Biodiversidade

Brasis do Brasil: quanto do nosso próprio país ainda não conhecemos?

Episódio de abertura da série Brasis do Brasil: os seis biomas em números, o que mudou em 41 anos segundo o MapBiomas e o que a ciência ainda não sabe sobre eles.

Por Redação AMB4 10 min
Faixas de fotos dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa

Série: Brasis do Brasil · Episódio: 00, Abertura · Dimensões: Ambiente, Sociedade, Futuro
Tags: biomas, IBGE, MapBiomas, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Pampa


Por Redação AMB4

O Brasil costuma ser apresentado como um único território, mas ambientalmente ele é formado por paisagens que funcionam de maneiras profundamente diferentes. Florestas úmidas, savanas, campos, áreas semiáridas e planícies periodicamente inundadas convivem dentro das mesmas fronteiras. Cada uma delas tem clima, solo, vegetação, dinâmica da água, fauna, história de ocupação e pressões humanas próprias.

É daí que nasce a série Brasis do Brasil. Em sete episódios, o AMB4 começa por esta visão geral e depois percorre, um a um, os seis biomas terrestres reconhecidos pelo IBGE: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Caatinga, Pantanal e Pampa. A proposta não é apenas mostrar onde eles estão, mas entender como mudaram, o que ainda conservam, quais ameaças enfrentam e o que a ciência vem descobrindo sobre eles.

Todos os episódios seguem a mesma lógica: mapa, área, comparação histórica, cobertura vegetal, transformações no uso da terra, curiosidades, características ecológicas e estudos acadêmicos.

Mapa do Brasil com os seis biomas: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa, com área e percentual de cada um
Os seis biomas brasileiros e a área de cada um. Fonte: IBGE. Elaboração: AMB4.

Os seis biomas em números

Segundo o IBGE, a Amazônia ocupa 49,5% do território brasileiro; o Cerrado, 23,3%; a Mata Atlântica, 13,0%; a Caatinga, 10,1%; o Pampa, 2,3%; e o Pantanal, 1,8%. Juntos, Amazônia e Cerrado somam 72,8% do país: quase três quartos do território nacional.

Bioma Área aproximada % do Brasil
Amazônia 4.210.931 km² 49,5%
Cerrado 1.984.554 km² 23,3%
Mata Atlântica 1.107.285 km² 13,0%
Caatinga 862.652 km² 10,1%
Pampa 193.996 km² 2,3%
Pantanal 151.001 km² 1,8%
Fonte: IBGE, Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil.
Gráfico em blocos proporcionais à área de cada bioma brasileiro
Cada bloco tem o tamanho proporcional à área do bioma. Elaboração: AMB4.

A extensão territorial, porém, conta só uma parte da história. No recorte estatístico do IBGE, que atribui a cada município o bioma que ocupa a maior parte do seu território, a Mata Atlântica é o bioma predominante em 2.741 municípios, ou 49,3% do total de 5.572. Ou seja, um bioma com 13% da área do país predomina em quase metade das cidades brasileiras.

Bioma predominante Municípios % dos municípios
Mata Atlântica 2.741 49,3%
Caatinga 1.095 19,7%
Cerrado 1.062 19,1%
Amazônia 503 9,0%
Pampa 162 2,9%
Pantanal 9 0,2%
Fonte: IBGE (2024), Bioma Predominante por Município para Fins Estatísticos.

O mesmo levantamento identificou 963 municípios interbiomas, cerca de 17% do total, cujo território se divide entre dois ou mais biomas.

Antes de começar: você conhece mesmo os biomas brasileiros?

