uma responsabilidade que não pode ser dividida com outro país. - Qual bioma está presente em todas as grandes regiões brasileiras?
O Cerrado. Sua distribuição alcança áreas das cinco grandes regiões do país. - Qual é o menor bioma brasileiro em área?
O Pantanal, com cerca de 151 mil km², ou 1,8% do território nacional. - Qual bioma tem hoje a menor proporção de vegetação nativa?
A Mata Atlântica. Em 2025, o MapBiomas estimou que apenas 32% de sua área permanecia classificada como vegetação nativa. Parte importante dessa transformação, porém, ocorreu muito antes do início da série de satélite, em 1985. - Quais biomas mais perderam vegetação nativa em área absoluta entre 1985 e 2025?
Amazônia e Cerrado. O MapBiomas calculou perdas acumuladas de aproximadamente 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. - E, proporcionalmente, quais tiveram as maiores reduções?
Cerrado e Pampa. Entre 1985 e 2025, a redução proporcional da vegetação nativa foi de aproximadamente 34% no Cerrado e 32% no Pampa. - Qual bioma depende diretamente de um grande pulso anual de cheias e secas?
O Pantanal. A alternância entre inundação e estiagem organiza a paisagem, a vegetação, a fauna e boa parte das atividades humanas da planície. - Qual bioma muita gente ainda associa apenas à seca, embora tenha grande diversidade biológica?
A Caatinga. A aridez é central no ambiente, mas vegetação e fauna desenvolveram múltiplas estratégias de adaptação, e a biodiversidade do bioma está longe de ser simples ou pobre. - Nós já conhecemos cientificamente todos esses biomas na mesma profundidade?
Não. E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de toda a série.
Quarenta e um anos de transformação
A Coleção 11 do MapBiomas permite acompanhar ano a ano a cobertura e o uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025. Nesse intervalo, a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro. No sentido oposto, a agropecuária passou de 18% para 32%.

Ao longo desses 41 anos, cerca de um terço do território brasileiro passou por pelo menos uma mudança de cobertura ou uso da terra. Na comparação direta entre 1985 e 2025, 241 milhões de hectares apresentaram alguma transição, e 136 milhões de hectares corresponderam à conversão de vegetação nativa em agropecuária.
Por que um número só pode enganar
Esses números não significam a mesma coisa em todos os biomas. Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas absolutas de vegetação nativa. Cerrado e Pampa aparecem com as maiores reduções proporcionais. A Mata Atlântica, por outro lado, tem hoje a menor proporção de vegetação nativa, porque grande parte de sua transformação aconteceu antes de 1985. Já o Pantanal exige uma leitura em que água, campos alagados, seca e fogo pesam tanto quanto a cobertura vegetal.
Por isso, comparar biomas por um único indicador pode induzir ao erro. Perder mais hectares não é necessariamente o mesmo que perder a maior parcela do que existia. E ter pouca perda nas últimas quatro décadas também não significa estar bem conservado quando a transformação principal aconteceu séculos antes.
O que as universidades estão revelando
Um estudo publicado em 2024 na revista Science of the Total Environment analisou informações geradas por dois programas brasileiros de pesquisa ecológica de longa duração. O trabalho reuniu 1.904 registros de metadados de campanhas de campo e chegou a uma conclusão desconfortável: nenhum dos biomas brasileiros estava suficientemente amostrado. A Caatinga apareceu como o bioma com menor quantidade de metadados disponíveis.
O problema não é só a falta de estudos. Parte da informação já coletada continua mal documentada ou difícil de localizar, o que pode levar novas equipes a repetir levantamentos já feitos simplesmente porque não sabem que os dados existem. Conhecer a biodiversidade brasileira não depende apenas de ir a campo: depende também de organizar, integrar e tornar acessível o conhecimento produzido.
O estudo, liderado por Aretha Franklin Guimarães e realizado por uma grande rede de pesquisadores ligada a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), UFRGS, UFMT, UFRJ e outras universidades e centros de pesquisa, reforça uma ideia central desta série: ainda há enormes lacunas sobre a biodiversidade do país, inclusive em biomas estudados há décadas.
