Tour Ambiental pelo Mundo

Costa Rica: como um país do tamanho da Bahia concentra 5% da biodiversidade do planeta e roda a 98,6% de energia limpa

Estreia do Tour Ambiental pelo Mundo: a Costa Rica tem 0,03% da superfície da Terra e guarda 5% da biodiversidade do planeta, com 98,6% de eletricidade renovável em 2025, depois de décadas pagando quem preservava a floresta.

Por Leonardo Hidalgo Dias 14 set 20266 min Ambiente
Mulher com mochila segurando a bandeira da Costa Rica em trilha com vista para o Vulcão Arenal e uma cachoeira ao fundo

Série: Tour Ambiental pelo Mundo · País: Costa Rica · Dimensão: Ambiente
Tags: Costa Rica, energia renovável, desmatamento, pagamento por serviços ambientais, biodiversidade, descarbonização


Por AMB4

Vista aérea da floresta nublada de Monteverde, Costa Rica, com dossel denso de árvores e neblina ao fundo
Floresta nublada de Monteverde: parte dos quase 3 milhões de hectares que a Costa Rica recuperou depois de quase perder metade do território para o desmatamento. Foto: Cephas, CC BY-SA 4.0

A Costa Rica ocupa 0,03% da superfície terrestre do planeta e concentra cerca de 5% de toda a biodiversidade conhecida, quase meio milhão de espécies descritas. Em 2025, 98,6% de toda a eletricidade consumida no país veio de fontes renováveis. Nenhum dos dois números é acidente: os dois são resultado direto de política pública, sustentada por décadas, com fonte de financiamento própria e lei federal por trás. É essa engenharia institucional, mais do que a natureza generosa, que abre a primeira edição do Tour Ambiental pelo Mundo.

De metade do território coberto por floresta a quase perder tudo

Em 1950, florestas cobriam mais da metade do território costarriquenho. Nas décadas seguintes, a expansão da pecuária e da agricultura reduziu essa cobertura de forma acelerada: por volta de 1995, o país tinha apenas 25% do seu território florestado, e alguns levantamentos da época apontam mínimos ainda menores ao longo da década de 1980. A Costa Rica caminhava para o mesmo padrão de perda florestal que hoje preocupa países como o Brasil.

Pagar para não desmatar: como o Pagamento por Serviços Ambientais reverteu a curva

A resposta veio pela Lei Florestal nº 7575, de 1996, que criou o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e o Fondo Nacional de Financiamiento Forestal (FONAFIFO) para executá-lo. A lógica é direta: o proprietário rural recebe um valor por hectare para manter a floresta em pé, reflorestar ou fazer manejo sustentável, em vez de desmatar para abrir pasto ou lavoura.

O programa é bancado por uma fatia do imposto sobre combustíveis fósseis, por cobrança sobre uso da água e por fontes complementares como certificados de conservação da biodiversidade e créditos de carbono. Desde 1997, mais de 1,3 milhão de hectares já entraram em contratos de PSA, envolvendo mais de 18 mil famílias, com investimento acumulado de US$ 524 milhões. O resultado: a cobertura florestal voltou a subir e hoje está entre 52,4% do território, na medição oficial mais rigorosa do Sistema Nacional de Áreas de Conservação (SINAC, referente a 2015), e 59%, segundo estimativa do Banco Mundial para 2020. Por qualquer uma das duas métricas, o país pelo menos dobrou a área de floresta que tinha em seu ponto mais crítico.

Panorama do Vulcão Arenal cercado por floresta tropical, Costa Rica
Vulcão Arenal: o relevo vulcânico do país também é matéria-prima da matriz elétrica, através da geotermia. Foto: Rhododendrites, CC BY-SA 4.0

98,6% de eletricidade limpa, mas não em todo ano

Em 2025, a Costa Rica fechou o ano com 98,6% da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis, hidrelétrica na liderança, complementada por geotermia em áreas vulcânicas, parques eólicos em zonas de maior altitude, e parcelas menores, porém crescentes, de solar e biomassa. O país mantém mais de 95% de eletricidade limpa há mais de uma década.