  1. Qual bioma ocupa quase metade do Brasil?
    A Amazônia. Sozinha, ela corresponde a 49,5% do território nacional.
  2. Qual é o único bioma exclusivamente brasileiro?
    A Caatinga. Sua distribuição natural está inteiramente dentro do Brasil, o que torna sua conservação uma responsabilidade que não pode ser dividida com outro país.
  3. Qual bioma está presente em todas as grandes regiões brasileiras?
    O Cerrado. Sua distribuição alcança áreas das cinco grandes regiões do país.
  4. Qual é o menor bioma brasileiro em área?
    O Pantanal, com cerca de 151 mil km², ou 1,8% do território nacional.
  5. Qual bioma tem hoje a menor proporção de vegetação nativa?
    A Mata Atlântica. Em 2025, o MapBiomas estimou que apenas 32% de sua área permanecia classificada como vegetação nativa. Parte importante dessa transformação, porém, ocorreu muito antes do início da série de satélite, em 1985.
  6. Quais biomas mais perderam vegetação nativa em área absoluta entre 1985 e 2025?
    Amazônia e Cerrado. O MapBiomas calculou perdas acumuladas de aproximadamente 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente.
  7. E, proporcionalmente, quais tiveram as maiores reduções?
    Cerrado e Pampa. Entre 1985 e 2025, a redução proporcional da vegetação nativa foi de aproximadamente 34% no Cerrado e 32% no Pampa.
  8. Qual bioma depende diretamente de um grande pulso anual de cheias e secas?
    O Pantanal. A alternância entre inundação e estiagem organiza a paisagem, a vegetação, a fauna e boa parte das atividades humanas da planície.
  9. Qual bioma muita gente ainda associa apenas à seca, embora tenha grande diversidade biológica?
    A Caatinga. A aridez é central no ambiente, mas vegetação e fauna desenvolveram múltiplas estratégias de adaptação, e a biodiversidade do bioma está longe de ser simples ou pobre.
  10. Nós já conhecemos cientificamente todos esses biomas na mesma profundidade?
    Não. E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de toda a série.

Quarenta e um anos de transformação

A Coleção 11 do MapBiomas permite acompanhar ano a ano a cobertura e o uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025. Nesse intervalo, a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro. No sentido oposto, a agropecuária passou de 18% para 32%.

Gráfico: vegetação nativa cai de 79% para 65% e agropecuária sobe de 18% para 32% entre 1985 e 2025
Participação no território brasileiro, 1985 e 2025. Fonte: MapBiomas, Coleção 11.

Ao longo desses 41 anos, cerca de um terço do território brasileiro passou por pelo menos uma mudança de cobertura ou uso da terra. Na comparação direta entre 1985 e 2025, 241 milhões de hectares apresentaram alguma transição, e 136 milhões de hectares corresponderam à conversão de vegetação nativa em agropecuária.

Por que um número só pode enganar

Esses números não significam a mesma coisa em todos os biomas. Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas absolutas de vegetação nativa. Cerrado e Pampa aparecem com as maiores reduções proporcionais. A Mata Atlântica, por outro lado, tem hoje a menor proporção de vegetação nativa, porque grande parte de sua transformação aconteceu antes de 1985. Já o Pantanal exige uma leitura em que água, campos alagados, seca e fogo pesam tanto quanto a cobertura vegetal.

Por isso, comparar biomas por um único indicador pode induzir ao erro. Perder mais hectares não é necessariamente o mesmo que perder a maior parcela do que existia. E ter pouca perda nas últimas quatro décadas também não significa estar bem conservado quando a transformação principal aconteceu séculos antes.

O que as universidades estão revelando

Um estudo publicado em 2024 na revista Science of the Total Environment analisou informações geradas por dois programas brasileiros de pesquisa ecológica de longa duração. O trabalho reuniu 1.904 registros de metadados de campanhas de campo e chegou a uma conclusão desconfortável: nenhum dos biomas brasileiros estava suficientemente amostrado. A Caatinga apareceu como o bioma com menor quantidade de metadados disponíveis.

O problema não é só a falta de estudos. Parte da informação já coletada continua mal documentada ou difícil de localizar, o que pode levar novas equipes a repetir levantamentos já feitos simplesmente porque não sabem que os dados existem. Conhecer a biodiversidade brasileira não depende apenas de ir a campo: depende também de organizar, integrar e tornar acessível o conhecimento produzido.