Restaurar um bioma não é só plantar árvores
Outro estudo publicado em 2024 na mesma revista, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, da PUC-Rio e de outras instituições, reuniu 76 estudos e 1.281 amostras sobre restauração nos biomas brasileiros. Os autores compararam a recuperação da biodiversidade, da abundância de organismos e dos estoques de carbono.
A conclusão desmonta uma ideia simplista: a restauração ecológica não é um processo único, e os componentes do ecossistema não voltam na mesma velocidade. A abundância de organismos tende a se recuperar com mais facilidade; depois vêm os estoques de carbono; a recuperação da diversidade de espécies se mostrou a mais difícil. A análise também apontou desempenho elevado da regeneração natural assistida em diferentes contextos.
O próprio conjunto de estudos revela outra desigualdade: a maior parte das pesquisas disponíveis estava concentrada nos biomas florestais úmidos, especialmente Amazônia e Mata Atlântica. Cerrado e Caatinga estavam muito menos representados, e não havia estudos de Pampa ou Pantanal que atendessem aos critérios da meta-análise. Isso não quer dizer que esses biomas não tenham pesquisas sobre restauração, e sim que, para aquela pergunta científica e aqueles critérios, a base comparável ainda era insuficiente.
Seis biomas, seis histórias
A partir do próximo episódio, o AMB4 entra em cada um desses territórios separadamente, um por semana:
- Mata Atlântica: o bioma onde se concentrou grande parte da formação histórica, urbana e econômica do Brasil e que, apesar de séculos de transformação, continua reunindo uma biodiversidade extraordinária.
- Cerrado: o segundo maior bioma do país, berço de grandes bacias hidrográficas.
- Amazônia: a maior floresta tropical do planeta.
- Caatinga: o único bioma exclusivamente brasileiro.
- Pantanal: a planície movida pelo pulso das águas.
- Pampa: os campos do sul, com uma biodiversidade pouco conhecida.
Em cada episódio, a pergunta será parecida, mas a resposta certamente não: como esse bioma funciona, quanto dele mudou, o que ainda preservamos e o que a ciência já descobriu, ou ainda não conseguiu descobrir, sobre ele.
Talvez conhecer seja o primeiro passo para conservar
Falar de biomas não é apenas falar de vegetação. É falar de água, clima, solo, animais, cidades, agricultura, cultura, energia, história e também das escolhas que o Brasil fez sobre o próprio território.
Há um Brasil úmido e outro semiárido. Há florestas, campos e savanas. Há paisagens que queimam naturalmente em determinados contextos e outras profundamente vulneráveis ao fogo. Há lugares onde a água passa meses cobrindo o solo e outros onde sobreviver significa economizar cada gota.
São diferentes Brasis dentro do mesmo Brasil. E talvez a pergunta que abre esta série seja também a que vai acompanhá-la até o fim: quanto do nosso próprio país ainda não conhecemos?
Fontes
- IBGE, Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil. Áreas oficiais dos biomas.
- IBGE (2024), Bioma Predominante por Município para Fins Estatísticos
- MapBiomas Brasil, Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra, série 1985 a 2025
- Guimarães, A. F. et al. (2024), “Disentangling the veil line for Brazilian biodiversity: An overview from two long-term research programs reveals huge gaps in ecological data reporting”, Science of the Total Environment, v. 950, 174880
- Jakovac, C. et al. (2024), “Meta-analysis of carbon stocks and biodiversity outcomes across Brazilian restored biomes”, Science of the Total Environment, v. 906, 167558
Fotos da série (Wikimedia Commons): Amazônia, lubasi (CC BY-SA 2.0); Cerrado, RebeloZero (CC BY-SA 4.0); Mata Atlântica, Dilze Lima (CC BY-SA 4.0); Caatinga, IoannesCarolus (CC BY-SA 4.0); Pantanal, dany13 (CC BY 2.0); Pampa, Roberta Farenzena (CC BY-SA 4.0).
Brasis do Brasil é a série semanal do AMB4 sobre os seis biomas brasileiros. Próximo episódio: Mata Atlântica.
22 de setembro de 2026
Conteúdo informativo, publicado em setembro 22, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.
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