Vale o contraponto, porque o dado isolado de um único ano esconde a fragilidade do sistema: em 2024, ano de seca ligada ao fenômeno El Niño, a geração renovável caiu para cerca de 86%, com termelétricas a combustível fóssil cobrindo a diferença enquanto os reservatórios das hidrelétricas baixavam. A dependência forte de hidrelétrica é também um ponto de atenção, não só uma virtude.

25% do território é área protegida por lei

Um quarto do território costarriquenho está sob algum regime de proteção ambiental: 28 parques nacionais, além de dezenas de refúgios de vida silvestre, zonas protegidas, reservas florestais, reservas biológicas e áreas de manguezal e zona úmida. É nesse conjunto de áreas protegidas, somado à recuperação florestal do PSA, que a Costa Rica sustenta os quase 500 mil espécies conhecidas em seu território, apontados pelo Royal Botanic Gardens, Kew, como cerca de 5% de toda a biodiversidade estimada do planeta, ocupando 0,03% da superfície terrestre.

A meta que poucos países assumiram: zero carbono até 2050

Em 2018, a Costa Rica lançou o Plano Nacional de Descarbonização 2018-2050, submetido à ONU como estratégia de longo prazo no âmbito do Acordo de Paris, com meta de emissões líquidas zero até 2050. O plano está organizado em dez eixos que vão muito além de energia elétrica: mobilidade pública de base renovável, veículos leves com zero emissão, transporte de carga de baixa emissão, modernização do sistema elétrico, edificações de alta eficiência, indústria com energia renovável, gestão integrada de resíduos com reaproveitamento, sistemas agroalimentares de baixo carbono, pecuária com redução de emissões e ordenamento territorial a favor da biodiversidade e da cobertura florestal. Ou seja: o mesmo país que resolveu a conta da eletricidade já está tentando resolver a conta do transporte, da indústria e da agropecuária, com um plano formal e prazo definido.

O que fica para quem trabalha com meio ambiente no Brasil

O Brasil não carece de estudo, nem de dado, nem de lei ambiental, como mostramos nas últimas semanas aqui no AMB4. O que salta aos olhos no caso costarriquenho é o mecanismo de financiamento carimbado: uma fatia de um imposto que já existia (o de combustível) virou, por lei, a fonte permanente de um programa ambiental, sem depender de orçamento discricionário renovado ano a ano. É essa previsibilidade de trinta anos, mais do que qualquer tecnologia, que sustenta o pagamento a mais de 18 mil famílias e a recuperação de mais de um milhão de hectares de floresta.

Em números

Eletricidade renovável em 2025 98,6%
Eletricidade renovável em 2024 (ano de seca) ~86%
Anos consecutivos acima de 95% de eletricidade limpa mais de 10
Cobertura florestal em 1995 25% do território
Cobertura florestal hoje (SINAC, 2015 / Banco Mundial, 2020) 52,4% / 59%
Lei que criou o Pagamento por Serviços Ambientais Lei Florestal nº 7575, 1996
Área sob contrato de PSA desde 1997 mais de 1,3 milhão de hectares
Famílias beneficiadas pelo PSA mais de 18.000
Investimento acumulado no PSA US$ 524 milhões
Território sob proteção ambiental 25%
Parques nacionais 28
Participação na biodiversidade mundial, em 0,03% da superfície terrestre ~5%
Meta de emissões líquidas zero 2050

Fontes:


Tour Ambiental pelo Mundo é a série de terça-feira do AMB4: toda semana, o meio ambiente de um país diferente.

13 de setembro de 2026 (primeira edição)

Conteúdo informativo, publicado em setembro 14, 2026. Não substitui consultoria técnica ou jurídica específica.

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