Biodiversidade

Só 15 a 25 espécies fazem a Amazônia se recuperar sozinha, e isso muda a conta do plantio compensatório

Vista aérea do dossel de uma floresta amazônica densa e verde, com colinas ao fundo
Foto: Jay/Flickr, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Um estudo publicado em agosto na revista Global Change Biology encontrou um padrão que muda a forma de pensar restauração florestal na Amazônia: entre milhares de espécies de árvores que aparecem em florestas que estão se recuperando depois de virar pasto ou lavoura, um grupo pequeno, de 15 a 25 espécies, é responsável por mais da metade do carbono que essas florestas acumulam. A pesquisa é assinada por Fernando Elias, do Museu Paraense Emílio Goeldi, com apoio do Instituto Serrapilheira, do CNPq e da Rede Amazônia Sustentável, e chega em um momento em que licenciamento, supressão de vegetação e plantio compensatório estão cada vez mais sob exigência de resultado, não só de intenção.

O que o estudo mediu

A equipe analisou 102 parcelas de floresta secundária (aquela que nasce de novo depois do desmatamento) espalhadas por quatro regiões da Amazônia, com distância média de 600 km entre elas, dentro de um monitoramento de longo prazo. Em Capitão Poço, no Pará, o grupo instalou duas torres microclimáticas, de 20 e 40 metros, para medir diretamente o efeito da floresta sobre a temperatura e a umidade do ar.

O achado central: apesar da diversidade imensa de árvores amazônicas, só 15 a 25 espécies (3% a 6% do total registrado nas parcelas) concentram mais de 50% do carbono acumulado nessas florestas em regeneração. Quatro delas aparecem com destaque especial, juntas somando de 16% a 27% do carbono acumulado nas parcelas estudadas: embaúba, tatapiririca, ingá-vermelho e araticum-bravo. São espécies pioneiras, que toleram sol direto, solo pobre e perda rápida de água, e que abrem caminho para que espécies menos resistentes se instalem depois.

Gráfico: poucas espécies concentram a maior parte do carbono
De 15 a 25 espécies pioneiras concentram mais de 50% do carbono acumulado na floresta em regeneração. Fonte: Elias et al., Global Change Biology, ago/2026.
Floresta amazônica ao norte de Manaus, vista do alto de uma torre de observação meteorológica
Foto: Phil P Harris, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.5)

O tamanho do que está em jogo

A floresta secundária não é um detalhe da paisagem amazônica: o estudo estima que ela já cobre 148 mil km² da Amazônia, uma área maior que o estado do Ceará. E o retrato é ambíguo. De um lado, o potencial de recuperação é real: essas florestas recompõem 88% da riqueza de espécies em 40 anos e acumulam 24% do carbono de uma floresta primária em apenas 20 anos (cerca de 1,2% ao ano). As torres microclimáticas de Capitão Poço mediram um efeito concreto desse processo: áreas florestadas ficam de 2°C a 3°C mais frias que áreas desmatadas ao redor. Segundo Elias, ao remover a floresta “perde-se o serviço de lançar água para a atmosfera”, a evapotranspiração que resfria a região e alimenta o ciclo de chuvas.

De outro lado, o estudo também mede o risco: 57% dessas florestas secundárias sofrem nova derrubada em até 10 anos. Ou seja, mais da metade do esforço de regeneração é desfeito antes de chegar aos 24% de carbono ou aos 88% de riqueza que a pesquisa documentou como possíveis.

Gráfico: o que se recupera, e o risco que ronda esse ganho
Base: 148 mil km² de floresta secundária mapeados na Amazônia. Fonte: Elias et al., Global Change Biology, ago/2026.
Embaúba (Cecropia), uma das quatro espécies pioneiras destacadas no estudo, fotografada no sul de Minas Gerais
Foto: Ernani Zimmermann, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

A conclusão prática: proteger costuma valer mais que plantar

A leitura que o próprio estudo sugere, e que já vinha sendo discutida na literatura de restauração florestal, é direta: onde existe regeneração natural em curso, protegê-la e conduzi-la costuma ser mais eficiente do que arrancar tudo e plantar de novo. Isso não é uma opinião fora da lei brasileira, é uma das opções que o Código Florestal já prevê.