O estudo, liderado por Aretha Franklin Guimarães e realizado por uma grande rede de pesquisadores ligada a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), UFRGS, UFMT, UFRJ e outras universidades e centros de pesquisa, reforça uma ideia central desta série: ainda há enormes lacunas sobre a biodiversidade do país, inclusive em biomas estudados há décadas.

Restaurar um bioma não é só plantar árvores

Outro estudo publicado em 2024 na mesma revista, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, da PUC-Rio e de outras instituições, reuniu 76 estudos e 1.281 amostras sobre restauração nos biomas brasileiros. Os autores compararam a recuperação da biodiversidade, da abundância de organismos e dos estoques de carbono.

A conclusão desmonta uma ideia simplista: a restauração ecológica não é um processo único, e os componentes do ecossistema não voltam na mesma velocidade. A abundância de organismos tende a se recuperar com mais facilidade; depois vêm os estoques de carbono; a recuperação da diversidade de espécies se mostrou a mais difícil. A análise também apontou desempenho elevado da regeneração natural assistida em diferentes contextos.

O próprio conjunto de estudos revela outra desigualdade: a maior parte das pesquisas disponíveis estava concentrada nos biomas florestais úmidos, especialmente Amazônia e Mata Atlântica. Cerrado e Caatinga estavam muito menos representados, e não havia estudos de Pampa ou Pantanal que atendessem aos critérios da meta-análise. Isso não quer dizer que esses biomas não tenham pesquisas sobre restauração, e sim que, para aquela pergunta científica e aqueles critérios, a base comparável ainda era insuficiente.

Seis biomas, seis histórias

A partir do próximo episódio, o AMB4 entra em cada um desses territórios separadamente, um por semana:

  1. Mata Atlântica: o bioma onde se concentrou grande parte da formação histórica, urbana e econômica do Brasil e que, apesar de séculos de transformação, continua reunindo uma biodiversidade extraordinária.
  2. Cerrado: o segundo maior bioma do país, berço de grandes bacias hidrográficas.
  3. Amazônia: a maior floresta tropical do planeta.
  4. Caatinga: o único bioma exclusivamente brasileiro.
  5. Pantanal: a planície movida pelo pulso das águas.
  6. Pampa: os campos do sul, com uma biodiversidade pouco conhecida.

Em cada episódio, a pergunta será parecida, mas a resposta certamente não: como esse bioma funciona, quanto dele mudou, o que ainda preservamos e o que a ciência já descobriu, ou ainda não conseguiu descobrir, sobre ele.

Talvez conhecer seja o primeiro passo para conservar

Falar de biomas não é apenas falar de vegetação. É falar de água, clima, solo, animais, cidades, agricultura, cultura, energia, história e também das escolhas que o Brasil fez sobre o próprio território.

Há um Brasil úmido e outro semiárido. Há florestas, campos e savanas. Há paisagens que queimam naturalmente em determinados contextos e outras profundamente vulneráveis ao fogo. Há lugares onde a água passa meses cobrindo o solo e outros onde sobreviver significa economizar cada gota.

São diferentes Brasis dentro do mesmo Brasil. E talvez a pergunta que abre esta série seja também a que vai acompanhá-la até o fim: quanto do nosso próprio país ainda não conhecemos?


Fontes

Fotos da série (Wikimedia Commons): Amazônia, lubasi (CC BY-SA 2.0); Cerrado, RebeloZero (CC BY-SA 4.0); Mata Atlântica, Dilze Lima (CC BY-SA 4.0); Caatinga, IoannesCarolus (CC BY-SA 4.0); Pantanal, dany13 (CC BY 2.0); Pampa, Roberta Farenzena (CC BY-SA 4.0).


Brasis do Brasil é a série semanal do AMB4 sobre os seis biomas brasileiros. Próximo episódio: Mata Atlântica.

22 de setembro de 2026

Conteúdo informativo, publicado em setembro 22, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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