O que isso muda para quem trabalha com meio ambiente

A Lei 12.651/2012 (Código Florestal), no art. 66, § 1º, incisos I a III, já trata a condução da regeneração natural como método equivalente ao plantio para recompor Reserva Legal, ao lado do plantio de mudas e da compensação. A Resolução CONAMA nº 429/2011, que disciplina a metodologia de recuperação de Áreas de Preservação Permanente, segue a mesma lógica: a condução da regeneração natural está entre os métodos aceitos, ao lado do plantio de espécies nativas e dos sistemas agroflorestais. O estudo de Elias et al. dá um argumento técnico concreto para usar essa via com mais frequência, não só como economia de custo, mas como estratégia com melhor retorno ecológico por real investido, desde que a área tenha banco de sementes viável nas proximidades.

Mudas de espécies nativas plantadas em área urbana de Porto Alegre, parte de um programa municipal de arborização
Foto: Sergio Louruz/SMAMUS/PMPA (Agência Porto Alegre), via Wikimedia Commons (uso livre com atribuição)

Na prática, isso sugere três pontos para laudo técnico e PRAD:

  • Diagnóstico antes da prescrição. Antes de fechar o projeto de plantio compensatório, vale mapear se já existe regeneração espontânea na área e se espécies como embaúba, tatapiririca, ingá-vermelho ou araticum-bravo (ou equivalentes pioneiras da região) já estão se instalando sozinhas. Isso pode justificar tecnicamente a condução da regeneração natural como método principal, com plantio de enriquecimento pontual só onde faltar.
  • Monitoramento de longo prazo pesa mais do que parece. Com 57% das florestas secundárias sendo derrubadas de novo em até 10 anos, cláusula de manutenção e visitas de acompanhamento no TCRA ou no PRAD deixam de ser formalidade e passam a ser o que decide se a compensação realmente aconteceu.
  • Dado para quem mexe com carbono. Os 24% de carbono em 20 anos são uma referência numérica útil para quem está estruturando projeto de restauração com vista a crédito de carbono sob o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (Lei 15.042/2024): dá para estimar sequestro esperado sem depender só de tabela genérica.

Pelos 4 lados

Ambiente: a floresta não precisa de milhares de espécies plantadas para começar a funcionar de novo, um punhado de pioneiras já destrava o processo, desde que tenha fonte de semente por perto.

Sociedade: 148 mil km² de floresta secundária é também 148 mil km² de história de uso da terra, pasto e lavoura abandonados que podem virar ativo ambiental se ninguém derrubar de novo.

Economia: conhecer as espécies-chave pode baratear projeto de restauração e de plantio compensatório, e o dado de 24% de carbono em 20 anos já serve de régua para quem estrutura projeto de crédito de carbono.

Futuro: o dado mais duro do estudo não é biológico, é comportamental: 57% dessas florestas voltam a cair em 10 anos. A ciência já sabe como a floresta se recupera sozinha, falta garantir que ela tenha tempo para isso.

Conteúdo informativo, não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

18 de setembro de 2026

Fontes

  • Elias, F. et al., “Hyperdominance and Rarity in Amazonian Secondary Forests”, Global Change Biology, 17 de agosto de 2026, DOI: 10.1111/gcb.70970: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.70970
  • Instituto Serrapilheira, “Pesquisadores brasileiros identificam espécies-chave para a recuperação da floresta amazônica”: serrapilheira.org
  • Mongabay, “Key tree species boost Amazon forest restoration, new study shows”, setembro de 2026: news.mongabay.com
  • Phys.org, “How only a few tree species drive Amazon forest recovery”, agosto de 2026: phys.org
  • Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal), art. 66: camara.leg.br
  • Resolução CONAMA nº 429, de 28 de fevereiro de 2011: epsjv.fiocruz.br (PDF)

Conteúdo informativo, publicado em setembro 18, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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